Sabe aquele cochilo gostoso depois do almoço que algumas pessoas têm o privilégio de poder tirar? Em alguns países, como a Espanha (onde o termo usado para esse soninho é “siesta”) e a Itália (“sesta”), esse é um momento quase sagrado. Até as lojas baixam as portas por algumas horas para o descanso da tarde. E segundo um novo estudo, o vulcão conhecido como Monte Vesúvio, localizado próximo à cidade italiana de Nápoles, estaria nesse momento de repouso — só que estendido: adormecido há quase 80 anos e com mais alguns séculos de “relaxamento” pela frente.

Pesquisadores estudam Monte Vesúvio para descobrir quando será a próxima erupção. Imagem: Belish – Shutterstock

Em 1944 o vulcão teve sua mais recente erupção violenta, quando destruiu a vila de San Sebastiano, vizinha de outra região destroçada por sua fúria mais de 1860 anos antes, no ano 79 EC (Era Comum*): as cidades de Herculano e Pompeia, onde hoje fica o famoso Parque Arqueológico de Pompeia.

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Especialistas em vulcões do Instituto Federal de Tecnologia (ETH) de Zurique afirmam que pode levar mais algumas centenas de anos até que outra perigosa erupção explosiva ocorra no Monte Vesúvio, que é um estratovulcão: ou seja, seu cone é construído a partir do acúmulo de camadas de lava e cinzas de erupções anteriores. 

Ele faz parte do arco vulcânico campaniano, uma série de vulcões na Itália que fica em uma fronteira entre placas tectônicas, onde a placa africana está sendo subduzida sob a placa eurasiana.

Pesquisadores analisaram as quatro maiores erupções do Monte Vesúvio

Mais de três milhões de pessoas vivem nas proximidades deste que é um dos vulcões mais perigosos da Europa. Por esse motivo, a pergunta que não quer calar é: quando o Monte Vesúvio entrará em erupção novamente e quão forte pode ser a explosão?

Justamente para responder a essa pergunta é que os pesquisadores do ETH, em colaboração com cientistas da Itália, analisaram minuciosamente as quatro maiores erupções do Vesúvio nos últimos 10 mil anos para avaliar se um evento perigoso pode ser previsível.

As quatro erupções estudadas incluem, além das já citadas anteriormente, a de Avellino, de 3.950 anos atrás – que é considerada um possível “pior cenário” para futuras erupções –  e a erupção de 472 AEC (Antes da Era Comum), a menor do grupo investigado.

Parque Arqueológico da Pompeia: ruínas de uma cidade destruída por uma das mais violentas erupções do Monte Vesúvio na história.
Imagem: guentermanaus — Shutterstock

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Em seu estudo, que acaba de ser publicado na revista Science Advances, os pesquisadores que trabalham com o autor principal Jörn-Frederik Wotzlaw e o professor da ETH Zurique Olivier Bachmann determinaram a idade dos cristais de granada presentes nos depósitos vulcânicos. 

Tal mineral cresce no material armazenado na câmara de magma na crosta superior das camadas que ficam sob o Vesúvio. Segundo os cientistas, saber a idade desses cristais torna possível inferir quanto tempo o magma residia na câmara antes que o vulcão voltasse a expeli-lo.

Granada (a pedra, não o artefato bélico, que fique claro) não é uma escolha comum para determinar a idade da ejeção vulcânica. Os pesquisadores normalmente usam zircônios, que são pequenos minerais acessórios encontrados em muitas rochas ígneas. No entanto, o magma do Vesúvio é muito alcalino para cristalizar zircônios, mas é rico em granada.

Para determinar a idade da granada, os pesquisadores usaram os elementos radioativos urânio e tório. Usando a proporção entre os isótopos urânio-238 e tório-230, eles podem calcular a idade de cristalização dos minerais.

Idade de minerais contidos na base do vulcão determina o tipo de magma

A granada deste estudo se origina de materiais que a equipe coletou de locais onde os depósitos vulcânicos das quatro erupções citadas acima ficam expostos na superfície e são acessíveis para amostragem.

Sabendo a idades da granada, os pesquisadores descobriram que o tipo de magma mais explosivo no Vesúvio (o chamado magma “fonolético”) é armazenado em um reservatório na crosta superior por vários milhares de anos antes do influxo de magma mais primitivo e mais quente da crosta inferior desencadear uma erupção.

Para os dois eventos mais recentes, os pesquisadores determinaram que o magma fonolítico residia na câmara por cerca de 5 mil anos. Já para os dois primeiros eventos, ele foi armazenado nesse reservatório por apenas cerca de mil anos. Em todas as quatro erupções, o tempo de residência do magma fonolítico na câmara da crosta superior coincide com os períodos de calmaria do Vesúvio.

Um reservatório de magma fonolítico parece ter existido quase sempre sob o Vesúvio nos últimos 10 mil anos. A questão é se ele poderia alimentar uma erupção perigosa como a de 3.950 anos atrás ou a que destruiu Herculano e Pompeia.

Pesquisas sísmicas indicam que há de fato um reservatório a uma profundidade de cerca de seis a oito quilômetros abaixo do Vesúvio. No entanto, a composição do magma que ele contém não pode ser determinada usando tecnologia sísmica. 

Cratera do vulcão adormecido no Monte Vesúvio. Imagem: SLapaRT – Shutterstock

Como o Monte Vesúvio produz principalmente magma primitivo (“mafic”) desde 1631, os pesquisadores acreditam que é improvável que o mafgma fonolítico esteja atualmente se acumulando. “A última grande erupção, em 1944, ocorreu há quase 80 anos, o que pode muito bem ser o início de um período quiescente (calmo) prolongado durante o qual o magma diferenciado pode se acumular. Ainda assim, uma erupção perigosa comparável à de 79 AEC provavelmente precisa que o período quiescente dure muito mais tempo”, diz Wotzlaw.

Vulcão é monitorado 24h por dia

Se o magma predominantemente mafic for ejetado nas próximas décadas, isso pode indicar que o corpo de magma detectado por inquéritos sísmicos não é composto de lava diferenciada e que nenhuma está presente atualmente sob o Vesúvio.

“É por isso que achamos mais provável que uma grande erupção explosiva do Vesúvio ocorra apenas após um período quiescente que dura séculos”, diz Bachmann. Wotzlaw acrescenta: “No entanto, erupções menores, mas ainda muito perigosas, como a de 1944, podem ocorrer após períodos mais curtos de quiescência. A previsão precisa do tamanho e estilo de erupções vulcânicas até agora não é possível. Porém, o despertar dos reservatórios de magma sob vulcões agora é reconhecível pelo monitoramento.”

Para evitar surpresas desagradáveis, o Vesúvio e sua atividade são monitorados 24 horas por dia. O Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia da Itália mede todos os terremotos ao redor dos vulcões, analisa gases emitidos de fumaroles e observa a deformação do solo, que são indicadores de atividade subterrânea. Há também um plano de emergência sendo delineado sobre como evacuar a grande área de Nápoles caso a vigilância conclua que uma erupção é iminente.

*Era Comum (EC) e Antes da Era Comum (AEC) são as nomenclaturas atualizadas para os termos Depois de Cristo (D.C.) e Antes de Cristo (A.C.)

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