A relação da China com os videogames costuma ser complicada, especialmente no que diz respeito à censura. Isso é um tanto surpreendente, dado que a quantidade de jogadores na nação supera a população dos Estados Unidos (EUA), e alguns jogos incrivelmente populares, como o ‘Genshin Impact‘, vêm de desenvolvedores chineses. Empresas como a Tencent também têm participações em grandes fatias do mercado ocidental de jogos – incluindo ações da Epic Games, desenvolvedora de ‘Fortnite’.

O tratamento que o país dá ao setor de entretenimento tem passado por muito escrutínio, especialmente recentemente com algumas limitações no tempo de jogo online para crianças e censura de tipos de personagens.

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Esta não seria a primeira vez que o país teria uma relação polêmica com jogos. Pouco tempo atrás, consoles estrangeiros costumavam ser totalmente banidos da China, com a repressão em certos sites e vitrines mudando com frequência. Algumas empresas, como a Valve, chegaram a mudar totalmente o marketing no país para atender às leis de entretenimento estabelecidas, e não é de hoje também que os desenvolvedores muitas vezes falam amplamente sobre como pode ser difícil lançar games no gigante asiático.

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Entenda a guerra da China contra os videogames. Imagem: Mehaniq/shutterstock.com

Sem surpresa, isso se tornou ainda mais difícil após os protestos de Hong Kong e Taiwan que estouraram em 2019. O braço de entretenimento do governo da China tomou medidas para censurar representações “desagradáveis” e “vulgares” de personagens no entretenimento, o que surtiu ter um efeito maior no desenvolvimento de jogos.

Quem controla a censura aos jogos na China?

Vários departamentos do governo têm impacto sobre os jogos que podem ou não ser lançados na China. O mais ativo é, de longe, a Administração Nacional de Rádio e Televisão (NRTA, anteriormente conhecida como Administração Estatal de Rádio, Cinema e Televisão). O órgão é responsável pelo gerenciamento de conteúdo da maioria dos produtos de mídia no país.

Ou seja, desenvolvedores e aspirantes que desejam lançar games na China precisam passar pelos rígidos regulamentos da NRTA e podem ser rejeitados por uma variedade de razões.

Em geral, o conteúdo que visa um lançamento chinês não deve minar a “unidade chinesa” ou dar um “mau exemplo” para o público. Por exemplo, há rumores de que o último blockbuster do Universo Cinematográfico Marvel (MCU), ‘Shang-Chi’, não será lançado no país devido aos comentários anteriores do protagonista Simi Liu – que descreveu a vida dos pais na nação como “algo de terceiro mundo”.

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Frequentemente, no entanto, parece haver inconsistências com as políticas de censura chinesas e os interesses dos cidadãos. Por exemplo, ‘Cyberpunk 2077’ atraiu grandes críticas na China graças aos comentários sobre Taiwan, com muitos pedindo um boicote ao título. O jogo, por conta disso e do paralelo feito com o Ursinho Pooh e o líder Xi Jinping, ainda não tem data oficial de lançamento no país.

Apesar disso, ‘Cyberpunk 2077’ é um best-seller no chamado “mercado cinza” da China – que, diferente do mercado negro, vende produtos originais, mas com descontos significativos, graças à ilegalidade. Isso mostra como alguns conteúdos não aprovados ainda podem “escapar e cair” nas mãos da população chinesa e que mesmo quando o NRTA faz um decreto claro, nem sempre é certo quais jogos receberão ou não sanções.

Personagens afeminados são proibidos

Uma das restrições mais recentes na guerra da China contra os videogames pode impactar uma série de títulos diferentes. Jogos como ‘Boyfriend Dungeon’, por exemplo, dificilmente passarão pelas novas regras, que visam combater o chamado “estilo afeminado” que não promove a “cultura tradicional”.

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China proibiu personagens considerados “afeminados” de videogames, tal Taric de ‘League of Legends’. Imagem: Riot Games/Divulgação

De acordo com artigo da Xinhuanet, agência de notícias controlada pelo Partido Comunista da China, personagens masculinos com traços “ternos”, “extremamente belos” e/ou “andróginos” estão terminantemente proibidos.

Os tipos de exigências em relação à afeminação de personagens masculinos dificultaram ainda mais o processo de aprovação do NRTA para jogos. Campeões de ‘League of Legends’ como Taric, por exemplo, foram fortemente editados em aparições no país. O personagem no game online é retratado de forma menos extravagante na versão chinesa do jogo, mudança presumivelmente feita para cortejar a enorme base de fãs na nação – assim como confortar os pais e responsáveis de crianças e adolescentes.

Recentes controvérsias

Além das restrições citadas, a China também mudou recentemente o tempo de jogo para crianças e adolescentes. Na prática, isso significa que os chineses menores de 18 anos não podem jogar online por mais de três horas por semana (e apenas entre 20h e 21h às sextas, sábados e domingos).

O objetivo é, de acordo com o governo, combater o “vício em jogos” em crianças mais novas, especialmente com as estratégias predatórias de monetização empregadas por alguns games online. Até certo ponto, a mudança faz sentido quando o risco de menores de idades gastarem milhares de dólares em microtransações é uma preocupação real para alguns pais e responsáveis.

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Loja da Steam foi lançada na China com apenas 53 títulos. Imagem: Casimiro PT/Shutterstock

Embora não seja necessariamente uma polêmica, a versão chinesa da Steam foi lançada recentemente, com uma coleção de apenas 53 jogos aprovados. Este foi o primeiro lançamento oficial da Valve no país, mas não tecnicamente foi a estreia, visto que a Steam sempre existiu em um “espaço cinza” na legalidade chinesa por algum tempo e permitiu que alguns jogadores acessassem, inclusive, títulos censurados

O lançamento da Steam China foi inicialmente muito contestado pelos desenvolvedores de jogos do país, que estavam preocupados que a vitrine de títulos pudesse impactar negativamente o cenário de games local em desenvolvimento.

Fonte: Game Rant

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