Entre o mar e a foz do rio Potengi, paredes brancas formam um desenho que só se entende por inteiro quando visto de cima. O Forte dos Reis Magos, em Natal, nasceu de uma estratégia de ocupação e defesa iniciada no fim do século XVI. Sua estrela irregular guarda séculos de disputas, mudanças militares e preservação.
Por que o Forte dos Reis Magos tem forma de estrela?
A forma estrelada nasceu de uma lógica defensiva associada à arquitetura militar renascentista. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) descreve a planta como um polígono estrelado. O órgão relaciona o traçado às teorias arquitetônicas italianas do século XVI. Também identifica um ângulo reentrante voltado para o norte. Esse modelo fazia parte da linguagem dos fortes marítimos daquele período e organizava a defesa em diferentes direções.
O detalhe mais marcante aparece na visão aérea, que revela cinco pontas distribuídas ao redor do núcleo interno. A Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) informa que a forma atual surgiu em 1614. A instituição liga esse desenho ao arquiteto militar Francisco Frias de Mesquita. Assim, a defesa iniciada em 1598 não significa que a estrutura vista hoje estivesse pronta naquele mesmo ano. A estrela resulta de uma construção desenvolvida e aperfeiçoada nas décadas seguintes.
O forte nasceu antes da própria cidade de Natal?
Sim, a origem da defesa antecede a fundação da cidade, embora a cronologia da estrutura atual tenha etapas distintas. O Iphan registra o início em 6 de janeiro de 1598, data ligada ao Dia de Reis. Natal seria fundada em 25 de dezembro de 1599, segundo registros oficiais do município. A fortificação tornou-se, assim, uma referência anterior ao núcleo urbano que cresceria nas proximidades.
Existe uma nuance importante nessa cronologia. Uma página técnica do Iphan afirma que a fortificação atual possivelmente começou apenas em 1603 e estava concluída em 1630. Por isso, o mais preciso é separar a origem defensiva de 1598 da consolidação posterior da construção em pedra. O nome Reis Magos permaneceu ligado à data religiosa do início da presença militar. Em 1611, o local também aparece associado às primeiras iniciativas administrativas da antiga capitania.

Quando a estrela portuguesa virou Castelo Ceulen?
A mudança ocorreu durante a ocupação holandesa do Rio Grande do Norte. Segundo o Iphan, a fortaleza ficou sob domínio holandês de 1634 a 1654 e passou a ser chamada Castelo Ceulen. O episódio mostra que o mesmo desenho defensivo serviu a grupos rivais em diferentes momentos da disputa pelo litoral nordestino. Registros municipais também apontam que Natal recebeu o nome de Nova Amsterdã durante esse período.
A posição ajuda a explicar essa continuidade estratégica. O forte foi implantado na barra do Potengi, junto ao encontro do rio com o Atlântico. A localização permitia observar a entrada marítima e controlar um acesso decisivo à área. Séculos depois, o Iphan ainda considera a implantação no estuário parte essencial do valor protegido. Forma, função e paisagem permanecem ligadas na leitura histórica do monumento.
Como o Forte dos Reis Magos deixou de ser defesa e virou patrimônio?
O papel militar perdeu importância no fim do século XIX. Em 1894, o forte deixou de ser considerado elemento defensivo pelo Exército e foi desativado em 1904. Mesmo assim, voltou a ter uso durante a Primeira Guerra Mundial. Depois passou à guarda da Marinha, que instalou um farol também utilizado como moradia. O Iphan registra ainda que sua artilharia não recebeu modernizações ou ampliações relevantes ao longo dos séculos.
A deterioração levou a uma nova fase. O Iphan tombou a fortificação em 1949 e realizou restauração entre 1953 e 1958. A proteção federal reconheceu sua arquitetura militar e a ligação com a formação territorial brasileira. Em 2021, a Portaria Iphan nº 22 delimitou oficialmente a área de entorno. A norma destaca valores históricos, arquitetônicos, defensivos e paisagísticos associados à fortaleza.
Uma estrela que ainda explica Natal
O desenho de cinco pontas faz do Forte dos Reis Magos uma imagem marcante da engenharia defensiva que acompanhou a ocupação colonial do litoral. Porém, sua história vai além da forma vista do alto. Camadas portuguesas, holandesas, militares e patrimoniais permanecem reunidas no mesmo lugar. O contraste entre permanência do traçado e mudança de usos ajuda a entender por que o monumento atravessou tantos capítulos da cidade. Se você passar por Natal, observe a estrela pensando também no tempo necessário para ela assumir a forma que chegou ao presente.
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