Repleto de mistérios que vão muito além do entendimento humano, o universo nos surpreende mais a cada novo estudo divulgado por cientistas e astrônomos. Desta vez, pesquisadores espanhóis descobriram que uma estrela densa e magnética entrou em erupção de forma tão violenta que, por consequência, cuspiu tanta energia quanto um bilhão de sóis – e isso aconteceu em uma fração de segundo.

Esse tipo de astro, conhecido como magnetar, é uma estrela de nêutrons com um campo magnético excepcionalmente forte. Segundo o site Space, magnetares muitas vezes explodem espetacularmente e sem aviso. 

publicidade
Uma poderosa explosão de raios-X na erupção de um magnetar – uma versão supermagnetizada de um remanescente estelar conhecido como uma estrela de nêutrons. Imagem: NASA Goddard Space Flight Center/Chris Smith (USRA)

Mesmo que os magnetares possam ser milhares de vezes mais brilhantes que o nosso Sol, suas erupções são tão rápidas e imprevisíveis que são desafiadoras para os astrofísicos identificarem e analisarem.

No novo estudo, no entanto, os pesquisadores conseguiram capturar um desse flashes de energia e calcular oscilações no brilho de um magnetar conforme ele entrava em erupção. Segundo os cientistas, o magnetar distante liberou, em apenas 1/10 de segundo, tanta energia quanto nosso Sol produz em 100 mil anos.

Magnetares são mais poderosos do que qualquer outro objeto magnético no universo

Uma estrela de nêutrons se forma quando uma estrela maciça entra em colapso no fim de sua vida. À medida que a estrela morre em uma supernova, prótons e elétrons em seu núcleo são esmagados em uma massa solar compactada que combina gravidade intensa com rotação de alta velocidade e poderosas forças magnéticas.

De acordo com a Nasa, a estrela de nêutrons resultante disso tem, aproximadamente, 1,3 a 2,5 massas solares — uma massa solar é a massa do nosso sol, ou cerca de 330 mil Terras — amontoadas em uma esfera de apenas 20 km de diâmetro.

Estrelas de nêutrons têm uma matéria tão densamente compactada que uma quantidade do tamanho de um cubo de açúcar pesaria mais de 1 bilhão de toneladas. Além disso, segundo a Nasa, sua atração gravitacional é tão intensa que um simples marshmallow que atingisse a superfície da estrela chegaria lá com uma força equivalente a mil bombas de hidrogênio.

E os magnetares são estrelas de nêutrons com campos magnéticos mil vezes mais fortes que os de outras estrelas de nêutrons, e são mais poderosos do que qualquer outro objeto magnético no universo.

Leia mais:

“Nosso Sol fica não é nada em comparação com essas estrelas brilhantes e densas, mesmo quando elas não estão em erupção”, disse o autor principal do estudo, Alberto Castro-Tirado, professor de pesquisa do Instituto de Astrofísica da Andaluzia no Conselho de Pesquisa espanhol, em comunicado.

“Mesmo em um estado inativo, os magnetares podem ser 100 mil vezes mais luminosos que o nosso Sol”, disse o pesquisador. “Mas, no caso do flash que estudamos – GRB2001415 – a energia que foi liberada equivale à que nosso Sol irradia em 100 mil anos”.

Erupção estelar foi identificada por instrumento da ISS

O magnetar que produziu a breve erupção está localizado na Galáxia Escultora, uma galáxia espiral a cerca de 13 milhões de anos-luz da Terra, e é “um verdadeiro monstro cósmico”, nas palavras do coautor do estudo Victor Reglero, diretor do Laboratório de Processamento de Imagens da UV. 

Segundo o artigo científico publicado na revista Nature, o flash gigante foi detectado em 15 de abril de 2020 pelo instrumento Atmosphere-Space Interactions Monitor (ASIM) na Estação Espacial Internacional (ISS).

A inteligência artificial (IA) no ASIM detectou o brilho, permitindo que os pesquisadores analisassem esse breve e violento surto de energia. Eles relatam que ele durou apenas 0,16 segundos e, em seguida, o sinal decaiu tão rapidamente que era quase indistinguível do ruído de fundo nos dados. 

De acordo com os autores do estudo, eles passaram mais de um ano analisando os dois segundos de coleta de dados do ASIM, dividindo o evento em quatro fases com base na produção de energia do magnetar e, em seguida, medindo variações no campo magnético da estrela causadas pelo pulso de energia quando ela estava no seu auge.

“É quase como se o magnetar decidisse transmitir a existência de sua ‘solidão cósmica’ gritando para o vazio do espaço com a força de um bilhão de sóis”, disse Reglero.

Apenas cerca de 30 magnetares foram identificados em aproximadamente 3 mil estrelas de nêutrons conhecidas, e esta é a explosão magnetar mais distante detectada até o momento.

Suspeita-se que erupções como esta podem ser causadas pelos chamados starquakes (terremotos estelares), que perturbam as camadas externas elásticas dos magnetares. Segundo o estudo, essa rara observação poderia ajudar os pesquisadores a desvendar as tensões que produzem explosões energéticas magnetares.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!