Dormir o suficiente é fundamental para a saúde, física e mental. Além disso, há uma crença amplamente difundida de que oito horas de sono, no mínimo, leva a melhorias no trabalho e nos resultados econômicos. Recentemente, contudo, pesquisadores demonstram que quantidade nem sempre implica em qualidade. O estudo, realizado com pessoas de baixa renda na Índia, verificou que as horas extras na cama não apresentam, por si só, grandes vantagens para a produtividade do dia-a-dia.

Diversas pesquisas se propõem a analisar como as pessoas dormem, a maioria conduzida em laboratórios específicos em países de alto desenvolvimento econômico. Esses experimentos documentam grandes efeitos negativos da privação de sono em uma série de circunstâncias da vida cotidiana, desde atenção e memória até humor e saúde. Um novo estudo, porém, prestou-se a observar os hábitos cotidianos de pessoas de baixa renda em Chennai, na Índia, a fim de verificar como as horas de sono e as condições externas relacionam entre si.

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De acordo com a ScienceAlert, o experimento acompanhou os hábitos noturnos de 452 trabalhadores mais pobres ao longo de um mês. A mensuração da qualidade do sono dessas pessoas foi feita a partir de actígrafos, pequenos sensores de movimento. Esse método não invasivo foi capaz de fazer leituras enquanto os voluntários dormiam em suas próprias casas, sem a necessidade de nenhum equipamento extra ou de confinamento para as observações.

Após observar a qualidade do sono habitual dos trabalhadores por um período determinado, os cientistas resolveram fornecer-lhes algumas intervenções para confrontar hipóteses. Foram oferecidos itens para melhorar seus ambientes de sono em casa, motivação verbal e, para um subconjunto de participantes, incentivos financeiros adicionais para que dormissem por mais tempo.

Vale mencionar que os trabalhadores envolvidos no experimento enfrentam muitas barreiras para uma boa noite de sono, como calor, barulho, aglomeração, desconforto físico e sofrimento psicológico. Nesse sentido, os cientistas acreditavam que com as intervenções a qualidade do sono apresentaria benefícios significativos.

Os pesquisadores observaram que, antes das intervenções, os voluntários dormiam 5,5 horas por noite, em média, muito abaixo do nível mínimo recomendado por especialistas em sono. Com a interferência, eles passaram a dormir cerca de meia hora a mais. Contudo, os benefícios esperados por esse acréscimo não se concretizaram.

Dormir um pouco mais não indicou nenhum efeito positivo para a cognição, produtividade, tomada de decisão e bem-estar. O percentual do número de horas trabalhadas também diminuiu, talvez porque mais tempo na cama signifique menos tempo para trabalhar. Em consequência disso, os trabalhadores tiveram perdas financeiras.

Uma resposta para os resultados inesperados foi encontrada no sensor de movimentos instalado: os voluntários tendiam a acordar cerca de 31 vezes por noite, em média. Significa que a qualidade do sono existente pode ser comparada a de uma pessoa com problemas de insônia ou apneia do sono de um país mais rico.

Essa baixa eficiência do sono verificada nos trabalhadores indianos parece impedir o descanso mais profundo e restaurador, apontado por pesquisas como fator determinante para as condições de saúde. Esses experimentos destacam as consequências de não se conseguir dormir com qualidade suficiente todas as noites, incluindo um risco aumentado de demência.

Experimento realizado na Índia indicou que dormir por um período maior exerce pouca influência na produtividade das pessoas. Em contrapartida, o estudo verificou que as condições psicológicas, sociais e ambientais são determinantes para a qualidade do sono.
Créditos: Shutterstock

Uma última intervenção proposta pelos pesquisadores consistiu em sugerir que os voluntários tirassem uma soneca por meia hora durante o dia, no meio do expediente. Essa interferência sim correspondeu às expectativas dos cientistas: pequenas melhoras na produtividade, função cognitiva e bem-estar psicológico dos voluntários. Contudo, apesar dos ganhos, a experiência também acarretou em perdas financeiras no trabalho, devido ao tempo “perdido”.

Dessa maneira, o tratamento do sono noturno combinado não apresentou benefícios significativos sobre qualquer resultado além do próprio sono. Pelo contrário, o aumento do suposto descanso acabou reduzindo a oferta de trabalho em nove minutos por dia, levando a uma pequena (mas não estatisticamente significativa) diminuição nos ganhos.

Em contraste com o sono noturno, os cochilos durante o dia melhoraram significativamente uma série de resultados para os trabalhadores. No entanto, a pausa também reduziu ganhos monetários. E, considerando as necessidades financeiras dos voluntários, que são de baixa renda, os benefícios acabam se relativizando.

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Apesar das conclusões do estudo não serem exatamente estimulantes, ele contribui para uma melhor compreensão das condições de vida enfrentadas pelos mais pobres nos países emergentes, fornecendo informações do sono mais diversificadas.

Além disso, a falta de efeitos positivos ao dormir um pouco mais verificada pela pesquisa conflita com as afirmações de experimentos anteriores, que colocam uma quantidade mínima de descanso como fator primordial para o rendimento no trabalho. Não significa, porém, que esses estudos não apresentem resultados reais, apenas indica que não são universais e que variáveis externas, como território e condição social, são mais determinantes do que se imagina.

Os especialistas dizem que mais experimentos como este – com foco nos hábitos reais das pessoas ao invés daqueles realizados em grandes laboratórios do sono – precisam ser desenvolvidos. Eles também afirmam que é preciso ter cautela com relação a pesquisas do sono muito amplas, que desconsideram os fatores ambientais e sociais.

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