Ciência e Espaço

Sim, a Starlink ainda está atrapalhando a busca por asteroides perto da Terra

Por Rafael Arbulu, editado por Rafael Rigues
21/01/22 18h20, atualizada em 24/01/22 11h19

Imagem: SpaceX/Divulgação

Em uma revisão do próprio acervo, o observatório Zwicky Transient Facility (ZTF) revelou que suas imagens vêm sofrendo interferências dos satélites da Starlink, o serviço de banda larga via satélite operado pela SpaceX, uma das muitas empresas de Elon Musk.

De acordo com o material divulgado, os satélites da Starlink deixam rastros que dificultam a busca por asteroides próximos à Terra, bem como a observação de supernovas e outros eventos de curtíssima duração — duas áreas em que o ZTF atua com maior ênfase.

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Isso não é Photoshop: o traço próximo ao centro da imagem é, na verdade, um rastro deixado por um satélite da Starlink – o observatório ZTF, na Califórnia, afirma que constelação da SpaceX vem atrapalhando a observação do espaço (Imagem: ZTF/Divulgação)

A correlação com a Starlink não vem à toa: o ZTF vem revisando o próprio acervo desde antes de 2019, mas apenas no referido ano é que os tais “traços” começaram a aparecer em suas imagens — justamente o mesmo ano em que a SpaceX começou a colocar em prática o ambicioso projeto de sua constelação de satélites.

O ZTF opera na Califórnia desde 2017. Basicamente, seu trabalho consiste em abrir suas lentes a cada 48 horas, buscando por sinais de ocorrências de supernovas ou de passagens de asteroides próximos à Terra (NEAs, Near Earth Asteroids, na sigla em inglês). Segundo eles, imagens capturadas durante o nascer ou o pôr do Sol são as mais comprometidas — em números divulgados pelo observatório em comunicado, 0,5% das imagens em 2019 sofreram interferência, enquanto que ao final de 2021 20% delas foram prejudicadas.

E a situação não parece dar sinal de que vai melhorar: a SpaceX continua um plano ambicioso de expansão de sua constelação, e planeja lançar, no total, 12 mil satélites — dos quais 1.469 já estão lá em cima, em plena atividade.

“Nós não esperamos que os satélites da Starlink atrapalhem imagens fora dos horários de início e fim das atividades do Sol, mas se as constelações de satélites de outras empresas entrarem em órbitas mais altas, isso pode causar problemas para qualquer momento de observação”, disse Przemek Mróz, autor primário do estudo e ex-pesquisador pós-doutorado da Caltech, que coordena a operação do ZTF.

Se por um lado, a empresa de Elon Musk vem causando dores de cabeça, por outro, o estudo também a elogia. Desde que levantaram essa questão há meses, a SpaceX passou a instalar viseiras reflexivas em seus satélites, que ajudaram a reduzir esse problema em cerca de cinco vezes. Segundo Tom Prince, co-autor e professor na Caltech, apenas 0,1% dos pixels em uma imagem são comprometidos pela passagem dos satélites.

“Há uma pequena chance de que nós deixemos passar um asteroide ou outro evento escondido por trás de um rastro de satélite, mas comparado ao impacto trazido pelo clima — como um céu nublado, por exemplo —, esses efeitos são minoritários para o ZTF”, disse Prince.

O observatório, contudo, não é o primeiro a reclamar que a ação de satélites da Starlink influencia de forma negativa os trabalhos astronômicos: em dezembro de 2021 a agência espacial europeia (ESA), disse que a plataforma de internet da SpaceX vem tomando muito espaço disponível… no espaço. O recém-empossado diretor-geral da agência, Josef Aschbacher, chegou a dizer que iria “cortar as asas” de Elon Musk.

Musk, contudo, negou que seus satélites causassem qualquer tipo de problema.

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