M. Night Shyamalan é, indiscutivelmente, um realizador que sabe contar histórias interessantes e que despertam a curiosidade da audiência. ‘Tempo’, seu mais novo filme, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (29) tem uma premissa de terror insólita, dessas que nos faz imaginar o que diabos há por trás dos bizarros acontecimentos que desfilam pela tela. Confira o inquietante trailer:

A prévia acima sintetiza bem o plot da história. Após chegarem em uma praia isolada, um grupo de turistas é surpreendido com o corpo de uma mulher boiando, o que não é o único acontecimento estranho. O grande choque é a constatação de que eles estão envelhecendo rapidamente enquanto estão no local, de onde não conseguem sair.

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Antes de parabenizar M. Night Shyamalan pelo ponto de partida intrigante, é bom destacar que, embora escreva e dirija o filme, o roteiro é uma adaptação da HQ ‘Castelo de Areia’ (Tordesilhas, 112 páginas, R$ 56,00) de Pierre-Oscar Lévy e ilustrada por Frederik Peeters. Essa informação, aliás, tem aparecido pouco em materiais de divulgação do filme, o que pode levar alguns a imaginarem que se trata de uma história original do cineasta.

Uma curiosidade é que o francês Pierre-Oscar Lévy também é diretor de cinema e concebeu originalmente ‘Castelo de Areia’ como um filme, que acabou não sendo realizado e foi transposto para os quadrinhos.

Tensão e mistério

Acompanhamos essa história a partir de uma pequena família, formada pelo casal Guy (Gael García Bernal) e Prisca (Vicky Krieps) e seus dois filhos pequenos, Trent (Nolan River) e Maddox (Alexa Swinton). De férias em um resort no litoral, eles são convidados para um trecho isolado da praia, para onde vão com um pequeno grupo de hóspedes.

A trama parece, a princípio, uma história de suspense mais convencional, com o aparecimento de um corpo. Somente após a perceberem que as crianças estão crescendo, um sinal mais evidente da passagem do tempo, é que os adultos notam que também estão envelhecendo rápido.

Cena do filme mostra Guy (Gael García Bernal) e Prisca (Vicky Krieps) na praia com olhar assustado.
Guy (Gael García Bernal) e Prisca (Vicky Krieps) vivem casal que, além de tudo, estão em momento turbulento da relação. Crédito: Universal Pictures/Divulgação

Shyamalan sabe construir a atmosfera de tensão que se instaura na praia. Os personagens, mesmo os protagonistas, não são muito além de estereótipos que servem para dar intensificar questões relativas ao envelhecimento.

Há a loira supervaidosa que vê sua beleza esvaindo, há o rico racista que deixa de lado qualquer resquício de civilidade quando percebe a situação se agravando etc., enquanto as crianças vão perdendo rapidamente a inocência. Ainda que rasos, os personagens cumprem bem a função de fazer a trama andar.

Sobretudo nos dois primeiros terços, tudo parece funcionar consideravelmente bem na história – com certa ressalva para García Bernal, que parece um tanto deslocado em seu papel. No último terço do filme, Shyamalan deixa de lado parte da sutileza que predomina em boa parte do longa e tenta tornar tudo mais gráfico, apelando para um terror que quer causar impacto pelo que se vê na tela, e não por aquilo que é sentido.

Desfecho capenga

Não é de agora que Shyamalan mostra dificuldades para encerrar bem uma história. Talvez em uma tentativa de intensificar a sua assinatura, é no desfecho que o cineasta mais se afasta do material de origem. Como toda adaptação de outra mídia, mudanças são algo natural e, por vezes, necessário para que a trama funcione nos cinemas.

Na adolescência, Maddox e Trent são interpretados, respectivamente, por Thomasin McKenzie e Alex Wolff. Crédito: Universal Pictures/Divulgação

Não é o que ocorre no filme. O problema em ‘Tempo’ não reside no fato de seguir por um caminho diferente da HQ ‘Castelo de Areia’. A questão é que o desfecho soa desnecessariamente mirabolante e expositivo enquanto história em quadrinhos tem uma conclusão mais inconclusiva que funcionaria também nos cinemas.

Às vezes é melhor encerrar uma história sem responder os porquês daquilo que parece inexplicável do que entregar um final que pouco acrescenta à jornada dos personagens.

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