A última vez que Adele lançou um álbum, Barack Obama era presidente dos Estados Unidos (EUA) e o streaming era um formato de nicho que ainda não havia dominado a indústria da música. Seis anos depois, após um longo período fora dos holofotes, a superestrela britânica e considerada uma das melhores vozes da atualidade está de volta com um novo single, ‘Easy on Me‘, que foi lançado na última quinta-feira (15). O novo álbum, ‘30‘, chega em 19 de novembro.

O recorde tem tudo para ser um dos maiores eventos musicais de 2021, apontam analistas da indústria musical. Mas, para Adele – a artista mais vendida dos anos 2010, famosa por movimentar grandes somas de CDs e downloads digitais – as apostas estão mais altas do que deveriam. Especialistas estão observando atentamente para ver se ela consegue manter os números e impacto cultural em um mercado muito diferente, que favorece o streaming em vez das vendas tradicionais e onde os artistas lutam para prender a atenção do público.

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Hoje, as assinaturas de streaming alimentam quase dois terços da receita de música gravada dos EUA, ante menos de 20% em 2015, de acordo com a Recording Industry Association of America – entidade responsável pela indústria (e pelo GRAMMY também). Os artistas agora lançam música com muito mais frequência, tornando mais difícil para qualquer ato dominar os charts, e por consequência, o público por muito tempo.

“É mais fácil para ela parecer um fracasso”, diz Mark Mulligan, analista da indústria musical da Midia Research, em entrevista ao The Wall Street Journal. “Mas, da mesma forma, se ela conseguir ter sucesso contra todas as probabilidades, ela terá conquistado sua posição como um dos maiores nomes da música de todos os tempos”.

Especialistas e executivos da indústria esperam que as vendas de álbuns tradicionais da cantora caiam substancialmente em comparação com o último disco, ’25’, lançado em 2015. Todavia, eles também veem o poder cultural permanecer intacto, apostando que a nova gravação de Adele dominará as discussões públicas em 2022… e depois.

Vale ressaltar que na época de lançamento de ’25’, as assinaturas de serviços de streaming estavam ganhando força. O ano seguinte marcou uma virada, de fato, para a indústria da música nesse sentido, quando as plataformas em questão deram o primeiro grande salto nas receitas do setor – algo que não acontecia desde 1999.

Na época, algumas das grandes estrelas da música não tinham abraçado totalmente o streaming, que não é tão lucrativo quanto CDs e downloads digitais. Para maximizar as vendas do álbum, Adele reteve ’25’ dos serviços de streaming por meses – Spotify e Apple Music, inicialmente, nem sabiam se o álbum apareceria nas plataformas. Apesar do ímpeto, o disco se tornou o segundo mais vendido dos anos 2010 nos EUA (perdendo apenas para o antecessor ’21’, também de Adele, de 2011), de acordo com a Billboard.

Adele sugeriu recentemente que o novo álbum seria diferente em praticamente tudo comparado ao trabalho anterior – comentários que também podem servir para gerenciar as expectativas. “Não há um [single) bombástico como ‘Hello’’”, disse a cantora à revista Vogue, referindo-se ao mega hit. “Não quero outra música como essa. Essa música me catapultou para a fama a outro nível que não quero que aconteça de novo”, afirmou.

A maior mudança provavelmente serão as vendas de música tradicional. Mesmo gigante na indústria, será um desafio para Adele igualar ’25’, que movimentou um recorde de 3,4 milhões de cópias na primeira semana apenas nos EUA. Até o momento, o disco acumulou 9,6 milhões em vendas no país, incluindo 6,7 milhões de cópias físicas.

Dan Runcie, fundador da empresa de mídia musical Trapital, por exemplo, espera que os números da primeira semana de Adele nos EUA com ’30’ totalizem mais de 800 mil unidades equivalentes ao álbum – uma medida que inclui tanto as vendas tradicionais quanto o streaming.

Ao contrário de ’25’, a cantora parece estar planejando lançar o álbum em streaming imediatamente, de acordo com entrevista à Vogue. Isso significa que os fãs têm a opção de não o comprar fisicamente ou digitalmente.

Adele pode ser superior às mudanças na indústria

Ouvir música em 2021 tornou-se mais fragmentado do que nunca. Momentos épicos de shows e performances são cada vez mais raros, pois instituições de mídia de longa data, como o rádio e a TV, perderam um alcance considerável. As estrelas principais podem até passarem despercebidas quando lançam algo novo, pois a atenção do público mais jovem está focada em outras plataformas de mídia social, como o TikTok – na qual descobrem e ditam novos singles e etc.

“Estamos em uma era pós-álbum”, declarou Mulligan ao jornal. “Os fãs de música viralizam algo de forma rápido. É contra isso que ela está lutando”. Ainda assim, Adele já superou obstáculos antes e especialistas afirma que ela pode ser maior que as mudanças em questão, mesmo contra os superfãs de artistas como Taylor Swift e BTS, que já estão acostumados a “devorar” álbuns físicos e digitais como forma de mercadoria.

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Adele “meio que transcende as mudanças na indústria”, declarou Brooks. Quando a potência vocal postou um trecho de ‘Easy on Me’ no Instagram antes do lançamento, houve um tremendo impacto – incluindo um aumento nas discussões no Facebook e retuítes no Twitter, de acordo com a empresa de análise de música Chartmetric. As pesquisas no Wikipedia sobre ela aumentaram quase 550% em comparação com a semana anterior. “As pessoas estão entusiasmadas”, disse Sung Cho, fundador e presidente-executivo da companhia. “O interesse está aí”.

A longa pausa de Adele pode transformar o álbum de retorno em um evento cultural ainda maior. Sua equipe, que inclui o empresário Jonathan Dickins e o selo Columbia Records, deve lançar um grande esforço de marketing envolvendo veículos tradicionais, como revistas e televisão, mas também valorizar o streaming.

A dificuldade que até mesmo artistas extremamente populares enfrentam para se destacar no cenário de hoje ressalta o quão especial pode ser quando alguns conseguem fazer isso. E para Adele, uma das últimas vendas gigantescas em um mundo de streaming, sustentar a atenção de seu público ao longo do tempo pode ser o melhor barômetro de sucesso do que os números da primeira semana, dizem analistas e executivos.

“Suas vendas na Billboard podem não se comparar às de seu último álbum, mas isso diz mais sobre a indústria do que sobre Adele”, concluiu Runcie ao The Wall Street Journal.

Fonte: The Wall Street Journal

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