Nos Estados Unidos, o mercado chinês tem gerado divergências entre montadoras e o governo. O presidente-executivo da Ford, Jim Farley, apresentou ao Congresso um projeto para a construção de uma fábrica de baterias que deve custar US$ 3,5 bilhões — e um detalhe incomodou bastante gente: a intenção de fazer acordo com a fabricante chinesa CATL.

Segundo ele, esse seria um jeito inteligente de os Estados Unidos acompanharem os avanços do seguimento de carros elétricos. Uma das motivações da Ford é diminuir o custo de produção dos veículos.

Após a repercussão do assunto, a empresa interrompeu a construção da nova fábrica.

Para quem tem pressa:

  • A Ford quer fechar acordo com a CATL, fabricante chinesa de baterias para EVs.
  • Um serviço de crédito de US$ 7.500 do governo para compra de EVs desqualificou carros com peças de origem estrangeira nas baterias para o recebimento do incentivo.
  • A montadora tem tentado convencer o governo a flexibilizar as regas, mas encontrou resistência.
  • Se as baterias não forem elegíveis para o subsídio, os executivos da Ford indicaram que poderiam reduzir o investimento.
  • Rival da Ford, a General Motors (GM) é contra o plano da montadora, alegando desvantagem competitiva.

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Proibição de crédito

Entre as leis que fazem parte de projeto relacionado ao clima e à energia nos Estados Unidos, está a disponibilização de um crédito de US$ 7.500 para incentivar os americanos a trocarem os carros movidos a gasolina por carros elétricos.

A partir de 2024, os interessados em adquirir esse crédito não poderão comprar carros que contenham componentes de bateria de fontes que os Estados Unidos considerem uma “entidade estrangeira preocupante”.

A Ford tem se esforçado para convencer o presidente Joe Biden a flexibilizar as regras para adquirir o incentivo.

Seria absurdo classificar a Ford ou a sua subsidiária integral como uma entidade estrangeira (…) Somos a Ford e apostamos tudo na América.

Chris Smith, diretor de assuntos governamentais da Ford. 

GM afirma que acordo da Ford gere desvantagem competitiva

A CEO da General Motors, Mary Barra, e sua equipe expressaram preocupações aos legisladores de que o acordo da Ford poderia resultar no domínio chinês na fabricação de automóveis nos EUA. A GM não planeja investir em empresas chinesas de baterias e teme que a Ford ganhe vantagem tecnológica e de custo se o acordo for adiante.

A empresa pede uma regra rigorosa de “entidade estrangeira de interesse” para impedir tais acordos de licenciamento. Uma porta-voz da organização afirmou que não se trata de uma competição direta com a Ford, mas sim de garantir que as regras sigam a intenção da Lei de Redução da Inflação.

A argumentação é de que permitir que consumidores usem o crédito fiscal para comprar carros fabricados com a ajuda da CATL, parceira da Ford, colocaria a GM e outras montadoras em desvantagem competitiva e as pressionaria a fazer acordos semelhantes com empresas chinesas, prejudicando os objetivos de Washington de afastar a indústria automobilística da China.

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Imagem: Marlin360/Shutterstock

O licenciamento de tecnologia chinesa pela Ford gerou preocupações políticas e investigações por parte de comitês da Câmara, especialmente entre os republicanos de Michigan. Eles argumentam que o dinheiro dos contribuintes deveria ser usado para promover a inovação americana em vez de subsidiar empresas chinesas.

Deveríamos usar o dinheiro dos contribuintes para financiar a inovação e a engenhosidade americanas para liderar nestas áreas, não ficando para trás por décadas e subsidiando o [Partido Comunista Chinês].

Deputado John Moolenaar, do Partido Republicano de Michigan.

Como aponta o The Wall Street Journal, a Ford defendeu o acordo com base na criação de empregos e avanços tecnológicos que ele poderia proporcionar nos EUA.

A administração Biden inicialmente considerou participar do anúncio da fábrica de baterias da Ford, mas mudou de ideia ao descobrir os detalhes do acordo com a CATL, temendo que a partilha de propriedade intelectual abrisse portas para empresas chinesas dominarem a indústria de baterias dos EUA.

Alguns funcionários da Casa Branca também não querem desagradar ao senador Joe Manchin, que criticou o acordo e ameaçou apoiar ações judiciais contra montadoras que seguissem um caminho semelhante.

Haverá ações judiciais se houver empresas sendo prejudicadas pela forma como estão interpretando e fazendo investimentos aqui no país.

Joe Manchin

Existem argumentos a favor de se aprender com as empresas chinesas e não impedir totalmente os carros elétricos com “laços chineses” de se qualificarem para o crédito fiscal, mas as opiniões sobre o assunto são divididas.

A regra de “entidade estrangeira de interesse” não se aplicará apenas a fábricas de EVs e baterias, mas também a empresas que extraem e processam matérias-primas a partir de 2025.

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