Desafiando um consenso científico estipulado há décadas, um novo estudo afirma que a Terra, Vênus e outros planetas se formaram por repetidos choques, onde eles ricochetearam do primeiro impacto e bateram de novo anos e anos depois.

A premissa é contrária ao que especialistas afirmam há anos: segundo eles, a formação planetária se dá quando asteroides de vários portes se chocam entre si, “grudando” um no outro e promovendo a terraformação ao longo de bilhões de anos.

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Imagem da Terra, que junto de Vênus, teria se formado por vários choques, segundo estudo
Um novo estudo desafia consenso científico e afirma que a Terra, Vênus, a Lua e outros planetas teriam se formado de vários choques no espaço, e não apenas um (Imagem: KeyFame/Shutterstock)

Ao invés disso, os autores do estudo propõem que esse processo se deu mais por um cenário de “bateu e correu”, sugerindo que boa parte dos corpos planetários no centro do nosso sistema solar se chocaram várias vezes em suas jornadas. A primeira pancada serviria para desacelerar os objetos, enquanto suas órbitas garantiriam que eles se chocariam de novo, até estarem tão lentos que uma nova pancada não os ejetaria pelo espaço, mas sim os faria grudar e se fundirem.

A grosso modo, pense em uma partida de sinuca: você bate na bola branca, ela se dirige à outra bola colorida. Dependendo da pancada, as duas bolas podem se desviar do curso normal.

“Nós descobrimos que a maior parte dos grandes impactos, mesmo os mais lentos, seguiram o processo de ‘bate-e-correr’”, disse Erik Asphaug, professor de ciências planetárias da Universidade do Arizona e co-autor de dois estudos no assunto. “Isso significa que, para dois planetas se fundirem, você primeiro teria que desacelerar-los com uma batida anterior. Se pensarmos em impactos gigantes – como por exemplo a formação da Lua – como eventos singulares, estaremos provavelmente errados. É bem mais provável que ali tenham ocorrido dois choques seguidos”.

A mesma premissa é estabelecida em um dos estudos para Terra e Vênus: segundo os autores, é bem provável que a Terra tenha servido como “guarda-costas” de Vênus contra objetos vindos da borda externa do sistema solar. Basicamente, muitos objetos na direção de Vênus, acertaram a Terra antes. Assim, quando chegassem ao seu objetivo, estariam lentos demais e acabariam “mesclados” ao nosso vizinho imediato.

Isso porque o sistema solar é entendido por cientistas como um “poço gravitacional”. Você já deve ter visto isso em parques de diversões: uma tigela de metal com um buraco no meio, onde a atração é você jogar moedas, vendo-as dar voltas e voltas até caírem pelo buraco.

O mesmo conceito é entendido em nosso sistema solar: no caso, o nosso “buraco” é o Sol. E quanto mais perto dele um objeto estiver, maior será a força gravitacional exercida. É por essa razão que Mercúrio, Vênus e Terra – os três primeiros planetas do nosso sistema – têm uma rotação mais rápida que, digamos, Júpiter, Saturno e Urano.

Asphaug, junto de Alexandre Emsenhuber, o outro autor, fomentam a ideia de que, dentro desse conceito, qualquer objeto externo que ricocheteasse após a atingir a Terra, não teria força suficiente para escapar da gravidade quando chegasse em Vênus, “colando” no segundo planeta do sistema solar e ampliando a sua formação.

“Pense em uma bolinha caindo de uma escada”, disse Emsehuber. “Ao longo do caminho, a bolinha perde energia, e você vai perceber que ela sempre quica para baixo, nunca para subir a escada. Nesse mesmo princípio, o corpo planetário não consegue mais deixar o sistema solar. Você geralmente só ‘desce a escada’, em direção a Vênus, e um objeto que se choca com ele vai se contentar a ficar aqui”.

Na analogia, cada quicada da bolinha na escada representa um choque de corpos planetários.

Imagem da Lua com a Terra ao fundo
A Lua também é objeto onde o senso comum de formação planetária encontra obstáculos: um único impacto não explica a composição química do nosso satélite – mas vários impactos sim. Imagem: Elena11/Shutterstock

No caso da Terra, não há um “guarda-costas” que nos proteja de choques, então a nossa formação foi bem mais direta, contribuindo para a diferença de tamanho entre a nossa casa e Vênus. Embora não por muita diferença, somos relativamente maiores (12.742 km de diâmetro para nós, contra 12.104 km para ele).

“A ideia é a de que não importa muito se planetas se colidem e não se fundem de primeira: eventualmente, eles vão se bater de novo”, disse Emsenhuber. “Entretanto, não foi isso que descobrimos: frequentemente, esses objetos acabam se tornando uma parte de Vênus ao invés de voltarem para a Terra. É mais fácil sair daqui e ir para lá do que o caminho contrário”.

Usando softwares de simulação e modelagem em 3D, os dois cientistas testaram com sucesso a sua teoria, projetando esse mesmo modelo também para a Lua, obtendo resultados favoráveis:

“O modelo de consenso diz que, para a formação da Lua, uma colisão bem lenta seria necessária”, disse Asphaug. “Isso resultaria em uma Lua composta majoritariamente de restos do planeta que bateu – e não da Terra primária, o que é um problemão, já que a Lua tem uma química isotópica quase idêntica à nossa”.

Ao invés disso, Asphaug afirma que um planeta mais ou menos do tamanho de Marte bateu na Terra, assim como postula o modelo original. A diferença é a de que esse planeta continuou seu movimento, eventualmente batendo na Terra de novo, mas dessa vez, a velocidade reduzida contribuiu para uma fusão mais consistente, misturando mais a configuração química até chegarmos no que temos hoje.

A expectativa é a de que os dois estudos permitam que novas descobertas sejam feitas para responderem a perguntas mais antigas: por exemplo, por que o nosso campo magnético é mais forte que o de Vênus? Ou então, por que Vênus não tem uma Lua própria?

Os dois estudos foram publicados no The Planetary Science Journal.

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