Pesquisadores revelaram que uma espécie de peixe consegue enxergar muito mais cores do que os seres humanos. O estudo, publicado na revista científica Science Advances, foi conduzido por cientistas da Universidade de Sussex, no Reino Unido.

O peixe-zebra pode decifrar cores de uma maneira muito mais simples do que os humanos. Imagem: Joan Carles Juarez – Shutterstock

O professor de neurociência Tom Baden e sua equipe estavam investigando como o peixe-zebra responde e distingue entre diferentes comprimentos de onda ou cores de luz. “O peixe-zebra, ao contrário dos humanos, tem quatro tipos de fotorreceptores cônicos, células especializados na retina que respondem à luz. Esses quatro tipos são frequentemente chamados vermelho, verde, azul e UV. O pressuposto é que cada um deve fazer o que diz seu nome: o vermelho deve responder à luz vermelha, a verde à luz verde e assim por diante. No entanto, descobrimos que esse não é o caso”.

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Segundo Baden, nas primeiras medições in-vivo diretas de ‘ajuste de cor’ de um fotorreceptor de vertebrado, eles notaram que o peixe-zebra pode decifrar cores de uma maneira muito mais simples do que os humanos. Com a colaboração de pesquisadores da Universidade de Tübingen, na Alemanha, e da Faculdade Baylor de Medicina, no Texas, EUA, a equipe descobriu que enquanto ‘cones vermelhos’ responderam ao brilho, ou seja, informações em preto ou branco, os ‘cones verdes’ responderam às informações de cor. 

Baden explica: “Em princípios básicos, a visão a cores requer circuitos visuais para separar o brilho das informações das cores. Na natureza, eles estão fundamentalmente entrelaçados, de forma que desenredá-los não é uma tarefa simples, o que em alguns casos pode exigir muitos neurônios”.

“Em humanos, alguns deles estão distribuídos pelos olhos e o cérebro de formas que ainda estão longe de serem compreendidas”, diz ele. “Em contraste, os peixes-zebra resolvem esse problema básico por si mesmos o mais cedo possível, na sinapse dos próprios fotorreceptores”.

Segundo Baden, essa “estratégia de peixes” está provavelmente muito mais próxima da ‘origem da visão’ em vertebrados. 

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Na evolução, maioria dos mamíferos se tornou dicromática

De acordo com o site Eurekalert, a pesquisa diz que, durante a era dos dinossauros, os primeiros ancestrais mamíferos dos humanos escaparam para as florestas e adotaram um estilo de vida noturno. No processo, eles perderam quase todos os tipos de fotorreceptores cônicos, resultando na maioria dos mamíferos dicromáticos – capazes de enxergar apenas em duas cores.

Gatos e cachorros são alguns dos mamíferos dicromáticos – capazes de enxergar apenas em duas cores. Imagem: Susan Schmitz – Shutterstock

Cães, gatos, cavalos e até hamsters e camundongos podem distinguir azuis de verdes, mas nenhum deles consegue distinguir prontamente verdes de vermelhos. Consequentemente, imaginamos que eles vejam o mundo em cores que podem ser semelhantes às que um ser humano cego para o vermelho e o verde pode experimentar.  

Ao contrário desses mamíferos, os humanos e a linhagem evolutiva de gorilas e chimpanzés, muito mais tarde, evoluíram para se tornarem tricromáticos, recuperando algumas das habilidades perdidas na visão de cores. 

No entanto, isso ocorre de uma maneira muito mais complicada, que requer muitos cálculos, que se acredita serem realizados pelo cérebro e não pelo olho. Esse é um processo complexo e indica que a distinção entre algumas cores deve ser aprendida na primeira infância, por meio do córtex em desenvolvimento. 

“Nosso estudo mostra essencialmente que vertebrados como o peixe-zebra e, presumivelmente, a maioria dos vertebrados não mamíferos como outros peixes, pássaros, répteis e anfíbios, podem realmente resolver esse ‘quebra-cabeça de cores’ fundamental logo na primeira sinapse de visão”, diz Baden. 

“Em comparação, os humanos estão presos a essa estratégia excessivamente complicada de ‘imitação’ por causa da ancestralidade dos mamíferos primitivos”, explica.

Moscas distinguem cores da mesma forma que os peixes-zebra

O estudo também faz referência a insetos, já que as moscas também têm quatro desses ‘fotorreceptores de visão a cores’, determinando a cor exatamente da mesma forma que o peixe-zebra, apesar de evoluir de forma completamente independente. 

Moscas também veem as cores exatamente da mesma forma que o peixe-zebra. Imagem: Diaz Aragon – Shutterstock

Em um artigo de acompanhamento, que deve ser publicado em breve na Current Biology, os pesquisadores usam a mesma técnica para investigar a segunda camada de processamento na retina, as chamadas células bipolares.

Expandindo os resultados acima, eles mostram que na segunda camada de processamento, o peixe-zebra representa três (em vez dos dois anteriores) tipos de contraste de cor. 

Esse terceiro é construído comparando-se a radiação ultravioleta com todos os outros comprimentos de onda, e tem uma notável semelhança com um dos dois canais de cores que os humanos usam – o chamado sistema “azul-amarelo”.

Juntos, os estudos sugerem que o sistema humano azul-amarelo é verdadeiramente antigo, anterior à separação dos tetrápodes dos peixes há quase 400 milhões de anos. 

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