Cientistas mergulharam nas profundezas de uma mina de ouro em busca da “matéria escura microbiana”, vida invisível que habita as entranhas da Terra. O retorno foi triunfante, trazendo amostras reveladoras de centenas de espécies microbianas distintas – um pequeno vislumbre de toda a complexidade biológica que pulsa sob nossos pés.

Estudos sugerem que, se reunidos em grande escala, os micróbios habitantes das profundezas terrestres ultrapassariam em biomassa a totalidade dos oceanos do planeta. No entanto, apesar dessa magnitude, os cientistas ainda pouco conhecem sobre eles.

Verdadeiro tesouro sob nossos pés

Em uma expedição ao Observatório Microbiano de Minas Profundas, uma antiga mina de ouro em Black Hills, no estado norte-americano de Dakota do Sul, pesquisadores da Universidade Northwestern desvendaram parte desse mundo subterrâneo – e os resultados foram descritos em um artigo aceito pela revista Environmental Microbiology.

“A biosfera subsuperficial profunda é enorme; é uma vasta quantidade de espaço”, disse Magdalena Osburn, coautora do novo estudo e professora associada de ciências planetárias e da Terra na Universidade, em um comunicado. “Usamos a mina como um canal para acessar essa biosfera, que é de difícil acesso, não importa como você se aproxime dela”. 

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A pesquisadora Magdalena Osburn coletando amostras durante uma visita ao Observatório Microbiano de Minas Profundas em agosto deste ano. Crédito: Sanford Underground Research Facility

O poder do nosso estudo é que coletamos muitos genomas, e muitos de grupos pouco estudados. A partir desse DNA, podemos entender quais organismos vivem no subsolo e aprender o que eles poderiam estar fazendo. São organismos que muitas vezes não conseguimos cultivar em laboratório ou estudar em contextos mais tradicionais. Eles são frequentemente chamados de ‘matéria escura microbiana’ porque sabemos muito pouco sobre eles.

Magdalena Osburn, pesquisadora da Universidade Northwestern 

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Segundo Osburn, a equipe analisou o DNA microbiano das amostras, identificando cerca de 600 genomas de 50 filos distintos e 18 filos candidatos. Dentro dessa ampla diversidade, a maioria dos micróbios parecia se encaixar em dois papéis: os “minimalistas”, especializados em tarefas específicas, e os “maximalistas”, adaptáveis a diferentes recursos disponíveis.

“Os micróbios que encontramos ou eram minimalistas: ultra-simplificados com um trabalho que faz muito bem ao lado de um consórcio próximo de colaboradores, ou podem fazer um pouco de tudo”, explicou Osburn. “Esses maximalistas estão prontos para cada recurso que surgir. Se houver uma oportunidade de fazer alguma energia ou transformar uma biomolécula, ele está preparado. Olhando para o seu genoma, podemos dizer que tem muitas opções. Se os nutrientes são escassos, ele pode simplesmente fazer o seu”.

Essa pesquisa também pode ter implicações na busca por vida extraterrestre. Habitualmente, os cientistas focam em sinais de vida na água ou na superfície de outros mundos. No entanto, essa descoberta evidencia que a vida também pode prosperar abaixo da superfície de luas ou planetas.