Há alguns meses, ganhou destaque (e até uma certa força) nas redes sociais o tal “Movimento Red Pill”, uma iniciativa de cunho totalmente misógino que reverbera infâmias machistas sobre as relações entre homens e mulheres. 

Alguns dos clichês usados pelos defensores dessas ideias que beiram o absurdo é que, na pré-história, “os homens saíam para caçar, enquanto as mulheres ficavam em casa”. Ao que parece, esse não poderá mais ser um dos argumentos usados por essas pessoas para determinar quais comportamentos e atribuições são exclusiva e instintivamente masculinas e quais são… “coisas de mulherzinha”.

Um estudo publicado nesta quarta-feira na revista PLOS One revela que ambos os sexos têm sido igualmente adeptos da caça em civilizações de caçadores-coletores, como os Homo sapiens.

A pesquisa é conduzida por uma equipe internacional de cientistas que chegou a essa conclusão após examinar dados de dezenas de artigos acadêmicos, publicados nos últimos 100 anos, que se concentraram em 63 sociedades de caçadores-coletores e túmulos de mulheres caçadoras de todo o mundo.

publicidade

“Estávamos lendo artigos escritos por pessoas que conviveram com esses grupos e estudaram seu comportamento”, disse a coautora do estudo, Cara Wall-Scheffler, professora e copresidente de biologia da Seattle Pacific University, em entrevista ao site Live Science

Diversas civilizações ao longo da história continham mulheres caçadoras. Crédito: Volodymyr Hlukhovskyi – Shutterstock

Mulheres caçavam tanto quanto os homens em 79% das civilizações analisadas

Das comunidades avaliadas, 79% continham mulheres que eram caçadoras – e que se mantiveram na função mesmo depois de se tornarem mães.

“As mulheres saíam com muitas ferramentas diferentes. Tinham um kit de ferramentas muito diversificado em todo o mundo. E se vissem um animal, matavam-no”, disse a pesquisadora. “Ficamos surpresos com a forma como a maioria dos grupos mostrou mulheres caçando, e não havia tabu explícito contra isso”.

Os pesquisadores também observaram que mais de 70% das expedições de caça femininas foram classificadas como “intencionais”, o que significa que as mulheres saíam propositalmente em busca de carne (não eram assassinatos acidentais ocorridos durante a execução de outras tarefas, como colheitas).

Além disso, segundo o estudo, essas mulheres não caçavam e capturavam apenas pequenos animais, como pássaros e coelhos. Elas eram iguais aos homens quando se tratava de caça de grande porte nas Américas, representando cerca de 50% dos caçadores que visam animais de grande porte, como veados e alces.

Leia mais:

Então, de quem é a culpa pela ideia absolutamente equivocada de que os homens eram caçadores e as mulheres eram coletoras (responsáveis pela colheita dos vegetais)?

Talvez de interpretações ou traduções distorcidas – talvez, intencionalmente – de registros históricos que acabaram definindo papéis de gênero mais rígidos em que os homens exerciam funções mais arriscadas, e as mulheres, mais delicadas. 

Para a autora do novo artigo, é uma coisa muito óbvia. “Não faz sentido que, se algo como a caça de animais ajudasse a alimentar sua comunidade, as mulheres ignorassem. Ter essas divisões rígidas de trabalho não faria sentido”.

É… parece que os homens de masculinidade frágil precisam arrumar outra desculpa para seus pensamentos carregados de preconceito de gênero.

Já assistiu aos novos vídeos no YouTube do Olhar Digital? Inscreva-se no canal!