Uma floresta de mangue localizada no centro da Península de Iucatã desafia o consenso científico ao crescer longe das praias e regiões costeiras. A presença de uma floresta tão densa na região do rio San Pedro Martin fez com que pesquisadores da Universidade da Califórnia conduzissem um estudo para descobrir como isso foi possível.

Basicamente, florestas de mangue tendem a crescer perto de praias e outras áreas litorâneas pois a sua vegetação é altamente tolerante à água salgada dos mares. Isso porque essa vegetação possui propriedades que filtram até 90% da salinidade aquática, se alimentando da água fresca que sobra desse processo.

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Imagem mostra uma floresta de mangue que cresce longe das praias, objeto de estudo científico pela Universidade da Califórnia
Floresta de mangue é remanescente de um passado distante, quando o nível do mar era bem mais alto e a região de Tabasco era totalmente inundada pelo oceano (Imagem: Octavio Aburto/Universidade da Califórnia/Reprodução)

O estudo, publicado no último dia 4 no jornal Proceedings of the National Academy of Sciences, revela que a existência da floresta não é bem uma anomalia científica, ao menos, não no sentido botânico. Assim como outros mangues, essa região de fato cresceu em meio aos mares – há mais ou menos 125 mil anos.

Por meio de técnicas de modelagem temporal e integração com dados geológicos, genéticos e de vegetação, os cientistas conseguiram determinar que a floresta de mangue do rio San Pedro Martin vem de um tempo onde o nível do mar era consideravelmente mais alto, mas há 125 mil anos, aproximadamente, os oceanos retrocederam para a posição onde se encontram hoje, deixando a floresta isolada.

A descoberta serve como uma espécie de “fotografia do tempo”, fornecendo aos pesquisadores uma boa ideia de como era o ecossistema da Terra em um momento onde sua temperatura era mais quente e as calotas polares estavam praticamente derretidas, elevando o nível do mar.

“A melhor parte deste estudo é o fato de que fomos capazes de examinar um sistema de mangue que está isolado há mais de 100 mil anos”, disse Octavio Aburto-Oropeza, co-autor do paper e ecologista marinho do Instituto Cripps de Oceanografia, ligado à Universidade da Califórnia-San Diego. “Certamente, há muito mais o que se descobrir sobre como essas muitas espécies se adaptaram ao longo de condições ambientais diferenciadas ao longo de 100 mil anos. Estudar essas adaptações será muito importante para nós entendermos condições futuras causadas pelo aquecimento global”.

Segundo o estudo, na época do surgimento do mangue, o nível do mar estava entre seis e nove metros mais alto – um volume mais do que suficiente para inundar por completo o que hoje corresponde à região de Tabasco, um dos 31 estados mexicanos, localizado na região sudeste do país. Isso prova que muito terreno das planícies do Golfo do México estava debaixo d’água durante o último período interglacial (nome dado a momentos do tempo posicionados entre eras de gelo: o atual período holocênico em que vivemos, por exemplo, é considerado um período interglacial).

A ideia de pesquisar esse ecossistema veio de Carlos Burello, um botânico especializado em mangues e nativo de Tabasco. Ele conta que, quando criança, costumava brincar no mangue, mas nunca entendeu de fato como essa floresta “foi parar ali”. Adulto, seu trabalho analítico da região serviu como base para o premiado documentário “Memories of the Future: the modern discovery of a relict ecosystem” (“Memórias do Futuro: a descoberta moderna de uma relíquia de ecossistema”),

Esse documentário, por sua vez, ofereceu a base para o paper da universidade californiana.

Foto aérea da região de San Pedro Martin, um rio no estado de Tabasco, no México
Região fica em Tabasco, um estado do México que conta com o rio San Pedro Martin, mas nenhuma presença de mar (Imagem: Octavio Aburto/Universidade da Califórnia/Reprodução)

Claudia Henriquez e Felipe Zapata comandaram a análise genética da região, constatando não só a idade aproximada do mangue e a razão de sua existência longe das praias, mas também identificando outras espécies de vegetação que também vivem na área, mas cuja biologia, em situações normais, as colocaria mais próximas ao litoral.

“Essa é uma descoberta extraordinária”, disse Zapata. “Não apenas por esse mangue com suas origens impressas em seu DNA, mas também por todo o ecossistema costeiro do último período interglacial ter encontrado refúgio aqui”.

Os autores e os colaboradores do estudo, porém, ressaltam um problema: a região foi sistematicamente devastada em virtude de um plano mal concebido de desenvolvimento urbano, e a presença humana ainda é uma ameaça ao pouco ecossistema que sobrou. Por isso, há uma necessidade de se conscientizar as autoridades locais quanto à preservação do mangue, e sua importância histórica para o estudo científico.

“Esperamos que os nossos resultados convençam o governo de Tabasco e a administração ambiental do México a defender esse ecossistema”, disse Paula Ezcurra, gerente do programa de ciências da Aliança Científica Climática, que participou do estudo.

“A história dos ciclos glaciais do período Pleistoceno está escrita no DNA de suas plantas, esperando que cientistas a decifrem, mas o mais importante é que os mangues de San Pedro estão nos alertando sobre o impacto dramático do aquecimento global nas planícies costeiras do Golfo do México, se nós não tomarmos ações urgentes para parar a emissão de gases do efeito estufa”, comentou.

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