Poucas produções do gênero terror optam deliberadamente por abandonar sustos – os jump scares. Exemplos mais conhecidos são ‘O Bebê de Rosemary’ (1968) e ‘A Bruxa’ (2015), que ao invés de investirem no exagero de surpresas sobrenaturais, funcionam por criarem uma atmosfera horripilante envolta num tom misterioso. ‘Espíritos Obscuros‘ tenta seguir a premissa, mas falha em aspectos que o tornam só um thriller macabro – não tão bom, mas interessante.

Baseado no conto de Nick Antosca, ‘The Quiet Boy’ (“o rapaz silencioso”, na tradução do inglês), a história do novo filme da Searchlight Pictures (logo, da Disney) se passa em uma cidade isolada do estado de Oregon (EUA), onde uma professora (Keri Russell) e o irmão xerife (Jesse Plemons) se envolvem com um sombrio aluno (Jeremy T. Thomas), cujos segredos levam a encontros aterrorizantes com uma lendária criatura ancestral que aparece diante deles.

publicidade

O diretor Scott Cooper faz uma entrada bonita e delicada esteticamente em um subgênero de terror explorado com pouca frequência, mas excessivamente séria ao ponto de esquecer que é uma obra de terror. Produtor principal do longa, o vencedor do Oscar Guillermo del Toro acertou ao escolher o nome para estar à frente do projeto, mas o que o filme precisava era mais da exuberância do cineasta para realmente trazê-lo à vida como um espetáculo sobrenatural.

Jeremy T. Thomas rouba o protagonismo de Jesse Plemons e Keri Russell em ‘Espíritos Obscuros’. Imagem: Searchlight Pictures/Divulgação

No decorrer de 99 minutos, ‘Espíritos Obscuros’ exibe sutis, porém facilmente detectáveis, referências ao excêntrico estilo do aclamado diretor. Não somente nos “wendigos” ou em outros elementos sobrenaturais antropomórficos, mas também nos próprios seres humanos, especialmente no jovem e vigoroso Jeremy T. Thomas – que, sinceramente, é o único que parece estar levando o trabalho a sério no filme.

O “rapaz silencioso” toma o protagonismo para ele durante a produção inteira e dita o mínimo de tom necessário para fazer com que o filme se encaixe no gênero. É visível ver a influência de Del Toro na caracterização do garoto, com direito a olhos esbugalhados por CGI e roupagem básica para defini-lo com outsider no interior estadunidense. Todavia, o que mais chama atenção mesmo é o esforço do ator em fazer o melhor para impactar o público com aflição.

Claro, toda produção de terror que envolve crianças aterroriza a mais pelo sadismo, mas Thomas rouba a cena por atuar de forma segura e, mesmo assim, aparentar estar com desespero e medo. O núcleo com Russell e Plemons é tão sem graça quantos ambos no longa, só que o garoto cresce satisfatoriamente ao atuar ao lado do incrível e caricato Scott Haze (‘Minari’) e o pequeno Sawyer Jones, pai e irmão caçula amaldiçoados do “protagonista”, respectivamente.

Espíritos Obscuros
Jeremy T. Thomas como Lucas Weaver é o principal – talvez único ‘ destaque de ‘Espíritos Obscuros’. Imagem: Searchlight Pictures/Divulgação

Infelizmente, a maior parte do terror de ‘Espíritos Obscuros’ acaba por aí. Claro, a fotografia acinzentada da zona rural de Oregon e “wendingos” são bem feitos e dignos de uma produção cinematográfica, todavia o jovem ator “carrega nas costas” o peso de classificar o longa no gênero. O mistério ao longo do filme também é bem feito, mas tão mal explicado e com uma “batalha final” tão sem vontade e difusa que faz o público fazer aquela pergunta: “sério?”.

Russell e Plemons são atores fenomenais, mas não se esforçam para demonstrar empenho no projeto. Enquanto a veterana e vencedora do Globo de Ouro por ‘Felicity’ não esboça diferenças nas reações e parece “estar nem aí” tanto enfrentando um monstro quanto notando uma criança desnutrida, o nome ascendente na indústria por ‘Fargo’ interpreta um policial que aparece em cenas demais para fazer o mesmo: conferir uma catástrofe e, bem, é isso.

