Cada ser humano produz, ao ano, cerca de 30 kg de plástico. A expectativa de vida de uma pessoa é, em média, 70 anos. E a Terra está chegando à população de oito bilhões de pessoas. Esses são dados da Escola Federal Politécnica de Lausanne (EPFL), em um estudo feito por dois engenheiros que criaram um método de reciclagem de plásticos que busca evitar um cenário catastrófico de acúmulo de lixo na Terra.

O novo método ainda é uma prova conceitual, ou seja, ainda não passou por avaliações práticas de viabilidade, mas o estudo publicado no jornal Advanced Materials já foi analisado por congêneres (“peer reviewed”, no termo em inglês) e tem solidez científica.

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Gráfico mostrando o funcionamento de novo método de reciclagem de plásticos desenvolvido na Suíça
Ao recombinar as sequências de proteínas do plástico em laboratório, pesquisadores conseguiram transformar o material descartado em algo mais prático, eliminando a necessidade de gerar mais lixo (Imagem: Giaveri et al./EPFL/Divulgação)

Basicamente, o que os engenheiros fizeram foi levar a grande escala da natureza para um contexto reduzido: basicamente, existe um processo de reciclagem natural de polímeros orgânicos conduzido pelo meio ambiente, no qual a natureza “quebra” proteínas e reorganiza seus pedaços em outras diferentes proteínas.

Esse método de reciclagem de plásticos foi reproduzido em laboratório por Simone Giaveri, da EPFL na Suíça: “uma proteína é como um colar de pérolas, onde cada pérola representa um aminoácido”, explicou a cientista. “Cada pérola tem uma cor diferente, e a sequência de cores determina a estrutura da corrente e, consequentemente, as suas propriedades”.

“Na natureza,” – ela continua – “os ‘colares’ de proteína são quebrados em aminoácidos, e as células presentes dentro desses aminoácidos os rejuntam para formar novas proteínas – ou seja, elas criam novos colares de pérolas com uma sequência de cores diferente”.

Esse mesmo processo, feito em laboratório, sugere a reconfiguração do plástico descartado para algo novo e útil: segundo Giaveri, durante um dos testes, ela e sua equipe foram capazes de desmontar as proteínas da seda, recombinando-as para gerar um corante verde-fluorescente, um tipo de marcador proteico usado em pesquisas biomédicas. Segundo ela, a qualidade e integridade da cadeia de proteínas se manteve constante.

A notícia é importante do ponto de vista ecológico: mesmo os plásticos biodegradáveis, ou seja, aqueles que podem ser consumidos por agentes biológicos naturais (como bactérias), geram um resíduo que deve ser ou armazenado, ou enterrado para ser devidamente descartado. O problema com isso é que, independente do curso de ação, você vai ocupar terreno para isso – terreno esse que poderia ser usado para outras finalidades, como a construção de fazendas e produção agrícola.

Giaveri reconhece, porém, que seu método de reciclagem de plásticos ainda carece de muita pesquisa e muito investimento. Isso porque simplesmente testar a sua viabilidade em um ambiente comercial exige uma estrutura que, hoje, pouca gente dispõe. Entretanto, ela também afirma que a novidade vem em uma hora que não é apenas boa, mas também necessária.

“Isso vai exigir uma mentalidade radicalmente diferente”, disse Francesco Stellacci, da EPFL. “Polímeros são como colares de pérolas coloridos, mas polímeros sintéticos são algo como um colar feito com pérolas da mesma cor – mas quando a cor é diferente, a sequência que ela produz raramente importa”.

“Em média, uma pessoa comum produzirá cerca de duas toneladas de plástico durante a vida. A julgar por quantas pessoas existem na Terra hoje, estamos perto de um cenário catastrófico”, disse a especialista. 

“No futuro”, disse Stellacci, “a sustentabilidade vai empurrar os esforços de reciclagem ao limite, misturando muitas coisas e recombinando a mistura para produzir diferentes materiais. A natureza já faz isso”.

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