Na última quinta-feira (26), a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid recebeu uma denúncia formal de um representante de médicos e ex-médicos da Prevent Senior de que a operadora de saúde e o governo federal fizeram um acordo, no início da pandemia de Covid-19, para testar e disseminar os medicamentos do chamado kit Covid, como a cloroquina, a ivermectina e a azitromicina.

Cloroquina, Sulfato de Hidroxicloroquina, Zinco, Ivermectina e Avigan
Segundo denúncia de médicos e ex-médicos da Prevent Senior, a operadora teria um acordo com o governo federal para ministrar medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19. Imagem: Sergio Yoneda – Istockphoto

Segundo o documento, uma série de irregularidades foram praticadas pela empresa, que afirmou, por meio de nota, sempre ter atuado  “dentro dos parâmetros éticos”. “Todas as dúvidas e questionamentos formulados pela CPI foram devidamente esclarecidos junto às autoridades competentes”.

Teste do kit Covid em 600 pacientes teria sido manipulado

Uma pesquisa feita com mais de 600 pacientes para testar a eficácia da hidroxicloroquina contra a Covid-19, realizada entre março e abril do ano passado, teria sido o primeiro ato do acordo, segundo a denúncia. A acusação é de que a tabulação teria sido manipulada para que os resultados fossem favoráveis ao uso do medicamento.

De acordo com o senador Humberto Costa (PT), o documento diz ter havido uma “política de coerção” por parte da Prevent Senior em termos de orientações aos profissionais médicos, “para adotarem aquelas orientações do chamado tratamento precoce”. 

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O senador disse, ainda, que o documento relata que “aqueles que, em algum momento, se recusaram a implementar essas medidas foram demitidos”.

Tratamentos experimentais sem consentimento dos pacientes

Uma das acusações mais graves da denúncia é de que a Prevent teria feito uma série de tratamentos experimentais em seus pacientes, muitas vezes sem consentimento deles. O texto diz que pacientes foram usados como “cobaias humanas”.

“Uma das coisas que o hospital orientava era que os pacientes e os seus familiares não tivessem conhecimento de que essa experiência estava sendo feita, que não tivessem conhecimento de que estavam sendo administrados esses medicamentos. A informação que se tem é que isso foi um acerto entre a direção do hospital e o governo federal, contra aquelas orientações que havia do Ministério da Saúde, no período do ministro [Luiz Henrique] Mandetta. E o chamado gabinete paralelo estaria por trás dessa. Ele era o elo entre o Prevent Senior e o governo federal”, disse o senador.

Em sua defesa, os médicos alegam que eram coagidos pela empresa a prescrever as medicações do “tratamento precoce” de forma sistemática. Entre os remédios não-convencionais recomendados sem eficácia confirmada contra a Covid-19 estão a ozonioterapia, a flutamida e a heparina inalatória.

Já existe um requerimento aprovado pela CPI para que o diretor-executivo da Prevent, Pedro Batista Jr., seja ouvido, e o senador Renan Calheiros, relator da comissão, afirmou que mais representantes da empresa serão convocados. 

Além disso, outro requerimento solicita que o Ministério Público de São Paulo, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), a Agência Nacional de Saúde (ANS) e o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) compartilhem suas investigações com a CPI.

O senador Randolfe Rodrigues (MDB) disse que os crimes narrados na denúncia são de “lesa-humanidade”. 

Médicos da Prevent Senior foram obrigados a trabalhar com Covid-19

Outra grave denúncia que compõe o documento é de que médicos que trabalhavam na linha de frente da Covid-19 teriam que fazer plantões nos hospitais da Prevent Senior mesmo infectados com o novo coronavírus. A denúncia ainda relata que eles foram proibidos de usar Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

Denúncia diz que médicos infectados com Covid-19 eram obrigados a trabalhar sem EPI nos hospitais da Prevent Senior. Imagem: Prevent Senior

A não utilização de máscaras, de acordo com o documento protocolado pelos denunciantes, tinha o objetivo de disseminar o vírus no ambiente hospitalar, para que, assim, pudesse ser feita uma pesquisa que constava da utilização de cloroquina, de azitromicina, de ivermectina com os pacientes.

Somado a isso, os médicos afirmam que passavam por uma rotina de pressão e assédio constantes para prescrever medicações que eles sabem que não funcionam e que podem agravar o quadro dos pacientes.

Segundo o documento, esse protocolo começou no dia 6 de abril de 2020. 

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O Conselho Federal de Medicina (CFM) diz que os médicos têm autonomia para prescrever o remédio que julgarem adequado ao paciente, no entanto, a denúncia é de que não é isso que acontece na Prevent Senior. Um dos médicos teria sido demitido quando se recusou a dar essas medicações.

“Eu deixei de prescrever por um único dia acreditando nisso [autonomia] e acabei sendo chamado à diretoria com orientações bem claras de que eu deveria prescrever a medicação e o que ficava implícito era que, se não prescrevesse a medicação, você estaria fora do hospital. Voltei a prescrever a medicação por ter sido obrigado a prescrever. A autonomia, na verdade, é zero, você não tem escolha de deixar de prescrever. Se você não prescreve, você vai ser demitido”, disse um deles.

Remédio para câncer de próstata era administrado em mulheres

Conforme reportagem da GloboNews, a representação ao MP foi acompanhada de capturas de tela de uma conversa em um grupo de médicos da Prevent via WhatsApp. Uma das imagens mostra um trecho em que um diretor da operadora escreve: “Bom plantão a todos e enfatizo a importância da prescrição da Flutamida 250 mg de 8 em 8 horas para todos os pacientes que internarem”.

Até 2004, a flutamida era comercializada para o tratamento de acne. Naquele ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta para que o remédio não fosse utilizado para nenhuma finalidade que não fosse o tratamento de câncer de próstata, após quatro mulheres terem morrido de hepatite fulminante fazendo o uso da medicação.

Na própria bula da flutamida, o fabricante diz que o remédio não deve ser usado por mulheres e que a única indicação é para tratar câncer de próstata.

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