Porém, é notável a fraca atuação dos dito cujo protagonistas é desfavorecida pelo roteiro. Escrito a seis mãos (diretor, autor original e C. Henry Chaisso), o argumento tem muitas ideias propostas para um filme de uma hora e 30 minutos – todas mal desenvolvidas.

Vencedora do Globo de Ouro, Russell não mostra boa performance. Imagem: Searchlight Pictures/Divulgação

Há o fator sobrenatural, que é “explicado” em uma rápida cena. Há a motivação dos personagens principais, que é apenas um “pano de fundo” para explicar a moral da história. Há ainda um terceiro ato que, ao invés de elevar o clima de horror e valorizar a mensagem por trás de ‘Espíritos Obscuros’, entrega uma luta razoavelmente coreografada contra um “wendingo” e apelas para uma cena final que puxa para uma sequência, estragando o bom momento.

A direção de Cooper ao menos é bonita visualmente e claramente é um produto para cinema, não de streaming. Talvez alguns minutos a mais de roteiro e de vontade dos atores protagonista pudessem transformar o longa em uma obra melhor…

Sem terror, ‘Espíritos Obscuros’ ao menos compensa em moral

Sem terror de fato, jump scares e com pouquíssimos aspectos gore ou ação slasher, o que sobra para ‘Espíritos Obscuros’? Uma linha tênue de moral bem aplicada entre ser um filme de monstro tradicional e uma alegoria não convencional sobre abusos de qualquer tipo, dando-nos com alusão – acredite – uma das exposições sobre o horror pós-traumático mais intrigantes em anos.

Espíritos Obscuros
Jesse Plemons como o xerife Paul Meadows repete a mesma cena várias vezes ao longo do filme. Imagem: Searchlight Pictures/Divulgação

Veja, é mostrado no filme que os irmãos Paul e Julia Meadows foram abusados pelo próprio pai e colhem as consequências do trauma na vida adulta. Já o jovem Lucas Weaver vê na tentativa de cuidar do pai amaldiçoado uma segunda chance para ele perceber o amor do filho e, por fim, se tornar uma pessoa melhor.

A lição quase terapêutica de que certas pessoas não mudam após os erros e que você deve prezar por você e do próprio bem-estar mesmo acima do elo familiar que tem com abusadores é aplicada de forma incisiva no terceiro ato da produção. Até chega em um bom momento – quase confortando, e ao mesmo tempo chocando, o público.

A moral poderia ter sido melhor desenvolvida caso o passado dos personagens interpretados por Russell e Plemons fosse um pouco mais detalhado? Sim, mas Cooper trata de expor a mensagem da forma mais intrínseca possível em um dos diálogos finais. Uma pena, porém, que a fantástica alegoria chega tarde demais para tornar o resultado do filme no geral um projeto satisfatório.

Espíritos Obscuros
‘Espíritos Obscuros’ erra no terror, mas acerta na alegoria não convencional de abusos. Imagem: Searchlight Pictures/Divulgação

Enfim, o longa é escorregadio e perturbador cujas ambiguidades, apesar de uma exposição de mão pesada, permanecem intactas e quase insolúveis. A produção é um terror grotesco e com algumas ideias instigantes, de fato, porém também cansativa e sem sal em grande parte do tempo. Embora haja performances fortes e boa direção, o produto final carece de um roteiro forte, tornando-o apenas um filme de terror mediano.

De qualquer forma, ‘Espíritos Obscuros’ estreia no dia 28 de outubro nas salas de cinemas de todo o Brasil. O filme produzido por Guillermo del Toro (‘A Forma da Água) e dirigido por Scott Cooper (‘Depois do Apocalipse‘) tem no elenco Keri Russell, Jesse Plemons, Jeremy T. Thomas, Graham Greene, Scott Haze, Rory Cochrane e Amy Madigan. Confira abaixo sinopse e trailer oficiais:

“A história se passa em uma cidade isolada do estado de Oregon (EUA), onde uma professora do ensino fundamental (Keri Russell) e seu irmão xerife (Jesse Plemons) se envolvem com um enigmático aluno (Jeremy T. Thomas) cujos sombrios segredos levam a encontros aterrorizantes com uma lendária criatura ancestral que aparece diante deles. Baseado no conto The Quiet Boy de Nick Antosca, o filme conta com a direção de Scott Cooper e com a produção do aclamado Guillermo del Toro.”

Leia mais:

Já assistiu aos novos vídeos no YouTube do Olhar Digital? Inscreva-se no canal!