Parece coisa de filme – ou mesmo daqueles videogames mais futuristas – mas aconteceu de verdade, de acordo com o jornal New York Times. O Mossad, serviço secreto israelense, teria utilizado um drone equipado com uma metralhadora, câmeras e softwares de inteligência artificial para assassinar o principal cientista do programa de armas nucleares do Irã, em novembro do ano passado.

Mohsen Fakhrizadeh estava em seu carro numa estrada de Absard, a leste de Teerã, acompanhado da sua esposa, quando o veículo apareceu inesperadamente e efetuou 13 disparos. Os 11 seguranças da Guarda Revolucionária que o acompanhavam ficaram atônitos, sem saber de onde vinham os tiros. O operador do drone estava a mais de 1.600 quilômetros de distância, olhando tudo por uma tela

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A operação toda levou pouco mais de 60 segundos e só Fakhrizadeh foi ferido. A arma utilizada foi uma metralhadora FN MAG de fabricação belga, modificada para ser acoplada ao aparato robótico e montada numa caminhonete. O conjunto pesava cerca de uma tonelada e foi contrabandeado para o Irã peça por peça, para então ser secretamente montado a tempo do ataque.

O drone israelense estava equipado com uma metralhadora belga FN MAG. Imagem: FN Herstal/Divulgação
O drone israelense estava equipado com uma metralhadora belga FN MAG. Imagem: FN Herstal/Divulgação

O carro foi posicionado em um cruzamento na rota que Fakhrizadeh fazia habitualmente entre sua casa de praia no Mar Cáspio e uma residência em Absard. Assim que o veículo do cientista chegou ao local, os agentes do Mossad fora do Irã usaram as câmeras para identificar positivamente seu alvo e dispararam uma saraivada de balas da metralhadora, via controle remoto. Fakhrizadeh chegou a sair do carro, mas foi atingido por mais três tiros antes de morrer.

O plano, porém, não foi 100% bem-sucedido. Explosivos deveriam ter destruído o drone completamente, mas isso não aconteceu – o que permitiu à Guarda Revolucionária do Irã avaliar que uma metralhadora controlada remotamente “equipada com um sistema de satélite inteligente” usando inteligência artificial realizou o ataque. A hipótese do “robô assassino” foi levantada na época, mas contradiziam diretamente os relatos de supostas testemunhas oculares e foi tido como um esforço para minimizar o constrangimento da força de segurança de elite do país, que falhou em proteger uma suas das figuras mais bem guardadas.

O NYT, porém, teve acesso a relatos de oficiais norte-americanos, israelenses e iranianos, incluindo dois oficiais de inteligência familiarizados com os detalhes do planejamento e execução da operação. O assassinato de Fakhrizadeh serviu como teste para o atirador de precisão computadorizado de alta tecnologia, equipado com inteligência artificial e múltiplas câmeras, operado via satélite e capaz de disparar 600 tiros por minuto.

Diferente dos drones voadores, o equipamento montado em um carro não chama atenção no céu – onde pode ser abatido – e pode ser colocado em qualquer lugar pelas equipes de campo. O robô usado na operação que matou Fakhrizadeh, por exemplo, foi construído para caber na carroceria de uma picape Zamyad, um modelo comum no Irã. Câmeras apontando em várias direções foram montadas para dar à sala de comando uma imagem completa não apenas do alvo e seus detalhes de segurança, mas do ambiente ao redor.

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O equipamento, no entanto, apresenta seus desafios. A metralhadora montada no carro, mesmo estacionado, se move após o recuo de cada tiro, o que muda a trajetória das balas subsequentes. Além disso, o envio das imagens gera um atraso de 1,6 segundos na resposta do controlador. Um programa de inteligência artificial foi criado para compensar esse atraso, a movimentação da arma e a velocidade do carro.

A picape ficou disfarçada no cruzamento como um carro abandonado, com direto a macaco hidráulico e uma roda faltando. A operação teve início na madrugada do dia 27 de novembro e pouco antes das 15h30, a comitiva de Fakhrizadeh chegou ao local. O carro do cientista foi identificado pelos operadores israelenses, que também puderam ver sua esposa sentada ao lado dele. A metralhadora disparou uma rajada de balas, atingindo o para-brisa pelo menos três vezes e Fakhrizadeh pelo menos uma vez no ombro. Ele saiu do carro e se agachou atrás da porta da frente aberta, mas foi atingido com mais três tiros.

O primeiro guarda-costas chegou e olhou em volta em busca do agressor, aparentemente confuso. A Zamyad azul então explodiu, mas essa parte da operação que não saiu como planejado. Ao invés de destruir o robô em pedaços para que os iranianos não pudessem investigar corretamente o que havia acontecido, a explosão só danificou os equipamentos.

Investigadores iranianos observaram que nenhum dos disparos atingiu a esposa de Fakhrizadeh, sentada a centímetros de distância. A conclusão é de que o Mossad também fez uso de softwares de reconhecimento facial para isolar o alvo do ataque.

Via: New York Times

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