No interior árido da Austrália Ocidental, estradas bloqueadas conduzem a um nome que desapareceu oficialmente do mapa. Wittenoom foi esvaziada após décadas de contaminação por amianto azul. O problema permanece no solo, nos cursos d’água e em antigas áreas de mineração, dentro de uma zona oficial de 46.840 hectares.
Como Wittenoom virou uma área contaminada
A mineração comercial de crocidolita ocorreu entre 1937 e 1966 nas minas Yampire, Wittenoom e Colonial, na região de Pilbara. Um relatório técnico encomendado pelo governo estimou mais de 3 milhões de toneladas de rejeitos após processar aproximadamente 150 mil toneladas de amianto. Esses resíduos ficaram concentrados nas áreas mineradas, mas também entraram na infraestrutura construída ao redor da atividade.
Os rejeitos continham cerca de 5% de amianto e foram usados na antiga cidade, no aeródromo e em outras estruturas. O relatório técnico do Governo da Austrália Ocidental registrou que vento e água espalharam resíduos por aproximadamente 10 km². O estudo identificou material transportado por cursos d’água, com depósitos em riachos, piscinas naturais e áreas sujeitas a inundação.
Por que 3 milhões de toneladas não significam 46 mil hectares cobertos?

Os dois números medem coisas diferentes e não descrevem a mesma superfície. O relatório de 2006 estimou mais de 3 milhões de toneladas de rejeitos e apontou resíduos espalhados por cerca de 10 km². Essa dispersão ocorreu por uso humano e transporte natural, sobretudo pela água e pelo vento, enquanto o estudo adotou premissas conservadoras em algumas avaliações.
A atual Wittenoom Asbestos Management Area (WAMA), porém, ocupa 46.840 hectares e delimita o território submetido à gestão oficial do risco. Ela inclui a antiga cidade, aeródromo, cemitério, áreas de mineração, Wittenoom Gorge, Yampire Gorge e Joffre Floodplain, classificados como área contaminada em 2008. Os 46.840 hectares formam a área oficial de manejo e risco, não uma camada contínua de três milhões de toneladas de rejeito.
O que aconteceu com a cidade até 2022?
O governo estadual começou a reduzir a ocupação de Wittenoom em 1978, diante do risco associado às fibras de amianto no ambiente. Em outubro de 2006, o relatório técnico registrava apenas oito moradores, enquanto o governo preparava o fechamento definitivo e novas medidas de restrição. Em junho de 2007, a localidade perdeu formalmente o status de cidade e deixou de ser reconhecida como townsite.
O fechamento ganhou base legal com o Wittenoom Closure Act 2022, sancionado em 29 de março de 2022, após anos de redução da ocupação. A lei permitiu adquirir propriedades restantes, retirar estruturas e consolidar um processo que também incluiu redução de serviços e fechamento de acessos. Em 8 de setembro de 2022, a última residente deixou Wittenoom, e o antigo assentamento ficou sem moradores permanentes.
É possível visitar Wittenoom hoje?
Não. O Governo da Austrália Ocidental afirma que a área não deve ser visitada e a considera inadequada para ocupação ou uso humano. Barreiras permanentes bloqueiam as entradas da antiga cidade e de Wittenoom Gorge, reduzindo o acesso de visitantes a setores contaminados.
A paisagem pode parecer comum, mas fibras de amianto nem sempre são visíveis no solo ou no ar, mesmo em áreas aparentemente preservadas. Caminhadas, veículos, vento e água podem movimentar material contaminado ao passar pelo terreno, aumentando a possibilidade de inalação de fibras microscópicas. A exposição pode causar mesotelioma, asbestose e câncer de pulmão, doenças capazes de aparecer muitos anos depois, após longos períodos de latência.
Por que a contaminação continua difícil de controlar?
O problema não se limita aos antigos depósitos de rejeitos, porque a contaminação também se move pelo relevo e pela drenagem. O relatório técnico apontou que a água pode carregar material contaminado por riachos e planícies, enquanto o vento espalha fibras respiráveis. Na antiga mina Colonial, a erosão dos rejeitos foi identificada como uma fonte importante de migração para a bacia do rio Fortescue.
Por isso, a estratégia proposta combina contenção, cobertura com rochas, revegetação, controle de cursos d’água, barreiras de acesso e monitoramento periódico. O objetivo é reduzir fontes e caminhos de dispersão, em vez de tratar a antiga cidade como um problema isolado e estático. Essa abordagem ajuda a explicar por que o encerramento urbano não significou o fim do trabalho ambiental nem da vigilância territorial.
Um lugar para conhecer à distância
Wittenoom resume uma longa herança da mineração de amianto na Austrália Ocidental, com efeitos que permanecem décadas após o fim da extração. O abandono não encerrou a contaminação, porque água, vento e intervenções humanas podem redistribuir fibras presentes no ambiente. Se essa história despertar sua curiosidade, conheça os registros oficiais e a paisagem por fontes remotas, sem entrar na área. É a maneira mais responsável de compreender um lugar cuja história continua aberta, mas que o próprio governo orienta a evitar.
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