Em 1862, Charles Darwin estudou uma espécie de orquídea cujo canal de seu néctar media cerca de 30 centímetros. Impressionado, o naturalista britânico teorizou a existência de uma mariposa capaz de se alimentar desse canal. Cinco anos mais tarde, em 1867, Alfred Russel Wallace relacionou a orquídea à alimentação de uma subespécie da mariposa-falcão, confirmando a ideia de Darwin – tanto a planta como a mariposa são naturais do Madagascar.

Mas agora, em 2021, a “mariposa de Darwin” foi elevada à categoria de espécie por um time de cientistas do Museu de História Natural de Londres. Mas há algumas ressalvas.

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A mariposa teorizada por Darwin, cuja existência foi provada anos depois, finalmente foi reconhecida como espécie
A mariposa-falcão do Madagascar foi teorizada por Charles Darwin, mas só foi reconhecida como sua própria espécie depois de 159 anos (Imagem: Wikimedia Commons/Divulgação)

A mariposa em questão já nos é conhecida há muito tempo, e Darwin especulou sobre sua existência, com Wallace adicionando à suposição. A primeira confirmação do animal veio em 1903, graças a Karl Jordan e ao lorde Walter Rothschild.

Entretanto, no ato de sua descoberta, a mariposa-falcão (por vezes chamada de “mariposa-esfinge” ou “esfingídea”) foi catalogada como uma subespécie do gênero Xanthopan. Na época, eles a classificaram como “Xanthopan morgani praedicta” (“Mariposa prevista”), uma variante da mariposa-falcão africana, reconhecendo apenas o trabalho de Wallace e ignorando Darwin.

Especialistas do museu britânico, porém, analisaram as diferenças genéticas e físicas da mariposa, concluindo o que Darwin já havia previsto em 1862: a mariposa-falcão de Madagascar é uma espécie própria, a qual agora passa a ser reconhecida como “Xanthopan praedicta”, e não uma subespécie relacionada a outras variantes.

“Imagine a minha empolgação enquanto eu desenrolava e media a probóscide de uma Xanthopan macho originada das florestas tropicais do Madagascar”, disse David Lees, curador de mariposas do museu, referindo-se à “tromba” usada pelo inseto para sugar o néctar do fundo do canal das orquídeas. “As mudanças taxonômicas que propusemos finalmente trazem o reconhecimento devido, a nível de espécie, para uma das espécies malgaxes mais celebradas”.

Assim como muitos exemplares de outros animais e plantas, essa mariposa-falcão é encontrada exclusivamente no Madagascar, com sua evolução intimamente ligada à também exclusiva presença da orquídea-de-madagascar (Angraecum sesquipedale). Basicamente, a mariposa desenvolveu um longo apêndice, com uma língua capaz de sugar o néctar da planta. Consequentemente, a planta conta com a mariposa para polinizar a sua própria espécie. Embora o inseto também possa polinizar outras plantas, essa relação só foi observada entre ele e esse tipo de vegetal.

A parte do “desenrolar” mencionada acima também tem um significado literal: a mariposa-falcão é capaz de retrair o apêndice, usando-o somente durante a alimentação. Desenrolado, ele se torna um peso extra que desequilibra o inseto durante o voo, deixando-os vulneráveis aos seus predadores naturais – morcegos, principalmente, mas também alguns lêmures que podem agarrá-los no ar.

Isso torna o seu estudo por especialistas um pouquinho mais complicado: espécimes mortos de mariposas-falcão também entram em rigidez cadavérica (rigor mortis), então tentar desenrolar o apêndice nessas condições resulta nele se partindo. A solução, então, é mergulhar a cabeça da mariposa em água a fim de amolecer a parte interessante, desenrolá-la, tirar as medidas e estudos, e enrolá-la de volta. Davis diz que o apêndice é tão longo – quase do tamanho de uma régua – que guardar a mariposa na gaveta de espécimes requer que a parte seja enrolada.

foto mostra uma mariposa-falcão usando seu longo apêndice para se alimentar do néctar de uma orquídea
As mariposas-falcão se alimentam das orquídeas-de-madagascar, sugando o néctar de seu longo canal e contribuindo para a polinização da planta (Imagem: Encyclopaedia Britannica/Reprodução)

O Madagascar constitui um dos biomas mais exclusivos do mundo, e ao país são atribuídas pelo menos 200 espécies de animais e plantas ainda não devidamente catalogadas e classificadas. Por isso e por várias outras razões, muito da nação africana é fechada por organizações mundiais de preservação, que permitem apenas a entrada de cientistas para estudos benignos de classificação e conhecimento, mas não a extração.

Isso se dá pelo fato da massa continental que hoje é o Madagascar ter se separado da África há cerca de 100 milhões de anos, mantendo mais ou menos a mesma configuração histórica de quando a Terra ainda tinha os chamados “supercontinentes” – neste caso específico, a Gonduana (“Gondwana”, para alguns).

Normalmente, há pouca interação entre as espécies endêmicas do Madagascar com as de outras regiões, salvo por alguns pássaros e insetos maiores que chegam na ilha por correntes migratórias próximas.

A decisão de elevar a mariposa-falcão para uma espécie própria veio por meio de análises comparativas: o consenso científico diz que a definição de “espécie” consiste de um grupo de indivíduos similares que podem se cruzar e gerar crias viáveis. No exemplo presente, a mariposa-falcão de Madagascar foi comparada à mariposa-falcão da África continental.

Ninguém necessariamente testou a capacidade de uma procriar com a outra, mas o time do museu examinou o exemplar malgaxe e identificou diferenças demais para permitir que ele permanecesse como uma variante de outra espécie: “a barriga da mariposa malgaxe é meio rosada, enquanto a africana é branca ou amarelada”, disse Davis.

Essa, e outras 24 diferenças morfológicas levaram à conclusão de que o time estava olhando para uma nova espécie de mariposa – assim como Darwin especulou há 159 anos.

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