Um artigo publicado esta semana na versão online do Journal of Southern Hemisphere Earth Systems Science descreve a descoberta de um novo tipo de ciclone tropical na costa de Sumatra (a sexta maior ilha do mundo e a maior inteiramente pertencente à Indonésia).

Segundo o site Science Alert, o achado foi graças a um esforço dos autores para entender melhor os contrastes na temperatura do oceano no Oceano Índico.

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“Oceanógrafos de Flinders identificam uma nova classe de ciclones tropicais atmosféricos perto de Sumatra, no Oceano Índico Tropical Sth-East (SETIO), chamados “Ciclones SETIO”. Depois de observar os ventos da superfície do satélite, eles descobriram que os SETIO são de curta duração e se desenvolvem frequentemente no inverno e na primavera”.

Eles identificaram que tempestades únicas e de curta duração ocorrem em uma base cíclica no sudeste do oceano. Essas tempestades tendem a começar a girar no inverno e na primavera (no Hemisfério Sul), quando os ventos equatoriais de oeste se encontram com os ventos de noroeste.

Os cientistas estão bastante familiarizados com o movimento de grandes volumes de ar perto dos ventos equatoriais do oeste durante os meses de verão, especificamente conhecido como a Oscilação Intrassazonal do Verão Boreal. A periodicidade dessas oscilações, no entanto, não correspondia aos padrões das tempestades, o que motivou os pesquisadores a investigar mais.

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De acordo com dados atmosféricos diários, apenas três eventos de resfriamento significativos ocorreram na costa de Sumatra desde 1988, e essas anomalias parecem seguir a falta de atividade do ciclone.

Segundo os pesquisadores, os resultados são bem semelhantes à força de resfriamento do El Niño-Oscilação Sul (ENOS), que ocorre no Pacífico equatorial oriental.

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Ventos de superfície na região SETIO em dias selecionados durante o pico convectivo nos anos de 2003, 2008 e 2012. A análise desses dados permitiu a identificação de uma classe diferente de ciclones tropicais no Índico. Créditos: Kavi A. e Kämpf J. / Journal of Southern Hemisphere Earth Systems Science

No Índico equatorial, a diferença nas temperaturas da superfície do mar nas zonas tropicais ocidental e oriental é conhecida como Dipolo do Oceano Índico (IOD), e parece estar intimamente ligada à atividade de ciclones perto de Sumatra.

Durante a formação de um ciclone que aquece a água no SETIO (sigla em inglês para Oceano Índico Tropical Sudeste), os ventos de noroeste se intensificam, enquanto os ventos equatoriais de oeste enfraquecem.

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Todo o evento ocorre ao longo de cerca de 10 dias e, durante cada temporada de IOD (julho a setembro), ocorrem em média cerca de cinco tempestades SETIO – uma duração cumulativa de cerca de 50 dias. 

“Mudanças dramáticas acontecem em alguns anos, quando os ciclones SETIO não se desenvolvem, e os ventos ambientais desencadeiam o aparecimento de água fria do mar em uma vasta área, perturbando fortemente os ventos e os padrões de precipitação sobre o Oceano Índico”, diz o oceanógrafo Jochen Kaempf, da Universidade Flinders, na Austrália, em um comunicado.

Segundo Kaempf, os ventos de oeste que fluem em torno de Sumatra já foram notados por cientistas antes, mas nunca se compreendeu de onde eles vinham. “Esta ocorrência frequente de ciclones SETIO explica seu controle sobre os ventos zonais equatoriais médios no leste do Oceano Índico, que estão quase ausentes de outra forma”.

Durante um ciclone SETIO, os afloramentos de água fria no sudeste do Oceano Índico são suprimidos por ventos de noroeste – semelhante à forma como os ventos da costa do Peru controlam as ressurgências de La Niña. “Assim, os distúrbios do vento modulam fortemente a intensidade da ressurgência costeira e as anomalias associadas [à temperatura da superfície do mar] em ambos os oceanos”, dizem os autores.

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No entanto, a intensidade da ressurgência equatorial é marcadamente diferente. “No Oceano Pacífico, os ventos alísios de leste induzem a ressurgência equatorial contínua, que é reforçada perto da costa peruana”, diz o estudo. “Devido ao efeito dos ciclones SETIO, os ventos equatoriais no leste do Oceano Índico tendem a ser geralmente ocidentais e, portanto, operam para suprimir a ressurgência equatorial”.

Os pesquisadores acreditam que uma melhor compreensão dos ciclones SETIO é de extrema importância. Essas tempestades influenciam o Dipolo do Oceano Índico, que, por sua vez, afeta fortemente o clima e as chuvas nas nações vizinhas.

Entender o comportamento das correntes atmosféricas e oceânicas nesta parte do mundo ajudará a aprimorar os modelos climáticos locais, permitindo que os especialistas prevejam melhor para onde o rápido aquecimento global está indo e como podemos nos preparar de forma mais eficiente para futuros desastres.

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