Recentemente, a Gol Linhas Aéreas anunciou um acordo para comprar o “carro voador” britânico. Anunciamos o veículo com essas aspas, e por boa razão: não é realmente um carro voador.

O Vertical Aerospace VA-X4 é um micro-avião VTOL planejado para ser usado como uma espécie de avião-táxi, um serviço que já existe com helicópteros. Não anda na rua, não para na garagem de ninguém, e exige um piloto treinado.

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A promessa da ficção científica

Não é, enfim, o futuro prometido na ficção científica, nem a empresa diz em qualquer lugar que seu veículo é um “carro voador”, mas de “táxi voador”.

Em Os Jetsons, para pegar o exemplo mais clássico, carros voadores são exatamente como carros: o dono é o piloto, eles saem da própria garagem para os céus da cidade, para o trabalho ou um shopping, e para a própria garagem de novo. O mesmo acontece em De Volta Para o Futuro, Blade Runner, O Quinto Elemento etc. etc. etc. As pessoas têm uma noção clara do que é um carro voador.

E o primeiro modelo da Vertical Aerospace a voar, o VA-X1, de 2018, e que foi então chamado também de “carro voador”, parecia mais próximo de prometer isso.

Mas a realidade acabou se impondo e o projeto (ainda em construção) evoluiu para o que é melhor descrito como avião elétrico.

carro voador elétrico VA-X4
Carro voador elétrico VA-X4 é encabeceado pela British Airlines e desenvolvido em conjunto com MIcrosoft e outros investidores (Imagem: Divulgação/Vertical Aerospace)

Um século de carro voador

Mas, afinal, quando chega o futuro? Quase todo ano chega a notícia de que, agora sim, alguém lançou um carro voador. Quase sempre acaba esquecida.

Um dos exemplos mais avançados comercialmente, o Terrafugia, até parece carro, mas é um avião que pode andar no trânsito – na prática, você dirige ele até um aeroporto para decolar, só pode fazer isso com uma licença de piloto, e só pode pousar em outro aeroporto. Não é carro voador, é avião no trânsito.

Veículos como o Terrafugia são praticamente tão antigos quanto o avião: o Demoiselle, de Santos Dumont, criado em 1907, era um ultraleve ultraportátil pensado para decolar e pousar em ruas, e ser guardado em casa.

Santos Dumont com o Demoiselle, um ancestral do carro voador
Santos Dumont com o Demoiselle, um ancestral do carro voador (Imagem: Domínio Público)

Dez anos depois, o Curtiss Autoplane foi o primeiro veículo criado com o explícito propósito de mesclar carro e avião, mas não foi demonstrado na prática. E, há 100 anos, em 1921, o francês René Tampier de fato tinha um avião funcional que, dobrando as asas, era também um carro funcional. Com ele, andava pelo trânsito em Paris.

Tampier em 1921 no meio do trânsito (Imagem: Domínio Público)

Desafios técnicos

Existe um desafio técnico considerável em criar um veículo competente em terra e no ar, porque ambas as necessidades se contradizem.

Um carro quer ficar em terra: sua aerodinâmica, bem óbvia em veículos com spoilers, é planejada para forçá-lo contra o chão, e ganhar mais tração e capacidade de frenagem. Quanto mais rápido vai, mais preso ao chão. É o que garante sua segurança.

Um avião, obviamente, quer subir.

Em geral, isso significa que um carro voador acaba se saindo tanto um carro quanto aeronave mais ou menos. Não é muito bom em nenhum quesito.

Foi seguindo considerações práticas assim que o “carro voador” da Vertical Aerospace acabou se metamorfoseando num avião. O veículo mais parecido com o V4-X4 é o V22 Osprey das forças armadas dos EUA, que voou pela primeira vez em 1981.

O Osprey, como o X4, decola com as hélices apontadas para cima e vira para frente para se movimentar (US Army/Domínio Público)

A peça por trás do manche

Mas o problema maior com o carro voador não é criá-lo: é usá-lo.

Tráfego aéreo não é brincadeira: aviões e helicópteros precisam dizer o tempo inteiro o que estão fazendo a torres de comando, sob o risco de colisões catastróficas. Não tem como “desburocratizar” isso.

São Paulo, que é a cidade com mais helicópteros no mundo, tem pouco mais de 2 mil deles. E, por isso, também é a única com um controle de tráfego aéreo exclusivo para helicópteros. Com cerca de 9 milhões de veículos com rodas, trocar carros por carros voadores exigiria uma estrutura mais de 4 mil vezes maior.

Isso considerando que cada motorista fosse treinado como um piloto de avião ou de helicóptero. São cursos que levam até dois anos e custam mais de R$ 100 mil. E, mesmo com curso, nem talvez os melhores pilotos atuais fossem capazes de lidar com um tráfego do tamanho que uma frota de carros voadores causaria. Seria algo nunca visto na história da aviação.

É uma impossibilidade humana, e aí a única chance para carros voadores é se forem totalmente automatizados. Mas, ainda assim, a complexidade é demais para os sistemas atuais, que mal evitam que carros autônomos batam em viaturas da polícia. Os riscos de um acidente de trânsito caindo na cabeça das pessoas provavelmente tornariam a coisa politicamente impossível de ser aprovada por legisladores.

Mas, aqui, estamos de fato no terreno da ficção científica. Talvez a tecnologia nos surpreenda – só não tão cedo.

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