Marmita, quentinha, marmitex. As variações daquelas refeições feitas em locais de trabalho são muitas e, apesar das nomenclaturas, a aparência sempre foi bastante similar: arroz, feijão, alguma mistura em seu interior; e por fora uma embalagem de alumínio (ou mesmo no tradicional tupperware de casa) abraçando todos os alimentos.

Ao longo do tempo, essas tradicionais e singelas refeições foram se transformando ao passo que escritórios corporativos se modernizavam, em resposta às novas demandas de trabalho. Ganharam roupagem elegante e logo conquistaram lugar de destaque dentro de espaços corporativos – ou mesmo coworkings – graças a startups como a Liv Up.

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Nascida em 2016, a empresa tinha como principal propósito trazer uma alimentação com três conceitos: “queríamos juntar o prático, o natural e o gostoso. Parece fácil falar, mas executar esse conceito é que é o desafio”, afirma Raphael Straatmann, cofundador e CTO da Liv Up, em entrevista ao Olhar Digital.

O executivo conta que essa era uma “dor” dos próprios idealizadores do projeto – Henrique Castellani e Victor Santos – e, à época, não existiam empresas que conseguissem supri-la – o jeito foi iniciar o negócio próprio.

Imagem mostra embalagens de comidas congeladas da startup Liv Up
Alimentos congelados da Liv Up trazem o conceito “prático, natural e gostoso” em embalagens coloridas. Crédito: divulgação/Liv Up

Pioneira no ramo de refeições congeladas, a Liv Up foi uma das empresas que participou ativamente da transformação desse mercado, elevando o status das fatídicas marmitinhas para algo ‘cool’ e – mais do que isso – sinônimo de cuidado com saúde e bem-estar.

Mais do que refeições prontas, a Liv Up vende uma cadeia que preza pelo sustentável de ponta a ponta dentro das embalagens coloridas bastante características da marca.

Straatmann conta que a startup funciona com uma cozinha central, em São Paulo, onde também fica a sede da empresa, mas possui uma logística distribuída, com centros desde Fortaleza até Porto Alegre, para dar conta das entregas feitas em diversas cidades do Brasil.

Os ingredientes são comprados diretamente do campo, em uma parceria que hoje contabiliza 35 produtores familiares. Assim, cerca de 80% das criações da Liv Up são de ingredientes orgânicos vegetais provenientes dessa parceria direta nomeada de Plantio Dedicado.

“Compramos mais de 500 toneladas de orgânicos no ano passado por meio dessa parceria e, sem intermediários, conseguimos fazer um preço mais interessante para o produtor, o que também acaba sendo mais interessante para a Liv Up”, observa Straatmann, complementando que a produção de orgânicos possui muitas variáveis que podem interferir no processo de produção e é nisso que a empresa também intervém.

“Temos um time dedicado que busca sempre novos fornecedores e oferece essa parceria com apoio técnico, promovendo a ponte entre os próprios produtores para a troca de experiências. Além disso, fornecemos um microcrédito para eles”, conta. Assim, os parceiros têm maior segurança financeira tanto no investimento inicial quanto no preço final – que é combinado desde o início do plantio.

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“Sem a Liv Up, a grande maioria dos produtores acaba tendo menor previsibilidade em termos de demanda, de quanto precisarão produzir, e também com relação ao montante que irão receber. Conseguimos passar essas duas previsões, o que gera um impacto em receita da ordem de R$ 15 mil por mês por família”, contabiliza Straatmann.

Vale citar também que a equipe dedicada da Liv Up para o projeto de Plantio Dedicado conta com uma agrônoma e uma agroecóloga que visitam constantemente os agricultores, monitorando e apoiando a produção no ‘durante’, para garantir maior aproveitamento e consequente menor desperdício.

E se engana quem pensa que só há cenouras, verduras e outros orgânicos no meio de todas essas criações desenvolvidas pela Liv Up. A principal estrela é, de fato, a tecnologia.

Tecnologia que alimenta

O grande ingrediente secreto e o responsável por transformar o negócio no que é hoje foi a tecnologia. “Foi a forma como conseguimos fazer acontecer”, afirma Straatmann. Por mais que a alimentação esteja no cerne do negócio, a base é tecnológica – por isso ela se classifica como foodtech que, desde o início, funciona de forma 100% digital.

“Você só consegue comprar Liv Up por aplicativo ou online, então temos muita informação ali”, explica Straatmann. É dessa forma que são coletados dados que, em última instância, se transformam em insights que geram melhorias para os produtos, ajustes no portfólio de ofertas e até mesmo em ideias para novas produções.

“O nosso bolinho de cenoura é um dos que tem maior taxa de recompra, por exemplo, então você consegue enxergar isso [com a tecnologia] e vira insight para os squads de desenvolvimento de portfólio”, afirma o executivo.

Hoje, a Liv Up possui um cardápio com 150 criações próprias e, entre o final deste ano e o início de 2022, a previsão é de aumentar as opções em quase sete vezes esse número, somando 1 mil pratos.

Na foto, Raphael Straatmann, CTO da startup Liv Up
Na foto, Raphael Straatmann, um dos cofundadores e atual CTO da Liv Up. Crédito: divulgação/Liv Up

Desde o início da operação também, a Liv Up construiu sistemas proprietários para dar conta do crescimento acelerado, trazendo ganhos para a produção sem deixar o cliente insatisfeito.

“Precisávamos dobrar a cada poucos meses a produção e a operação logística, mantendo e ganhando eficiência e, principalmente, sem errar – coisa que é muito fácil quando se cresce muito rápido”, conta Straatmann.

