Há décadas, astrônomos especulam a possibilidade de haver vida nas nuvens de Vênus, o que poderia explicar sua composição química incomum. Agora, pesquisadores da Universidade de Cambridge descobriram que não existe qualquer evidência biológica na atmosfera venusiana. 

Estudo diz que não é a vida que justifica a composição química incomum da atmosfera de Vênus. Imagem: Limbitech – Shutterstock

Mesmo que Vênus seja desprovido de vida, os cientistas dizem que seus resultados, relatados na revista Nature Communications na terça-feira (14), poderiam ser úteis para estudar as atmosferas de planetas semelhantes em toda a Via Láctea e a eventual detecção de vida fora do nosso sistema solar.

“Passamos os últimos dois anos tentando explicar a estranha química de enxofre que vemos nas nuvens de Vênus”, disse o coautor do estudo, Paul Rimmer, professor do Departamento de Ciências da Terra de Cambridge. “A vida é muito boa em química estranha, então estamos estudando se há uma maneira de fazer da vida uma explicação potencial para o que vemos”.

Os pesquisadores usaram uma combinação de modelos atmosféricos e bioquímicos para estudar as reações químicas que devem ocorrer, dadas as fontes conhecidas de energia química na atmosfera de Vênus.

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“Olhamos para o ‘alimento’ à base de enxofre disponível na atmosfera venusiana — não é nada que você ou eu gostaria de comer, mas é a principal fonte de energia disponível”, disse Sean Jordan, do Instituto de Astronomia de Cambridge, primeiro autor do artigo. “Se esse alimento está sendo consumido pela vida, devemos ver evidências disso através de produtos químicos específicos sendo perdidos e ganhos na atmosfera”.

Algo “suga” o enxofre na atmosfera de Vênus

Os modelos simularam uma característica particular da atmosfera venusiana — a abundância de dióxido de enxofre (SO2). Na Terra, a maioria do SO2 da atmosfera vem de emissões vulcânicas. Em Vênus, há altos níveis de SO2 mais baixo nas nuvens, mas de alguma forma ele é “sugado” da atmosfera em altitudes mais altas.

“Se a vida está presente, deve estar afetando a química atmosférica”, disse o coautor Oliver Shorttle, pesquisador do Departamento de Ciências da Terra e do Instituto de Astronomia de Cambridge. “Poderia a vida ser a razão pela qual níveis de SO2 em Vênus ficam tão reduzidos?”

As simulações computadorizadas incluem uma lista de reações metabólicas que as formas de vida realizariam para obter seus suprimentos e os subprodutos desperdiçados. Os pesquisadores executaram o modelo para ver se a redução dos níveis de SO2 poderiam ser explicados por essas reações metabólicas.

Eles descobriram que as reações metabólicas podem resultar em uma queda no SO2, mas apenas produzindo outras moléculas em quantidades muito grandes que não são vistas. Os resultados estabeleceram um limite rígido sobre o quanto de vida poderia existir em Vênus com base na nossa compreensão de como as reações químicas funcionam em atmosferas planetárias.

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“Se a vida fosse responsável pelo índice de SO2 que vemos em Vênus, também destruiria tudo o que sabemos sobre a química atmosférica de Vênus”, disse Jordan. “Queríamos que a vida fosse uma explicação potencial, mas quando executamos os modelos, não é uma solução viável. Mas se a vida não é responsável pelo que vemos em Vênus, ainda é um problema a ser resolvido — há muita química estranha para compreender”.

Embora não haja evidências de qualquer vida que consuma enxofre às escondidas nas nuvens de Vênus, os pesquisadores dizem que seu método de analisar assinaturas atmosféricas será valioso quando o Telescópio Espacial James Webb (JWST) começar a fazer imagens de outros sistemas planetários. 

Segundo eles, algumas das moléculas de enxofre são fáceis de observar com o JWST, então aprender mais sobre o comportamento químico do nosso vizinho poderia ajudar os cientistas a descobrir planetas semelhantes em toda a galáxia.

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