Cada nova fase da história da Terra começa com um “pico de ouro” – como os pesquisadores chamam um ponto no registro geológico onde evidências de uma transformação global permanecem perfeitamente preservadas.

O atual e mais recente período da evolução do nosso planeta é conhecido como Antropoceno. Ainda não há data de início precisa e oficialmente apontada para essa fase, mas a maioria considera que ela começa no final do século 18, quando as atividades humanas começaram a ter um impacto global significativo no clima da Terra e no funcionamento dos ecossistemas. 

E qual seria, então, o pico de ouro desta “nova era” tão fortemente marcada pela mão humana?

De acordo com o jornal The Washington Post, até o fim de agosto, cientistas vão decidir se esse título pertence a um lago meromítico (local privilegiado para estudos arqueológicos e geoquímicos) que fica em Ontário, no Canadá.

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Crawford Lake, o candidato mais provável a ponto de partida oficial para este capítulo geológico, contém sedimentos carregados de poluição da década de 1950 marcando a transição do ambiente confiável do passado para a nova realidade obscura criada pelos humanos modernos.

Isso não é exagero: em apenas sete décadas, dizem os cientistas, nós provocamos mudanças maiores do que registrado em mais de sete milênios. Nunca na história da Terra o mundo mudou tanto e tão rápido. Nunca uma única espécie teve a capacidade de causar tantos danos – ou a chance de evitá-los.

“É uma linha na areia”, disse Francine McCarthy, professora de ciências da Terra da Universidade Brock, em Ontário, que liderou pesquisas sobre o lago Crawford. “A própria Terra está seguindo um livro de regras diferente. E é por nossa causa”.

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Lago Crawford: berço do atual período da história da Terra?

Documentos antigos arquivados na década de 1970 no que hoje é conhecido como Conservation Halton referem-se ao Lago Crawford como sendo “uma joia ecológica única” com uma “ecologia delicada” que deve ser protegida “para as gerações futuras desfrutarem”.

Devido à profundidade de 24 metros e circunferência estreita do lago, o fundo é completamente isolado da atmosfera, permitindo que camadas distintas e não perturbadas de sedimentos se acumulem anualmente.

O sedimento contém restos de algas, zooplâncton e outros materiais orgânicos mortos. Durante o verão, à medida que a água aquece, íons de cálcio e carbonato dissolvidos das rochas circundantes formam pequenos cristais de calcita que afundam, criando uma camada branca sobre a qual mais material orgânico é depositado.

“Então, você pode contar como anéis de árvores e encontrar 1952 ou qualquer outro ano que você esteja interessado em encontrar”, diz McCarthy. “Como essas camadas não são perturbadas, tudo é primorosamente preservado”.

McCarthy e sua equipe podem olhar para trás milhares de anos por meio de amostras coletadas por congelamento (usando um tubo de alumínio cheio de gelo seco e etanol). 

Pesquisadores da Universidade Brock, no Canadá, embarcando em expedição para investigar o Lago Crawford. Crédito: Universidade Brock

Dentro de pouco mais de dois meses, uma equipe global de especialistas decidirá sobre a localização na Terra onde mudanças no registro geológico são mais distintas, apresentando o escolhido à Comissão Internacional de Estratigrafia, um subcomitê científico da IUGS,  para oficializá-lo como “pico de ouro” do Antropoceno.

Segundo McCarthy, o fato de Crawford Lake estar na disputa pode ser diretamente atribuído ao valor da conservação. “Há muito poucos locais no planeta onde as mudanças nos sistemas terrestres em meados do século 20 são tão evidentes assim”.

Lago é usado no ensino da história 

Hassaan Basit, presidente e CEO da Conservation Halton destaca a relevância do lugar também no âmbito escolar. “O que conseguimos fazer ao longo dos anos não foi apenas preservar esse local, mas também usá-lo como base para a educação. Estudantes vêm durante toda a semana e conseguem ter uma experiência realmente imersiva”.

Basit diz que o calçadão que foi construído ao redor do Lago Crawford permite que os visitantes – responsáveis por toda a receita que financia a área – aproveitem o ambiente que contém a “memória do planeta”.

“Há muitos desses tipos de espaços em Ontário que são únicos do ponto de vista geológico ou ecológico e também da história humana que é capturada dentro dessas áreas”, diz Basit.

“A preservação é fundamental não só para aproveitar essas áreas hoje e no futuro, mas também para que elas possam contar essas histórias do nosso passado”.

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