Uma pesquisa conduzida pela Universidade da Califórnia (Davis) vem desafiando um entendimento científico ao usar o criptônio do manto da Terra para levantar novas informações sobre a formação do nosso planeta.

O consenso dos especialistas é o de que elementos como carbono, água e nitrogênio chegaram no final do processo de formação da Terra. Entretanto, a coleta de criptônio feita em regiões como Islândia e Ilhas Galápagos indica o contrário – de que esses componentes chegaram bem no nosso começo.

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O criptônio, elemento abundante no manto da Terra, oferece pistas sobre a formação do nosso planeta
Os dias primários da Terra, segundo nova pesquisa, apresentaram alguns componentes essenciais mais cedo do que se pensava, o que pode ter influenciado em nosso processo evolutivo (Imagem: Triff/Shutterstock)

O criptônio (“cripto”, em alguns campos) é composto por diferentes isótopos que funcionam como “impressões digitais químicas”, o que permite a cientistas coletar e analisar informações do material que veio e ainda vem em direção à Terra do restante do espaço, como os ventos solares e partículas de cometas e meteoritos.

O estudo, contudo, sugere que os planetesimais – corpos rochosos ou de gelo de entre 0,1 e 100 quilômetros de tamanho que supostamente se formaram no início do sistema solar – bombardearam a Terra bem cedo.

“Os nossos resultados exigem uma entrega simultânea de elementos voláteis de várias fontes de forma muito antecipada na formação da Terra”, disse Sandrine Péron, autora primária do estudo. Ela conduziu a pesquisa como um trabalho para o seu pós-doutorado junto do professor Sujoy Mukhopadhyay, do Departamento de Ciências Planetárias da universidade.

“Este estudo traz evidências sobre as fontes desses elementos e o timing do movimento de acreção da Terra, e isso vai ajudar pesquisadores a melhor compreender não só o nosso processo de formação, mas também o processo de outros planetas no sistema solar e estrelas próximas”, ela disse.

O criptônio extraído é proveniente da atividade vulcânica vista na Islândia e Ilhas Galápagos. Grandes fluxos de lava sobem das camadas mais baixas do manto, quase que na divisa com o núcleo da Terra. Esse é um detalhe importante: os elementos localizados mais próximos do núcleo do nosso planeta são majoritariamente iguais ao que se via no início do seu processo de formação – alguns, com idade perto de 4,4 bilhões de anos.

Nisso, entra o professor Mukhopadhyay. Ele é especializado na tomada de medidas muito precisas de gases nobres em rochas de qualquer lugar da Terra. No caso do criptônio, ele foi coletado de lava em locais de alta volatilidade – gases antigos sobem com a lava e, conforme ela se solidifica na superfície, estes gases acabam presos, protegidos de contaminação externa. O criptônio então acaba extraído por técnicas de espectrometria, isolando isótopos como argônio e xenônio.

Por meio de tudo isso, os especialistas descobriram que as informações presentes no criptônio são bastante iguais a meteoritos primitivos ricos em carbono, que chegaram aqui dos limites mais frios do sistema solar. Entretanto, Mukhopadhyay descobriu que um outro gás do início do nosso planeta – o neon – veio do Sol.

Em outras palavras, o manto da Terra tem evidências da presença de duas fontes distintas em sua formação. Isso significa que alguns gases da atmosfera foram entregues aqui após eventos de grande porte, como o impacto que formou a Lua.

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