As “fake news”, ou “notícias falsas”, se tornaram muito populares com a migração da campanha eleitoral para as redes sociais. A tática se tornou comum para atacar candidatos opositores e há quem diga que chegou a eleger políticos em diversos lugares do mundo. O tema gerou preocupação no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

No Brasil, as fake news ganharam grande popularidade em 2018, mas seguiram sendo utilizadas nas eleições de 2022. Marie Santini, coordenadora de um estudo realizado pelo NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apontou que a campanha de informações falsas está muito mais sofisticada. 

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“O que a gente está vendo em 2022 é bem diferente do que a gente viu em 2018, em termos de complexidade e de estratégia. É lógico que a desinformação sempre foi comum em qualquer eleição, mas com as plataformas, com as redes sociais, isso tem outra escala. Uma capacidade de segmentação”, relatou ao G1. 

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TSE
BigNazik/Shutterstock

“A desinformação hoje funciona através de uma campanha permanente, onde você vai reduzindo a resistência das pessoas a determinadas narrativas e aumentando a resistência à checagem. A pessoa começa a ser bombardeada por diferentes fontes. Uma narrativa repetida muitas vezes tem o efeito de começar a gerar dúvida em outro público que não seria o segmento principal de uma estratégia de desinformação”, continuou Santini. 

Em fevereiro, pensando justamente neste aumento da rede de desinformação durante a campanha eleitoral, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) assinou um acordo com as principais redes sociais presentes no Brasil, como Facebook, Google, YouTube, Instagram, Twitter, TikTok, WhatsApp e Kwai. O Telegram entrou na tratativa algum tempo depois. 

O acordo, firmado pelo então presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, previa algumas ações por parte das plataformas para diminuir a disseminação das fake news com recursos que possam contribuir com a melhoria no processo democrático brasileiro, sempre priorizando os conteúdos de qualidade que possam ajudar na escolha dos eleitores. 

Se quiser relembrar as medidas adotadas por cada rede social, clique aqui

“Este é um momento importante da vida brasileira e da vida democrática, nós todos estamos preocupados e empenhados em preservar um ambiente de debate livre, amplo, robusto, mas que preserve certas regras mínimas da legalidade e de civilidade, portanto estamos empenhados em combater o ódio e a criminalidade difundida online em teorias conspiratórias”, afirmou Barroso, na ocasião. 

Os acordos funcionaram?

O questionamento é muito válido, tendo em vista que as eleições de 2022 chegaram ao fim em 30 de outubro. Neste ano, os eleitores votaram para os cargos de deputado estadual, governador, deputado estadual, senador e presidente da República. 

Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 50,9% dos votos, derrotou Jair Bolsonaro (PL), com 49,1%. Lula teve o maior número de votos absolutos de um presidente desde a redemocratização do Brasil: 60.345.999 votos. 

No entanto, antes do resultado final das eleições, diversos portais ganharam popularidade por desmentir informações falsas. Alguns influenciadores digitais também ganharam notoriedade política por fazer esse papel, como o youtuber Felipe Neto. Sem contar, as ações das próprias redes sociais e do TSE para excluir e moderar esse tipo de conteúdo mentiroso. 

Em entrevista ao Olhar Digital, a advogada, escritora e cientista política, Michelle Meneses, acredita que o combate às fake news foi “tímido e ineficiente”. “Assistimos a um festival de fake news e desinformação rolando livremente nos aplicativos de mensagens”. 

“Porém, temos que admitir que é uma tarefa muito difícil combater informações falsas no mundo digital, pois a velocidade de propagação destas informações são infinitamente maiores do que a capacidade das plataformas em detectar e retirar as fake news”, explicou. 

Edney “Interney” Souza, professor de marketing de produto da ESPM, disse que houve “muita boa vontade, mas poucas coisas práticas mudaram” em relação aos acordos de combate às fake news firmados pelo TSE e redes sociais. 

Interney relatou que todas as redes sociais assinaram o acordo, mas nem todas “foram eficientes” em fazê-lo funcionar. O especialista aponta que o Telegram, mesmo tendo chegado por último, acabou fazendo um dos trabalhos mais eficientes com os bloqueios de grupos. “Mas a gente não vê essa mesma energia e velocidade em conteúdos que estão presentes no TikTok, Facebook, YouTube e Twitter”, continuou. 

“Isso parte de um problema do próprio legislativo brasileiro que ainda não está adequado às fake news. O TSE fez um compromisso muito grande, mas em alguns pontos, até para não criar mais conflitos, precisou segurar a onda.”

“Há pessoas que pensam que o TSE censurou demais ao retirar fake news do ar, mas, na verdade, se o Tribunal levasse o acordo democrático firmado com as redes sociais ao pé da letra, teria cassado a candidatura de alguns personagens políticos brasileiros”, pontuou. 

Interney disse acreditar que as fake news ainda precisam passar a ser criminalizadas de “maneira mais agressiva”, passando por uma legislação mais clara que seja colocada em prática não apenas em períodos eleitorais, para que chegue mais “cristalizada” no tempo em que os pleitos acontecem. 

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