A chamada “cultura Liangzhu”, um dos exemplos mais antigos de civilização da China antiga, foi destruída por um evento de aquecimento global, de acordo com estudo produzido por um time de geólogos e pesquisadores climáticos.

Segundo os autores, liderados pelo pesquisador climático Christoph Spötl, do Grupo de Pesquisa Quaternária Innsbruck, a cidade construída ao redor de culturas de jade, seda e outros recursos há mais de 5.000 anos veio abaixo após chuvas de monção causarem um aumento inesperado do nível de águas e, consequentemente, uma enchente massiva vinda do delta do rio Yangtze.

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Imagem do parque de escavação de Liangzhu, uma das mais antigas cidades da China
Um sítio de relíquias localizado na escavação que levou à descoberta da cidade antiga de Liangzhu, um dos testamentos mais antigos de avanços da civilização chinesa: cidade foi destruída por efeitos do aquecimento global, segundo novo estudo (Imagem: Xinhua/Xu Yu/Reprodução)

Liangzhu é considerado por especialistas um dos grandes testamentos de avanços da civilização chinesa: durante sua existência, a região já contava com inovadores sistemas de gerenciamento de água, ferramentas hidráulicas de grande porte e extração de minérios e recursos. Também era dotada de canais aquáticos navegáveis, represas e reservatórios. Os sistemas criados permitiram à cidade produzir grandes avanços no ramo da agricultura, e ela foi elevada ao grau de Patrimônio Cultural da UNESCO em 2019.

Ainda havia, contudo, um intenso debate sobre as razões que levaram ao seu fim. “Uma fina camada de argila foi encontrada nas ruínas preservadas, o que aponta para uma possível conexão entre o fim da civilização avançada e enchentes do rio Yangtze ou de outros corpos aquáticos do Mar Oriental chinês”, disse Spötl. ”Entretanto, nenhuma conclusão quanto à causa era possível de ser tirada da argila em si”.

Foi graças à ajuda do geólogo chinês Haiwei Zhang, que trabalhou em Innsbruck por cerca de um ano como pesquisador convidado, que avanços nessa pesquisa foram possíveis. De acordo com ele, foram retiradas amostras de estalactites e estalagmites (as pedras pontiagudas que “brotam” do chão e do teto em cavernas) para se criar uma espécie de “registro histórico climático” de Liangzhu.

“As cavernas Shennong e Jiulong, a sudoeste da escavação principal, foram bastante exploradas por anos”, explicou Spötl. “Ambas estão localizadas na mesma área afetada pela monção do sudoeste asiático e suas formações rochosas na região do Yangtze oferecem uma visão mais precisa no período do colapso da cidade que, de acordo com descobertas arqueológicas, ocorreu há 4.300 anos”.

Segundo os especialistas, dentro do período citado, houve uma época de precipitação extremamente alta e extremamente frequente. Em termos leigos: choveu muito, e choveu bem forte. Isótopos de carbono estudados por análise de urânio-tório permitiram o estabelecimento mais exato da época em que isso ocorreu, com uma margem de erro de 30 anos.

Com base nas informações coletadas, Spötl e sua equipe concluíram que os ventos monções orientais vieram com tanta força que causaram uma enorme enchente do rio Yangtze e seus afluentes – um evento tão forte que nem mesmo o completo sistema de gerenciamento hídrico da cidade pôde suportar. O resultado foi a destruição de Liangzhu e o êxodo em massa de seus habitantes.

Segundo os especialistas, as altas variações climáticas continuaram por outros 300 anos, efetivamente impossibilitando qualquer retorno de gerações futuras para repovoamento.

O estudo completo foi publicado no jornal Science Advances.

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