A história parece perfeita para circular nas redes: uma planta de quintal teria sido escolhida pela Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (NASA). Ela ainda ofereceria três vezes mais proteína que a carne. O ingrediente é a ora-pro-nóbis, mas os números oficiais revelam um alimento interessante por motivos bem diferentes.
Qual ingrediente brasileiro ganhou fama de comida de astronauta?
É a ora-pro-nóbis, uma hortaliça tradicional chamada cientificamente de Pereskia aculeata. Embora tenha folhas largas e aparência de trepadeira, ela pertence à família dos cactos. Esse parentesco ajuda a explicar seus ramos espinhosos e sua resistência relativa a períodos secos.
O nome significa “rogai por nós” em latim, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A planta ganhou espaço na culinária de Minas Gerais e Goiás, onde aparece em quintais, cercas vivas e pratos com carnes. Essa presença regional é documentada, mas não transforma automaticamente a hortaliça em alimento espacial. Diferentemente de muitos cactos, a espécie conserva folhas verdadeiras e pode formar arbustos com vários metros. Seus frutos também alimentam animais silvestres, que dispersam sementes.
A ora-pro-nóbis tem três vezes mais proteína que a carne?
Não, quando a comparação usa a mesma quantidade e o alimento como ele chega ao prato. A Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TBCA) registra 2,59 gramas de proteína em 100 gramas de folhas e talos frescos. Essa porção contém 89,5 gramas de água e 4,88 gramas de fibra alimentar. A versão cozida, sem óleo, chega a 2,98 gramas de proteína.
Na mesma base de 100 gramas, a TBCA informa 25,5 gramas para acém moído cozido. O músculo bovino cozido sem gordura chega a 30,8 gramas. A diferença mostra por que a frase viral não se sustenta quando os alimentos são comparados na mesma unidade e em condições semelhantes.

Por que a matéria seca cria um número tão impressionante?
A fama não surgiu do nada. Um estudo da Embrapa publicado em 2019 analisou cinco clones mantidos pela instituição. Os pesquisadores encontraram entre 16,60% e 23,88% de proteína na matéria seca. A leucina apareceu como o aminoácido essencial mais abundante nas amostras.
Matéria seca é o que resta depois da retirada da água. Esse processo concentra nutrientes e produz percentuais maiores, mas não torna correta a comparação direta com carne úmida pronta para consumo. O trabalho também encontrou variação entre os clones e destacou que qualidade proteica envolve aminoácidos e digestibilidade, não apenas percentual bruto.
A NASA realmente escolheu a ora-pro-nóbis?
Nos documentos oficiais consultados, não há registro dessa escolha. Um relatório técnico da NASA publicado em 2024 discute cultivos para missões longas e reúne espécies testadas no Centro Espacial Kennedy. O texto explica critérios como nutrição, variedade do cardápio e resistência do sistema de produção.
As tabelas citam alfaces, couves, mostardas, ervilhas, tomates, pimentas, rabanetes, quinoa, amaranto e microverdes. As buscas por ora-pro-nóbis, Pereskia e Barbados gooseberry não retornaram resultado no relatório. A ligação viral pode ter surgido da mistura com outros vegetais pesquisados, mas essa origem permanece como hipótese.
As duas frases mais repetidas usam bases diferentes ou não apresentam documento. A tabela resume o que cada fonte permite afirmar.
| Alegação | O que os dados mostram |
|---|---|
| Três vezes mais proteína que a carne | A folha fresca tem 2,59 g por 100 g, enquanto os cortes bovinos consultados têm entre 25,5 g e 30,8 g. |
| Escolhida pela NASA | O relatório oficial consultado reúne dezenas de cultivos, mas não cita a espécie. |
| Cresce em qualquer quintal | A planta é rústica, porém precisa de boa drenagem, luz e manejo. |
Ela realmente cresce em qualquer quintal?
Ela é rústica, porém “qualquer quintal” também exagera. A Embrapa informa que a propagação costuma ser feita por estacas semilenhosas. O plantio é recomendado no começo da época chuvosa. A espécie tolera diferentes tipos de solo, desde que tenham boa drenagem, condição importante para evitar excesso de água nas raízes.
O cultivo pode ocorrer diretamente no terreno ou em recipientes com substrato enriquecido. Em sistemas manejados, a primeira colheita de hastes pode acontecer entre 90 e 120 dias. Podas sucessivas estimulam novas folhas, e a planta também pode funcionar como cerca viva. Facilidade de cultivo não significa ausência de cuidados.
O segredo por trás da fama
A ora-pro-nóbis não precisa de uma viagem espacial nem de uma comparação impossível para ser interessante. Seu valor está na tradição culinária, no cultivo relativamente simples e nos nutrientes concentrados sobretudo na matéria seca. Separar fatos de propaganda devolve à planta uma história menos espetacular, porém muito mais confiável.
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