Um artigo publicado recentemente no Journal of Geophysical Research: Planets relata uma importante descoberta sobre Vênus: a verdadeira origem dos intrigantes flashes de luz observados na atmosfera do planeta mais próximo da Terra. Estudos anteriores defendiam que o fenômeno representava a ocorrência de relâmpagos – mas, pode não ser bem assim.

Caso esses eventos realmente sejam relâmpagos, isso coloca Vênus em um seleto grupo de planetas que hospedam esses lampejos em suas nuvens, junto com Terra, Júpiter e Saturno. 

Para os autores da nova pesquisa, no entanto, se fossem relâmpagos, essas ocorrências seriam algo extremamente raro, já que as densas nuvens de Vênus carecem de água, considerada fundamental na criação de cargas elétricas.

Eles propõem, então, que as “faíscas” observadas sejam meteoros queimando no alto da atmosfera do nosso vizinho. 

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Animação da NASA mostrando Vênus sob a óptica da cada missão programada para estudar o planeta de perto. Crédito: NASA

Por que os flashes de luz podem ser meteoros

Meteoro é o nome dado ao evento luminoso provocado pela queima de detritos rochosos atravessando a atmosfera da Terra, seguido ou não de estrondo sônico.

Com base na constância de meteoros na Terra, a equipe estimou o número de flashes que esses fragmentos de rochas espaciais deveriam causar em Vênus sob as condições atmosféricas extremas daquele planeta.

Os pesquisadores então compararam essa simulação com os dados coletados por duas fontes de pesquisa: o Observatório Mt. Bigelow, no Arizona, e a sonda japonesa Akatsuki, que orbita Vênus desde 2015.

Vênus clicado pelo orbitador da Akatsuki em março de 2018. Crédito: JAXA/ISAS/DARTS/Kevin M. Gill

Os resultados mostraram que as rochas espaciais queimando a cerca de 100 km da superfície venusiana podem ser responsáveis pela maioria ou mesmo possivelmente todos os flashes observados.

“Portanto, os relâmpagos não parecem uma ameaça para as missões que passam ou mesmo permanecem dentro das nuvens”, diz o artigo, em referência aos satélites e sondas enviadas para investigar o escaldante planeta, que estariam sob grave risco caso atingidos por descargas elétricas misteriosamente formadas sem água.

Planejamento de futuras missões a Vênus depende desses resultados

Estudos como esse são importantes para o planejamento de futuras missões a Vênus, um esforço há muito esperado, especialmente porque a recente detecção de um possível vulcão ativo na superfície do planeta mostra que ele ainda pode estar geologicamente ativo.

Embora ainda possa haver relâmpagos na superfície causados por erupções vulcânicas, o novo estudo conclui que, no geral, não é uma preocupação significativa para futuras missões.

Entre elas, as sondas VERITAS e DAVINCI, que devem ser lançadas pela NASA na próxima década

A primeira missão, “VERITAS” (“verdade”, em latim, mas que aqui também é uma sigla para “Espectroscopia, Ciência de Rádio, Topografia, InSAR e Emissividade de Vênus”), consiste em uma espaçonave orbital que vai observar as densas nuvens na atmosfera do planeta. O termo “InSAR” vem de “Radar Interferométrico de Abertura Sintética” e serve para mapear deformidades em superfícies por meio de imagens de radar – que usa ondas mais precisas e consegue penetrar não só nuvens bem grossas, como também funciona no escuro.

“DAVINCI”, a segunda missão (sigla em inglês para “Investigação Profunda de Imagem de Vênus para Gases Nobres e Química”), deve ir além da anterior, fazendo com que uma sonda exploratória se instale na superfície para conduzir experimentos científicos.

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