O evento conhecido como “Extinção do Ordoviciano-Siluriano” foi causado por vulcanização excessiva de águas oceânicas, de acordo com novo estudo feito por cientistas das universidades de Oldenburg, Leeds e Plymouth.

O período Ordoviciano-Siluriano foi um momento de transição ocorrido entre 450 milhões e 440 milhões de anos atrás. À época, toda a vida na Terra estava confinada aos mares e animais terrestres só viriam a existir muitas eras depois. Aqui, graças à vulcanização excessiva das águas, tivemos o segundo maior evento de extinção em massa da história, onde algo entre 60% e 85% das espécies marinhas morreram.

publicidade

Entende por “vulcanização” o efeito de grandes atividades vulcânicas em algum ambiente. Neste caso, “vulcanização oceânica” corresponde ao despejo de materiais como lava e cinzas de erupções de grande escala na água do mar. A salinidade da água reage quimicamente com o material vulcânico, levantando nuvens de gases nocivos, como enxofre e dióxido de carbono.

Leia também

No período referido, esse efeito levou ao resfriamento extremo da Terra, culminando na glaciação planetária – nome dado ao congelamento de extensas faixas de terra e de mar, junto das alterações climáticas provenientes disso.

“Já foi sugerido que o resfriamento global foi desencadeado por um aumento na taxa de fósforo nos oceanos”, disse o doutor Jack Longman, autor primário do estudo, baseado na Universidade de Oldenburg. “O fósforo é um dos elementos essenciais à vida, determinando o ritmo pelo qual organismos aquáticos minúsculos, como algas, podem usar a fotossíntese para converter dióxido de carbono em matéria orgânica”.

Segundo o especialista, esses organismos eventualmente foram para o piso oceânico, onde ficaram enterrados, efetivamente diminuindo os níveis de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, o que causa o resfriamento. A dúvida, porém, residia no fato de, entre a glaciação e a extinção em massa, existir um intervalo de 10 milhões de anos. “Tem que ter havido algum mecanismo específico para impulsionar o fornecimento de fósforo, o que é difícil de explicar”, disse o co-autor do estudo e professor adjunto na Universidade Southampton, o doutor Tom Gernon.

Fósseis dos selenopeltis, um tipo de trilobita comum há 450 milhões de anos: evento de extinção em massa no período Ordoviciano-siluriano fez com que espécie fosse apenas uma das inúmeras que encontraram seu fim na ocasião (Imagem: Dr Tom Gernon/University of Southampton [@TMGernon])

A dupla identificou dois grandes eventos vulcânicos coincidentes com os respectivos picos de glaciação e extinção. Um ocorrido no que hoje é a América do Norte, e o outro, no que hoje corresponde ao sul da China. Mas Gernon ressalta que somente isso não explica a dúvida, haja vista que erupções vulcânicas estão mais ligadas à liberação massiva de CO2 na atmosfera, o que traria o oposto efeito – o aquecimento global – à Terra, e não um resfriamento.

Eis que entra o terceiro autor do paper, o professor Martin Palmer, também de Southampton, para sanar essa dúvida: “quando material vulcânico é depositado nos oceanos, ele passa por uma profunda e rápida alteração química, o que inclui a liberação de fósforo, como se estivesse ‘fertilizando’ o oceano. Para nós, isso valia como uma hipótese viável e digna de testes”.

Junto da doutora Hayley Manners, da Universidade de Plymouth; e do doutor Benjamin Mills, da Universidade de Leeds, o time analisou amostras de camadas de cinzas vulcânicas em sedimentações marinhas bem mais jovens, para comparar seu teor de fósforo antes e depois de se modificarem pela interação com a água salgada.

A conclusão a que eles chegaram foi a de que a vulcanização excessiva trouxe a extinção por meio de uma cadeia linear de eventos: o depósito de massas vulcânicas (cinza e lava) nos oceanos, a reação disso com a água salgada liberando muito fósforo, essa liberação causando o resfriamento climático, esse resfriamento aumentando até desencadear a glaciação, a glaciação reduzindo os níveis de oxigênio nas águas e, por fim, a morte em massa dos organismos marinhos da época.

Com base nesses conhecimentos, os pesquisadores argumentam que, da mesma forma que erupções vulcânicas podem agravar o aquecimento global pela liberação massiva de CO2, elas também podem causar resfriamentos planetários em uma linha do tempo que contemple milhões e milhões de anos. Para o Dr. Longman, é provável que esse estudo sobre vulcanização excessiva leve à reavaliação de outros eventos de extinção em massa ao longo da história.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!