Nas Ilhas Montebello, no noroeste da Austrália, praias e águas protegidas dividem espaço com marcas de três testes atômicos britânicos realizados entre 1952 e 1956. Décadas depois, autoridades ainda orientam visitas curtas às áreas afetadas, proíbem mexer no solo e recomendam que ninguém toque ou retire relíquias deixadas pelas explosões.
Como as Ilhas Montebello viraram um campo de testes nucleares?
O Reino Unido iniciou seu programa de testes nucleares na Austrália com autorização do governo australiano. Segundo o National Archives of Australia, o governo britânico conduziu a Operação Hurricane nas Montebello em outubro de 1952. O local ficava cerca de 100 quilômetros da costa da Austrália Ocidental e oferecia isolamento para uma operação conduzida sob forte sigilo.
Os documentos oficiais registram que a Austrália aceitou sediar o teste em 1951. O National Archives afirma que não há evidência de que o primeiro-ministro Robert Menzies tenha consultado o gabinete antes do acordo. A decisão só se tornou pública em fevereiro de 1952. Um filme produzido para o Ministério do Abastecimento britânico registrou a operação e foi lançado em 1953. O National Archives avalia que a obra provavelmente funcionou como propaganda, destacando precisão tecnológica e capacidade de defesa. Esse histórico transforma as ilhas em registro de uma fase em que decisões militares avançavam mais rápido que o debate público sobre fallout radioativo e seus efeitos.
A primeira bomba britânica explodiu dentro de um navio
Em 3 de outubro de 1952, a bomba da Operação Hurricane foi colocada no porão do HMS Plym, uma fragata da Marinha Real ancorada perto de Trimouille. A Australian Radiation Protection and Nuclear Safety Agency (ARPANSA) registra rendimento de cerca de 25 quilotons. A explosão destruiu o navio e espalhou fragmentos metálicos que se tornaram radioativos pela detonação.
O impacto também modificou o fundo do mar. O National Archives informa que a explosão abriu uma cratera com mais de 6 metros de profundidade e mais de 300 metros de largura. O teste buscava observar como uma explosão nuclear poderia afetar navios, estruturas defensivas e suprimentos. Décadas depois, a Royal Commission into British Nuclear Tests in Australia, criada em 1984, concluiu que as Montebello foram um local inseguro e inadequado para Hurricane. A comissão também apontou que o governo australiano recebeu informações insuficientes sobre os possíveis efeitos do material radioativo lançado pela explosão.

Dois novos testes em 1956 ampliaram a marca radioativa
A história nuclear das ilhas não terminou em 1952. Em 16 de maio de 1956, o Reino Unido detonou o teste Mosaic G1 no extremo norte de Trimouille. Em 19 de junho, realizou o Mosaic G2 em Alpha. A ARPANSA lista rendimento estimado de 13,5 a 16 quilotons para G1 e uma faixa muito mais ampla, de 56 a 98 quilotons, para G2.
Essa diferença de estimativas exige cautela ao transformar o número em comparação simples. A própria agência australiana apresenta a faixa e informa que avaliações de exposição adotaram o valor superior para G2. O dado sólido é que as Montebello receberam três detonações nucleares, enquanto a Austrália recebeu 12 grandes detonações britânicas no total. A ARPANSA classifica essas explosões como grandes testes e explica que elas dispersaram material radioativo no ambiente. As demais ocorreram em Emu Field e Maralinga, no sul do país, antes de o programa britânico encerrar sua fase de grandes detonações australianas em 1957.
Por que visitantes de Montebello ainda recebem um limite?
O risco residual não significa que todo o arquipélago esteja fechado. A página atual do Department of Biodiversity, Conservation and Attractions da Austrália Ocidental informa níveis de radiação ligeiramente elevados em locais de Trimouille e Alpha. A orientação limita a exposição nessas ilhas a uma hora por dia, pede respeito à sinalização e determina que visitantes não perturbem o solo nem manipulem ou retirem relíquias.
O National Archives descreve a mesma cautela de forma mais específica ao mencionar os três locais de ground zero. Já o plano oficial de gerenciamento radiológico identifica três zonas de radiação elevada, Red Beacon e Mosaic G1 em Trimouille, além de Mosaic G2 em Alpha. Portanto, a formulação administrativa varia entre documentos, mas o princípio permanece claro: visitas ocasionais são permitidas, porém as áreas próximas das detonações continuam sob restrições preventivas.
Uma paisagem preservada carrega a memória das explosões
As Montebello deixaram de ser uma área proibida em 1992, quando retornaram ao controle da Austrália Ocidental e passaram à condição de parque de conservação. Hoje, a presença de bunkers, bases de concreto, estações de monitoramento e sucata mantém visível uma história que não terminou quando os cogumelos atômicos desapareceram. As restrições atuais mostram como decisões militares dos anos 1950 ainda influenciam a forma de visitar e preservar essas ilhas.
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