“Hipopótamos da cocaína”: como a Colômbia quer resolver o problema?

Introduzidos na Colômbia por Pablo Escobar, os hipopótamos têm-se multiplicado no país, oferecendo riscos à biodiversidade local
Flavia Correia
Flavia Correia, editado por Lucas Soares 06/08/2023 13:38, atualizada em 07/08/2023 17:52
hipopotamo
Governo da Colômbia anuncia medidas para resolver o problema dos hipopótamos introduzidos no país por Pablo Escobar. Crédito: PhotocechCZ - Shutterstock

No início de junho, o Olhar Digital noticiou que um levantamento feito pelo Ministério do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia aponta que Pablo Escobar, um dos narcotraficantes mais conhecidos do mundo, deixou uma herança perigosa para o país: os chamados “hipopótamos da cocaína”.

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Por que eles são uma ameaça: Os hipopótamos da Colômbia são considerados uma espécie exótica invasora. Essa designação é dada a todos os organismos que não são naturais do local onde foram introduzidos. Geralmente, esse processo de inserção de animais (ou plantas) não nativos tende a causar perda de biodiversidade, sendo apontado pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) como a segunda causa de extinção de diversidade biológica.

Hipopótamo à margem do rio Magdalena, na Colômbia. Esses animais, que não são nativos, foram importados para o país pelo narcotraficante Pablo Escobar, se multiplicando desenfreadamente e representando uma ameaça grave à biodiversidade local. Crédito: Guillermo Ossa – Shutterstock

Agora, o governo colombiano anunciou que vai enviar dezenas desses hipopótamos para outros países. O restante, segundo informado pela ministra do meio ambiente Susana Muhamad em uma live transmitida na última semana, deverá ser gradualmente esterilizado ou eutanasiado. 

Durante a transmissão, a ministra garantiu que seu plano de controle populacional e de transferência dos hipopótamos será feito com ética e seguindo protocolos de segurança. Por meio de um acordo feito com a Índia, 60 paquidermes serão conduzidos para o país. Outros 15 vão para as Filipinas e 10 para o México, totalizando 85 animais “exportados”.

Quanto à esterilização, a ministra informou que o procedimento será feito em 40 indivíduos por ano a um custo de 40 milhões de pesos colombianos, o que equivale a cerca de R$48 mil.

A esterilização começará dentro de seis meses com 20 hipopótamos. Nossa meta é avançar para 40 cirurgias anuais, o que nos levaria a conter a capacidade reprodutiva da população

Susana Muhamad, ministra do meio ambiente da Colômbia

Sobre a medida extrema de eutanasiar alguns deles, Susana disse que isso, se necessário, será feito de maneira restrita e segura.

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Entenda o caso dos “hipopótamos da cocaína” da Colômbia

Tudo começou em 1981, quando “El Patrón” importou ilegalmente um macho e três fêmeas da espécie Hippopotamus amphibius de um zoológico nos EUA e os transferiu para a Hacienda Nápoles, famosa residência do criminoso internacional localizada na cidade de colombiana de Doradal, no vale do rio Magdalena.

O governo colombiano vai “exportar” 85 hipopótamos descendentes dos animais introduzidos no país por Pablo Escobar na década de 1980. Crédito: David Havel – Shutterstock
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Após a morte de Escobar, em 1993, os animais (que são os herbívoros mais agressivos do mundo) foram deixados à própria sorte, procriando e se dispersando nas áreas circundantes, estabelecendo uma população saudável ao longo do rio. Agora, no entanto, o censo do governo revelou que há cerca de 215 hipopótamos no país – o dobro do esperado originalmente. Cientistas alertam que os animais, vivendo em relativa segurança pela proibição da caça e ausência de predadores, podem chegar a 1.500 até 2035. 

Além disso, os pesquisadores descobriram que cerca de 37% deles são jovens, o que indica que a reprodução está acontecendo mais cedo e com mais frequência. Esses animais podem procriar durante a maior parte da vida, que é estimada entre 40 e 50 anos.

Pesquisadores da Universidade Nacional da Colômbia, do Instituto de Pesquisa de Recursos Biológicos Alexander von Humboldt, em Bogotá, e do Cornare, órgão ambiental que administra uma área onde vivem os hipopótamos, fizeram grandes esforços para contabilizar os animais, gerando um estudo aceito para publicação pela revista Nature.

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Além de ser perigoso se aproximar deles, os hipopótamos são seres noturnos, viajam longas distâncias e passam até 16 horas submersos na água, dificultando severamente o monitoramento.

Outro ponto que agrava a situação é que esses animais têm um enorme impacto no ambiente físico, destruindo mais de 50 kg de vegetação diariamente, por exemplo, e ameaçando espécies nativas, com o peixe-boi (Trichechus manatus), a lontra neotropical (Lontra longicaudis) e a capivara (Hydrochoerus hydrochaeris), que são vítimas do apetite voraz dos hipopótamos. 

As margens dos rios também estão sendo severamente erodidas à medida que eles entram e saem da água – que também está sofrendo devido à defecação exagerada desses animais.

Esterilizar os hipopótamos é caro e demorado

Embora os hipopótamos tenham começado a ser esterilizados pelo governo em 2011, um número muito pequeno deles foi tratado, devido aos custos e logística de aproximação. 

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Uma estratégia é administrar contraceptivos nos animais por dardo. Isso pode gradualmente eliminar hipopótamos, impedindo sua reprodução, mas é um processo lento, caro e que não foi testado em grande escala antes. Estima-se que o método poderia erradicar os hipopótamos em 45 anos por não menos que US$850 mil (R$4,1 milhão).

A opção do abate é polêmica. Quando um macho agressivo chamado Pepe foi legalmente capturado e morto em 2009, isso gerou protestos e acabou levando à proibição da caça. No início deste ano, a ministra Susana Muhamad prometeu proteger, e não reduzir, a população de hipopótamos, o que acendeu o sinal de alerta entre pesquisadores preocupados com a biodiversidade do país.

“Há um peso moral na decisão de abater um hipopótamo”, disse Rafael Moreno, ecologista do Instituto Humboldt que fez parte do estudo. “Mas o peso da outra decisão – a inação – é muito maior”.

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Flavia Correia
Flavia Correia

Flávia Correia é jornalista do Olhar Digital, cobrindo Ciência e Espaço.

Lucas Soares
Lucas Soares

Lucas Soares é editor de Ciência e Espaço no Olhar Digital e formado em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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