Mistério no oceano: inflamação cerebral mata tubarões-brancos e intriga especialistas

Algo estranho está causando inflamação no cérebro e matando grandes tubarões brancos no Oceano Atlântico Norte
Estudo diz que tubarões atacam mais na Lua cheia, embora a maior parte das investidas aconteçam durante o dia.
Estudo diz que tubarões atacam mais na Lua cheia, embora a maior parte das investidas aconteçam durante o dia. - Crédito: Alexius Sutandio - Shutterstock

Por mais de três décadas, cientistas canadenses monitoraram a vida marinha do Atlântico Norte sem nunca encontrar um tubarão-branco morto. No entanto, em apenas um ano, cinco carcaças foram descobertas, levantando um mistério preocupante. 

Continua após a publicidade

Casos semelhantes já haviam ocorrido nos EUA, totalizando nove tubarões encontrados sem sinais aparentes de ferimentos ou desnutrição. A causa foi revelada após análises microscópicas: meningoencefalite, uma inflamação do cérebro e das membranas que o envolvem, afetando a função cognitiva dos animais.

A inflamação cerebral pode comprometer a capacidade dos tubarões de nadar e se alimentar corretamente, tornando-os mais propensos a encalhar. Ocorre que a meningoencefalite não é uma doença propriamente dita, mas um sintoma. E os cientistas querem saber o que está causando esse quadro.

Um grande tubarão branco dos mares ao redor de Cape Cod. Crédito: Greg Skomal via NOAA

Uma doença pouco compreendida

Em entrevista ao site IFLScience, Harley Newton, cientista-chefe e veterinária da OCEARCH, organização conhecida pelo monitoramento de tubarões, destacou a falta de conhecimento sobre doenças naturais em tubarões e raias selvagens. “Encontrar vários indivíduos da mesma espécie, com sinais semelhantes de inflamação cerebral, ao longo de alguns anos, é algo preocupante”, afirmou, ponderando, no entanto, que sem um panorama mais amplo sobre a saúde dos tubarões é difícil medir a real gravidade do problema.

Foi ela quem primeiro identificou a meningoencefalite em um tubarão-branco em 2022, analisando amostras de tecido cerebral de um animal encontrado em Long Island, Nova York. Desde então, outros casos surgiram em locais distantes, como a Ilha do Príncipe Edward, no Canadá, e a Carolina do Sul, nos EUA. E a origem da doença continua desconhecida.

O impacto para os tubarões e o ecossistema

O surgimento dessa condição representa um novo desafio para os grandes tubarões-brancos, que já enfrentam riscos devido à pesca excessiva e à degradação do ambiente marinho. Segundo David Shiffman, estudante de pós-graduação em ecologia e conservação de tubarões, cerca de um terço das espécies conhecidas de tubarões e seus parentes – como raias e quimeras – estão ameaçados de extinção, conforme avaliado pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Embora os EUA sejam um dos países com melhores práticas de conservação de tubarões, a população do Atlântico Norte ainda é pouco estudada. De acordo com Shiffman, esses tubarões começaram a reaparecer na região recentemente, após um período de declínio populacional. O surgimento de uma doença misteriosa e potencialmente fatal pode representar um risco ainda maior.

Tubarões-brancos no Canadá e nos EUA têm aparecido mortos com inflamação no cérebro. Crédito: Andrea Izzotti – Shutterstock

No momento, não há evidências de que a meningoencefalite esteja se espalhando em larga escala. No entanto, se sua causa for infecciosa, há o risco de que a condição atinja um número maior de indivíduos. “É importante estudar sinais de alerta de doenças emergentes”, orientou Shiffman.

Leia mais:

Continua após a publicidade

Como desvendar o enigma?

Para tentar solucionar o mistério, Newton enviou amostras de tecido cerebral de um dos tubarões para o Laboratório de Diagnóstico de Doenças Animais de Washington. A análise genética pode identificar possíveis vírus ou bactérias responsáveis pela inflamação. No entanto, a cientista não acredita que uma resposta definitiva surgirá rapidamente.

Enquanto isso, especialistas enfatizam a importância de estudar tubarões encalhados para entender melhor as doenças que podem afetá-los. Segundo Shiffman, a preservação desses predadores é essencial para manter o equilíbrio do oceano. “Se você quer um ecossistema saudável, precisa de uma cadeia alimentar equilibrada – e isso inclui um topo forte”.

Flavia Correia
Flavia Correia

Flávia Correia é jornalista do Olhar Digital, cobrindo Ciência e Espaço.

Gostou? Compartilhe! Ajude mais pessoas a ficarem informadas.
Prefira o OD no Google
Ícone Whatsapp Ícone Whatsapp Ícone Instagram Ícone Facebook Ícone Linkedin Ícone Telegram Ícone Email