Os sistemas, segundo o executivo, cruzam a startup de ponta a ponta, do momento que entra um ingrediente na cozinha até o entregador sair com o produto pronto para chegar ao cliente. Inclusive a própria cozinha é repleta de notebooks, conta o executivo.

Depois, em um caminho natural, veio a implementação de algoritmos para completar a equação. “Quando começamos a investir em algoritmos, tivemos uma melhor gestão de estoque, que ficou super enxuto; conseguimos evitar praticamente tudo que poderíamos ter de perdas em termos de validade, porque os algoritmos nos permitem prever quanto será vendido, quanto teremos de cozinhar”, explica Straatmann.

“O algoritmo surgiu complementando e potencializando esse lado de eficiência [do negócio] e mínimo de perdas”, completa.

É justamente essa tecnologia que permeia a operação e permite que, em especial, haja contenção de desperdícios. “Descartamos muito pouco, cerca de 2% apenas”, observa o CTO. Em comparação, o valor analisado de concorrentes chega até um terço da produção total em perdas, ressalta ele.

A produção, assim que termina, também é testada em um laboratório de microbiologia dentro da cozinha, para garantir controle de qualidade e segurança dos alimentos vendidos.

Os algoritmos permeiam também a relação com o consumidor, que recebem recomendações com base em compras, tal como acontece com streamings como Netflix e Spotify.

“Conforme o cliente vai navegando no nosso serviço, o algoritmo vai aprendendo o que ele gosta e usa isso para recomendação. Mas temos também o lado qualitativo, que é feito por um time de CX [customer experience, ou experiência do cliente, em tradução] muito forte e orientado à experiência, que absorve feedbacks sobre como podemos ser melhores e como podemos cocriar.”

Mercado de TI

E quando se fala de tecnologia, obrigatoriamente é preciso falar sobre pessoas.

Em junho, a Liv Up captou R$ 180 milhões em uma rodada de investimentos série D, liderada pela Lofoten Capital, o intuito é acelerar o projeto de expansão de portfólio e do negócio e, assim, um dos principais investimentos está focada na área de tecnologia – claro!

Hoje, a empresa soma mais de 800 colaboradores, com 70 deles da TI. A expectativa é contratar mais 30 pessoas, especialmente para as áreas de Engenharia, Produto, Design e Analytics.

Além disso, a startup está com um projeto focado em mães, chamada “Mães da Tecnologia” – grupo que historicamente sofre muito preconceito não apenas pela área da TI ser majoritariamente ocupada por profissionais do sexo masculino, mas também pela questão da maternidade propriamente dita, que ainda é grande tabu no mercado de trabalho brasileiro como um todo.

O projeto foca em vagas voltadas para a área de Engenharia de Software, e engloba como diferencial uma carga horária 40% menor, mas com benefícios iguais aos oferecidos aos demais cargos. A ideia é que mulheres possam alinhar carreira aos cuidados com filhos, visando o desenvolvimento de ambos.

As vagas abertas exclusivamente para mães estão disponíveis neste link.

Imagem mostra um produtor rural no meio de uma plantação mantira em parceria com a startup Liv Up; à frente do produtor está uma plata vermelha que mostra o logo da startup
Além dos alimentos preparados a partir de produtos produzidos no campo, a quitanta da Liv Up também vende itens in natura provenientes dos mesmos produtores parceiros. Crédito: divulgação/Liv Up

Planos futuros

O futuro da Liv Up, na verdade, já está em andamento.

Além da equipe de tecnologia, a empresa busca ampliar o seu recém-explorado mercado online, o que eles chamam de “quitanta”. O serviço vende produtos não produzidos diretamente da cozinha da startup, mas que são dos produtores parceiros.

Na pandemia, além do crescimento com relação ao próprio delivery de comidas congeladas, a empresa também viu a demanda por produtos in natura aumentar – daí surgiu a oportunidade de investimento em um novo nicho.

“Percebemos que os agricultores parceiros tinham dificuldades em escoar alguns itens produzidos por eles e nossos clientes queriam esse mesmo tipo de produto para cozinhar em casa. A demanda casou e começamos a levar ingredientes in natura direto do produtor ao consumidor”, conta Straatmann. “Foi uma grande alavanca de crescimento para as famílias e uma grande oportunidade”, completa.

O executivo enxerga a mudança de hábitos de consumo dos clientes – e também o fato de as pessoas estarem mais em casa por conta do distanciamento social –, como uma das principais alavancas que impulsionaram essa oportunidade.

Agora, uma das metas, é continuar a investir na quitanda e expandir os negócios. “Acreditamos que as pessoas estão se importando mais, questionando e lendo mais os rótulos, estão com maior acesso à informação e, consequentemente, fazendo escolhas mais conscientes sobre o que querem comer no dia a dia. Essa é uma tendência mundial, no Brasil não é diferente, e essa percepção acelerou com a pandemia”, comenta.

Até o final de 2021, o plano é lançar cerca de 600 itens para o mercado online da marca – atualmente o portfólio conta com 400.

O executivo salienta que ter nascido no digital é o grande diferencial da operação. É onde eles conseguem proporcionar um canal confiável para compras. “Acreditamos que conseguimos fazer isso muito bem: ir até o produtor, escolher produtos de qualidade e vender em uma experiência digital confiável, que garante que tudo o que o cliente comprou vai, de fato, chegar a ele integralmente – que é algo que muitas empresas que vendem no online não conseguem cumprir”, conta.

Para Straatmann, o trabalho que a Liv Up vem desenvolvendo ao longo dos anos é exatamente aquele que se propuseram desde o início: “Estamos construindo a comida do futuro”, encerra.