Restos de um foguete V2 disparado pela Alemanha nazista contra Londres durante a Segunda Guerra Mundial foram encontrados em uma área descampada no sudeste da Inglaterra, onde caiu e explodiu antes de atingir seu alvo.

Segundo reportagem do Live Science, essa é a sexta grande escavação de um V2 realizada pelos irmãos Colin e Sean Welch, arqueólogos estudiosos do conflito, que passaram mais de 10 anos investigando os locais das “armas de vingança” nazistas lançadas contra a capital britânica.

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Vista aérea da cratera da explosão do foguete V2 de 1944 sendo escavada no mês passado. O local era um pomar quando foi atingido. Imagem: Colin Welch

Eles também escavaram os locais de impacto de dezenas de bombas voadoras V1, precursoras dos modernos mísseis de cruzeiro que foram lançadas principalmente de catapultas na França ocupada pelos nazistas entre 1944 e 1945.

Na última escavação V2 perto de Platt, uma vila perto de Maidstone, capital de Kent, a 51 km a sudeste da capital britânica, os pesquisadores – chamados de localizadores de crateras – recuperaram mais de 800 kg de detritos de metal, incluindo grandes fragmentos da câmara de combustão do foguete, de quando ele explodiu por volta da meia-noite do dia 14 de fevereiro de 1945.

O local agora é um campo aberto, mas era um pomar quando o foguete caiu. “Felizmente, o impacto foi longe o suficiente de qualquer casa para que ninguém se ferisse, mas uma idosa relatou mais tarde que o barulho da explosão prejudicou sua audição”, disse Sean Welch ao Live Science.

Equipe vai reunir os restos do foguete e outros achados para redigir artigo científico

No fim do mês passado, a equipe passou quatro dias usando uma escavadeira mecânica e pás para examinar a cratera da bomba, que havia sido preenchida com terra, embora sua localização fosse conhecida. 

Eles agora vão levar até 18 meses conservando os objetos para, então, escrever um relatório arqueológico para os arquivos históricos oficiais do condado.

“Usamos detectores de metal para localizar os vestígios mais profundos da explosão, que estavam a mais de 4,3 metros de profundidade”, disse Colin Welch. “[Embora] o foguete estivesse viajando a até três vezes e meia a velocidade do som, a detonação não é supersônica”, disse ele. “O foguete atingiu pelo menos 1,5 metro no solo antes de começar a detonar corretamente”.

Colin Welch, que está com um pedaço de metal do foguete, e seu irmão Sean Welch já escavaram seis grandes locais de impacto de V2 e dezenas de locais de impacto de bombas voadoras V1 no sudeste da Inglaterra. Imagem: Scott Wishart

As bombas voadoras V1 e os foguetes V2 estavam entre as últimas “Wunderwaffen” (“armas milagrosas”), que a liderança nazista esperava que mudassem a maré da guerra, que a Alemanha estava perdendo – mas chegaram tarde demais.

De acordo com o Museu Aéreo e Espacial do Smithsonian Institute, Adolf Hitler ordenou que os V1s e V2s fossem usados contra Londres após os devastadores bombardeios dos aliados contra cidades alemãs em 1943 e 1944. Seu ministro da comunicação, Joseph Goebbels, os apelidou de “Vergeltungswaffe” ou “armas de vingança”.

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O primeiro V1 chegou a Londres em 13 de junho de 1944, e o primeiro V2 em 7 de setembro daquele ano.

Segundo os estudiosos, os V1s voavam quase à velocidade de um avião de caça da época, e os pilotos da Royal Air Force logo aprenderam a derrubá-los ou tirá-los do curso. Seus motores a jato pulsante também faziam muito barulho – tanto que eram apelidados de “bombas de zumbido” – o que permitia que as pessoas pudessem ouvi-las chegando e tentassem se abrigar.

Os foguetes V2, no entanto, foram reconhecidamente as primeiras armas supersônicas e eram muito temidos. Isso porque ninguém podia ouvi-los chegando e eles voavam muito alto e rápido para interceptar. Eles eram lançados pelos alemães de locais estratégicos, chegando a uma altitude de aproximadamente 80 quilômetros para então cair sobre seus alvos, atingindo velocidades de até 5.600 km / h.

“Embora os V2s fossem mais sofisticados, os V1s eram muito mais baratos de fabricar e tendiam a explodir no nível do solo, em vez de entrar no solo, o que os tornava armas mais eficazes”, disse Colin Welch.

Os ataques com foguetes V2 contra Londres mataram cerca de 9 mil civis e militares, enquanto os V1 da Alemanha, juntos, mataram até 30 mil pessoas, de acordo com o Museu Imperial da Guerra de Londres.

Ataques noturnos dificultavam acerto do alvo

Vários foguetes V2 pousaram em Kent, e não em Londres, o que Colin e Sean Welch atribuem a eles terem sido lançados à noite, quando a “mira” era menos precisa. Eles explicam que, conforme a campanha V2 progredia, os lançamentos poderiam ser detectados por operadores de radar aliados, que então guiariam os esquadrões de caça até o local. 

“Para evitar os ataques das aeronaves aliadas, os alemães começaram a lançar V2s à noite, quando a maioria dos caças não conseguia voar, o que levou a uma precisão pior das equipes de solo que apontaram os foguetes”, disseram os arqueólogos.

Alguns dos restos de metal retorcido do V2 que caiu e explodiu perto de Platt em 1944 estão gravados com um código de três letras que indica a fábrica na Europa ocupada pelos nazistas onde a peça foi feita.

Além dos números de série e da fórmula química da liga metálica com que foram produzidos, algumas peças têm um código de três letras que corresponde à fábrica na Europa ocupada pelos nazistas onde foram feitas. Imagem: Colin Welch

Até recentemente, os historiadores pensavam que todos os V2s foram construídos sob a direção do cientista de foguetes alemão Wernher von Braun em túneis subterrâneos perto de Nordhausen, na base das montanhas Harz da Alemanha. 

“Agora, no entanto, parece que a fábrica de Nordhausen era apenas uma linha de montagem, e os códigos de três letras mostram que os nazistas fizeram as peças dos V2 em fábricas tão distantes quanto a Tchecoslováquia ocupada”, disse Sean Welch.

O próprio Von Braun é um personagem controverso. Ele alegou não saber sobre as atrocidades nazistas, mas era membro da SS paramilitar nazista (“Schutzstaffel”, que significa “esquadrão de proteção”) e, de acordo com o White Sands Missile Range Museum, mais de 12 mil trabalhadores forçados morreram nas linhas de produção de seus V2 em um único ano. 

Von Braun foi capturado pelos americanos após a guerra e se tornou um pioneiro da corrida espacial: em 1960, foi nomeado diretor do Marshall Space Flight Center da Nasa, onde desenvolveu os foguetes que impulsionaram a espaçonave Apollo para a lua.

Os militares americanos na Alemanha do pós-guerra também capturaram vários V2s em diversos estágios de montagem e os enviaram para os EUA, onde se tornaram a base de seu nascente programa espacial. 

Em 1946, um V2 modificado foi lançado de White Sands Missile Range no Novo México, atingindo uma altitude de 105 km. Ele tirou a primeira fotografia da Terra feita do espaço.

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