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Por motivos variados, muitos países no mundo estão reportando uma queda no número de infecções por Covid-19. Os gráficos de locais como Estados Unidos, Espanha, Itália, Portugal, Reino Unido, Alemanha, França, Canadá, Rússia, Argentina, Colômbia, Índia e Israel deixam clara esta tendência que, infelizmente, não se repete no Brasil.

A Índia, por exemplo, chegou a registrar quase 100 mil novos casos da doença por dia em setembro, e parecia estar a caminho de ultrapassar os EUA como o país com mais casos. Mas as novas infecções começaram a despencar em setembro, e hoje são registradas cerca de 11 mil por dia.

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Apesar da queda dramática no número de casos, o motivo ainda não está claro. O governo local toma crédito por medidas como isolamento e multas pelo não-uso de máscaras, mas elas variam de acordo com a região do país, e não explicam uma redução consistente no número de casos.

Outras teorias incluem “imunidade de rebanho”, quando uma parcela grande o bastante da população é infectada e desenvolve anticorpos, e até mesmo uma “imunidade natural” da população indiana.

Em Portugal, país que já esteve no topo do ranking mundial de novos casos e mortes por milhão de habitantes, o número de infecções diárias caiu de 16.432 em 28 de janeiro para 2,5 mil em 9 de fevereiro. Isso é reflexo de medidas duras de isolamento social impostas pelo governo, que devem durar até meados de março.

Outro exemplo é Israel, país que já imunizou 80% dos habitantes em grupos de risco e 71,91% da população total. O número de novos casos diários caiu de quase 16 mil em 25 de janeiro para 2.500 em na última sexta-feira (19)

“Nesse caso, a queda pode, sim, estar ligada à questão da vacinação. Com alta cobertura, diminuição viral e da pressão no sistema de saúde, houve queda em Israel tanto no número de casos quanto na mortalidade”, diz Luana Araújo, médica infectologista e mestre em saúde pública, em declaração ao jornal O Estado de Minas.

Caixa, frasco e seringa da vacina Coronavac, esperança para reduzir o número de novos casos da Covid-19 no Brasil
Escassez de vacinas, desrespeito ao distanciamento social e variantemais transmissível podem contribuir para a estabilidade no número de casos no Brasil

E os novos casos no Brasil?

Já o Brasil segue com a pior média diária de óbitos do mundo. Segundo dados divulgados por um consórcio da imprensa no último domingo (14), nos sete dias anteriores a média foi de 1.105 óbitos por dia. Em comparação aos 14 dias anteriores, este indicador variou apenas 2%, o que indica estabilidade. Anteriormente, a maior média em uma semana havia sido registrada em 25 de julho, com 1.097 óbitos.

Segundo Araújo, nossos números não caem por dois motivos: “Tivemos uma queda, mas com os encontros de fim de ano, foi possível ver uma explosão de casos e óbitos na metade de janeiro. E ainda há a circulação da variante do Amazonas, que é mais transmissível, já detectada em outros 13 países. Não temos no Brasil uma vigilância tão presente do sequenciamento desse vírus, por isso, não conseguimos saber onde já temos a presença dele. A vigilância é sofisticada e cara e não é feita em âmbito normal, apenas em laboratório”, afirmou ao Estado de Minas.

Em Manaus, o número de casos positivos atribuído à nova cepa saltou de 52% em dezembro para 85% em janeiro. Segundo a médica, já é esperado que ela seja mais transmissível, o que pode influenciar o aumento de casos no país.

Além disso, a vacinação em nosso país segue a passos lentos. Na última quarta-feira (17) apenas 5,88 milhões de pessoas haviam sido vacinadas no Brasil, o que o coloca na sétima posição no ranking dos que mais aplicaram vacinas. Isso representa cerca de 2,7% de um total de mais de 212 milhões de habitantes.

Poderíamos fazer muito melhor. Segundo Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e fundador e primeiro presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Sistema Único de Saúde (SUS) poderia aplicar 3,04 milhões de doses de vacina contra a Covid-19 por dia.

Isso daria um total de 60 milhões de vacinados por mês, considerando 20 dias úteis. “Se vacinarmos 10 pessoas por hora, num dia de trabalho de 8 horas, dá 80 vacinas. Então, eu tenho condição teórica de vacinar 3 milhões de pessoas por dia útil. Tenho condições de vacinar, em um mês, sem fazer muito esforço, 60 milhões de pessoas”, calcula.

Na última quarta-feira (17) o Ministério da Saúde anunciou um cronograma de entrega de vacinas que prevê que o país poderá distribuir 230,7 milhões de doses de imunizantes contra a Covid-19 até a metade do ano. Caso o volume se confirme, o país poderia vacinar 115 milhões de brasileiros.

No entanto, o cronograma de vacina ainda conta com algumas ressalvas. Ele já inclui imunizantes que ainda cujas compras ainda não foram confirmadas. É o caso da Sputnik V, que está inclusa no cronograma, mesmo que a compra de 10 milhões de doses entregues pela União Química esteja selada.

Também está incluso no cronograma de vacina a Covaxin, desenvolvida pelo laboratório indiano Bharat Biotech. O governo prevê a entrega de 20 milhões de doses que ainda não foram adquiridas. Neste caso, também há a complicação de que a vacina sequer demonstrou um resultado de fase 3 até o momento, o que dificultará bastante sua aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Fonte: O Estado de Minas