Quando o rio Negro recuou de forma histórica em 2023, pedras normalmente submersas voltaram a aparecer em Manaus. Nelas estavam rostos gravados no sítio Ponta das Lajes, cuja cronologia é estimada entre mil e dois mil anos. A mesma estiagem ainda revelou três sítios arqueológicos até então desconhecidos no Amazonas.
Como a seca revelou os rostos da Ponta das Lajes?
A resposta está no nível excepcionalmente baixo do rio. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou que o sítio aflorou pela segunda vez em 2023. A primeira exposição documentada pelo órgão havia ocorrido durante a seca de 2010. Segundo o Iphan, a cronologia local é estimada entre mil e dois mil anos. A área tem cerca de 150 mil metros quadrados e reúne uma praia coberta por lajes de pedra. O Iphan também descreveu o sítio como preservado, apesar da exposição excepcional causada pela estiagem.
As gravuras são petróglifos, registros feitos diretamente em blocos rochosos. Muitas representam rostos humanos, chamados popularmente de “caretas” pela comunidade. O sítio também preserva gravuras variadas, marcas de amoladores e bacias de polimento. Nesses pontos, antigos habitantes trabalharam instrumentos de pedra, incluindo peças semelhantes a machadinhas. Portanto, as marcas não formam apenas imagens, elas também documentam atividades realizadas naquele espaço. Essa combinação ajuda pesquisadores a observar usos diferentes do mesmo pedral, sem reduzir o local às figuras mais chamativas.
O rio Negro chegou a um nível que mudou o que podia ser visto
O recuo de 2023 não foi uma simples variação sazonal. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) registrou mínima de 12,70 metros no rio Negro em Manaus. Naquele momento, o valor representava um recorde de vazante na série histórica. O SGB confirmou o recorde de 2023 ao analisar os impactos da estiagem. O nível excepcional ajuda a explicar por que áreas normalmente cobertas pela água ficaram acessíveis. Em 2024, o próprio SGB registrou novo recorde de vazante, superando novamente a marca estabelecida no ano anterior.
O impacto, porém, foi muito maior que a descoberta arqueológica. O baixo nível dificultou navegação, abastecimento e deslocamentos em diferentes pontos da Amazônia. O transporte fluvial sustenta atividades essenciais em comunidades e cidades da região. Por isso, o reaparecimento das gravuras não deve ser tratado como benefício da seca. O próprio Iphan relacionou a oportunidade científica à situação severa enfrentada pelas populações atingidas. Assim, a arqueologia apareceu em meio a uma emergência hidrológica com efeitos econômicos e sociais concretos.

Quais foram os três sítios desconhecidos revelados em 2023?
A estiagem expôs vestígios muito diferentes entre si. Em Tabatinga, apareceram ruínas do Forte São Francisco Xavier, construção do século XVIII ligada à presença portuguesa na fronteira amazônica. A fortificação tinha formato de hexágono irregular e comportava nove peças de artilharia. Segundo o Iphan, cinco dessas peças ainda existem, distribuídas entre o Museu Histórico Nacional e uma unidade militar. O forte também marcava a presença portuguesa numa rota fluvial que seguia em direção aos Andes durante o período colonial. Em Anamã, o sítio Costa do Goiabeira revelou urnas funerárias de cerâmica. Já em Urucará, às margens do rio Uatumã, apareceram petróglifos pré-coloniais.
Essas descobertas não significam que os sítios tenham sido criados pela seca. Eles já existiam e ficaram visíveis quando a água recuou. Em 2023, o Iphan informou que só tomou conhecimento dos vestígios de Anamã e Urucará naquele período. Os dois locais ainda não estavam registrados no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA) naquela publicação. A instituição iniciou vistorias, registros e articulações para proteger áreas arqueológicas expostas pela estiagem. Os vestígios de Anamã e Urucará foram classificados como pré-coloniais, enquanto o forte pertence a outro período histórico.
Por que 2024 tornou a história ainda mais incomum?
Em 2024, Ponta das Lajes voltou a aflorar, desta vez pela terceira vez registrada pelo Iphan. As outras exposições haviam ocorrido em 2010 e 2023. O órgão informou que a nova estiagem revelou novamente gravuras rupestres e oficinas líticas. Também lançou um plano de ações voltado à proteção dos sítios arqueológicos do Amazonas. A iniciativa orienta segurança, conservação e boas práticas durante os períodos em que os vestígios ficam acessíveis. A repetição das secas tornou a proteção mais urgente, porque áreas antes submersas passaram a receber visitantes com maior frequência.
O fenômeno aumentou a preocupação com danos, retirada de objetos e descarte de resíduos. Em novembro daquele ano, cerca de 300 voluntários recolheram 2,5 toneladas de resíduos na área. O Iphan registrou a ação como parte das medidas de educação ambiental e patrimonial. A legislação brasileira ainda impede retirada, destruição ou aproveitamento econômico de bens arqueológicos. Pesquisas com intervenção também dependem de autorização prévia do Iphan. Fotografar é permitido, mas coletar peças, escavar ou alterar o sítio sem autorização pode comprometer informações arqueológicas e gerar infrações legais.
O que a seca expôs sobre a história amazônica
A Ponta das Lajes mostra como níveis extremos dos rios podem revelar capítulos preservados da ocupação humana na Amazônia. Em 2023, a seca expôs novamente os rostos e revelou três sítios desconhecidos, enquanto 2024 repetiu a exposição do pedral. O episódio aproxima arqueologia e memória, mas também evidencia a vulnerabilidade do patrimônio diante de secas cada vez mais marcantes.
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