Uma das poucas múmias ainda fechadas na atualidade – o faraó egípcio Amenhoptep I (também chamado de “Amenotepe I” ou “Amenófis I”) – foi digitalmente aberta por cientistas por meio de tecnologia de tomografia computadorizada. A última vez em que esta múmia foi aberta foi há 3 mil anos.

E naquela época – especificamente, o século XI a.C – os motivos da abertura foram outros: historiadores já relataram diversas ocasiões em que sacerdotes egípcios abriam e “remumificavam” corpos de faraós mortos a fim de repararem o dano causado por ladrões de sepulturas e tumbas.

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Imagem de tomografia computadorizada mostra o "rosto" da múmia do faraó Amenhotep I
Surpreendentemente bem conservada, a múmia do faraó Amenhotep I mostra que ele tinha dentes em bom estado, estatura baixa e nariz afunilado, entre outras características físicas (Imagem: Saleem et al./Universidade do Cairo/Divulgação)

Desde então, o sarcófago de Amenhotep I tem sido mantido fechado e selado, mas a equipe liderada pela Dra. Sahar Saleem, Professora de Radiologia da Faculdade de Medicina do Cairo, no Egito, decidiu se valer da tecnologia moderna para estudar seu conteúdo.

“O fato da múmia de Amenhotep I nunca ter sido aberta em tempos modernos nos deu uma oportunidade única: não apenas para estudar como ele foi originalmente mumificado e enterrado, mas também como ele foi recuperado, tratado e novamente sepultado por pelo menos duas vezes, séculos após a sua morte, pelas mãos do Sumo Sacerdócio do deus Amon”, disse a especialista, que assina a autoria primária do estudo.

Segundo a radiologista, a tomografia revelou alguns detalhes interessantes: Amenhotep I, na ocasião de sua morte, tinha aproximadamente 35 anos, boa dentição, cerca de 1,69 metro (m) de altura e era circuncidado (“circuncisão” é o processo pelo qual a pele que “sobra” do pênis é removida cirurgicamente). Ah, sim: removidas as suas bandagens e vestimentas, o corpo tinha cerca de 30 amuletos de variadas origens e um cinto de ouro com adereços também dourados.

Ainda sobre o aspecto físico, Saleem diz que Amenhotep I era “muito parecido com o seu pai” (Amósis I), apontando similaridades como o queixo fino, nariz afunilado, cabelo encaracolado e os dentes de cima levemente para frente (a “mordida cruzada superior”, no jargão dos dentistas).

“Nós não conseguimos encontrar nenhum ferimento ou desfiguração relacionados a alguma doença para justificar alguma causa de morte, exceto por inúmeras mutilações feitas post mortem (após a morte), teoricamente feitas por ladrões de tumbas após ele ser enterrado”, disse Saleem. “Suas entranhas foram removidas pelos primeiros sacerdotes, mas seu cérebro e coração ainda estavam intactos”.

Imagem de tomografia mostra o corpo de Amenhotep I dentro de seu sarcófago
O cadáver de Amenhotep I dentro de seu sarcófago, conforme imagens de tomografia computadorizada: faraó morreu perto dos 35 anos de idade (Imagem: Saleem et al./Universidade do Cairo/Divulgação)

Amenhotep I reinou no que ficou conhecida como uma espécie de “era de ouro” do Egito: ele herdou de seu pai um país militarmente poderoso (este, responsável pela unificação da nação após expulsar o povo hicso de volta para a Ásia), então seu reinado não era muito famoso por guerras, mas sim pelo incentivo à construção de templos e edificações religiosas, bem como reformular práticas funerárias – sobretudo inaugurando a tendência de separar a tumba dos templos mortuários.

Militarmente falando, credita-se a Amenhotep I o avanço das fronteiras egípcias pela região da Núbia (atualmente, Sudão) e ocupações de territórios na Líbia (não é confirmado se ele manteve esses territórios sob seu controle ou se os perdeu de início). Ele também conseguiu reabrir as minas da ilha de Sinai.

Originalmente, sua múmia foi descoberta em 1881, no sítio arqueológico Deir el Bahari, sul do Egito. A região traz grande estima pelo faraó, que foi divinizado como o deus protetor do sítio junto de sua mãe, Ahmose Nefertari.

Especula-se que Amenhotep I tenha tido apenas um filho, que morreu ainda criança, então ele não teve herdeiros diretos. Ele foi sucedido por Tutemés I (por vezes referido como “Tutmés” ou ainda “Tutemósis”), de quem historiadores não sabem informar se havia alguma relação de sangue com o faraó. Entretanto, há quem especule que Tutemés I fosse filho de Ahmose Sipairi, irmão mais velho de Amenhotep I.

Foto mostra a máscara mortuária do faraó Amenhotep I
A máscara mortuária de Amenhotep I, antes da tomografia computadorizada “abrir” virtualmente a múmia (Imagem: Saleem et al./Universidade do Cairo/Divulgação)

Saleem ressalta que o novo estudo serve para refutar uma teoria que ela própria havia postulado anos antes: anteriormente, ela, junto do egiptólogo Zahi Hawass, sugeriu que os sacerdotes restauradores do século XI a.C haviam desenterrado o faraó para utilizar equipamentos funerários mais modernos em regentes de dinastias mais antigas. Entretanto, essa ideia estava errada.

“Nós mostramos que, pelo menos no caso de Amenhotep I, os sacerdotes da vigésima-primeira dinastia fizeram as reparações por amor à história, tratando dos danos causados por ladrões de tumbas e restaurando a múmia à sua antiga glória, preservando toda a joalheria magnífica e amuletos em seus devidos lugares”, disse Saleem.

O estudo, contudo, mostrou também uma vantagem moderna: o uso da tomografia computadorizada pode ser uma via bastante acessível de pesquisa de figuras históricas, cujos restos mortais nós tenhamos preservado na era moderna. “Esse tipo de imagem pode ser usado de forma inteligente em estudos antropológicos e arqueológicos em múmias de outras civilizações, como no caso do Peru”, disse Saleem, fazendo menção ao antigo Império Inca, entre outras civilizações andinas.

Os detalhes completos do paper foram publicados no jornal científico Frontiers in Medicine.

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