Uma compilação de pesquisas feita por diversos astrônomos norte-americanos afirma que o objetivo do grupo é o de encontrar a “próxima Terra”, por meio da instalação de diversos telescópios espaciais que os ajudarão a estudar o universo além do sistema solar onde vivemos.

O material, intitulado “Decadal Survey on Astronomy and Astrophysics” (“Pesquisa de Década sobre Astronomia e Astrofísica”), foi publicado na nova edição da National Academies of Sciences, e detalha uma série de missões de alta prioridade que, afirma o grupo, a agência espacial americana Nasa deveria começar a projetar ainda nesta década.

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Ilustração mostra uma possível "próxima Terra"
Projeto tem por missão encontrar a próxima Terra, e uma série de novos telescópios que enxergam mais longe e em vários espectros de luz podem ajudar (Imagem: KeyFame/Shutterstock)

Encontrar um planeta parecido com a Terra é um objetivo bem antigo da comunidade astronômica – parte dos estudos sobre os “exoplanetas”, ou seja, planetas que estão fora do nosso sistema solar – envolve a busca por uma “nova casa” para a humanidade.

A compilação já sugeriu no passado coisas que estamos vendo agora no presente: o iminente lançamento do telescópio espacial James Webb, por exemplo, veio de uma edição anterior à pesquisa atual. Desta vez, porém, os especialistas tomaram um rumo um pouco diferente: ao invés de sugerir quais missões devem ser prioridade, o grupo se concentrou apenas em uma (que tem várias e várias fases).

Intitulado “Programa de Maturação Tecnológica e Missão dos Grandes Observatórios”, o projeto sugere que sejam criados um telescópio espacial primário (não muito diferente dos smartphones “flagship” das empresas tecnológicas), capaz de enxergar luz nos espectros ultravioleta, infravermelho e óptico em atmosferas de planetas com visualização de até 10 bilhões de vezes mais fraca do que as estrelas que eles estão orbitando, além de outros dois telescópios auxiliares.

Esses dois telescópios extras seriam, respectivamente, capazes de enxergar raios-x e frequências mais profundas do infravermelho. Além destes três, outros observatórios abrigariam telescópios de solo na superfície da Terra – o estudo fala em estruturas de destaque, como o finado telescópio de Arecibo, em Porto Rico, mas não estipula quantos ou quais seriam suas especificações.

Desta forma, em apenas algumas décadas, a humanidade seria capaz de estabelecer o panorama mais compreensivo do universo de que se teve notícia. A premissa parece ser grandiosa demais e até um pouco exagerada, mas o James Webb, há 10 anos, também era.

A comunidade científica recebeu o material com bastante expectativa: “o time por trás da compilação respondeu ao desafio. Eles detalharam uma ciência espetacular e fizeram escolhas bem ousadas tanto para estruturas de solo como as espaciais. Eu estou muito feliz com isso”, disse Heidi Hammel, vice-presidente de Ciências na Associação de Universidades para Pesquisas em Astronomia, ao The Verge.

A questão da “próxima Terra” parece ser o objetivo principal do estudo compilado. O primeiro exoplaneta é uma descoberta relativamente jovem – ela se deu em 1992. Desde então, milhares deles já foram descobertos, catalogados e classificados, levando a humanidade ao entendimento de que eles são relativamente comuns.

O próximo passo natural disso seria identificar um exoplaneta capaz de abrigar vida alienígena. Mas estudar os exoplanetas é uma tarefa difícil no melhor dos cenários: por eles orbitarem estrelas tão distantes de nós, o brilho dos seus astros por muitas vezes os ofuscam de nossa visão, o que nos impede de observá-los diretamente.

O que cientistas fazem, hoje, é procurar por efeitos de suas presenças. Normalmente, isso é feito ao olharmos diretamente para as suas estrelas. Quando o brilho dela escurece a certos níveis, isso geralmente é um indício de que um exoplaneta se colocou entre a nossa visão e a referida estrela. Outro jeito é procurar por variações gravitacionais sofridas por ela com base na passagem próxima de um exoplaneta.

Entre todos esses, encontrar algum planeta que tenha, especificamente, uma estrela similar ao Sol, e as condições atmosféricas parecidas com a nossa, seria o “Santo Graal” da astronomia moderna. E os autores da nova compilação acreditam que o caminho para isso seja um mega telescópio com um refletor de cerca de seis metros (m) de diâmetro, capaz de enxergar diferentes espectros de luz brilhante.

Evidentemente, uma empreitada desse tipo não sairá barata: dois grupos – HabEx e LUVOIR – estabaleceram parâmetros técnicos e até desenharam digitalmente o visual esperado de um telescópio dessa magnitude – o primeiro grupo estimou o custo entre US$ 8 bilhões e US$ 10,5 bilhões (R$ 44,82 bilhões e US$ 58,83 bilhões), enquanto o segundo ficou em imensos US$ 17 bilhões (R$ 95,25 bilhões).

ilustração mostra design sugerido de telescópio espacial que procurará a próxima Terra
Novos telescópios podem ser incumbidos da missão mais importante da astronomia: encontrar uma nova Terra para a humanidade (Imagem: Nasa/JPL/Divulgação)

Claro, a “próxima Terra” é um dos objetivos, mas não o único: os telescópios também nos permitiram observar com maior profundidades objetos incrivelmente densos – buracos negros e estrelas de nêutrons, por exemplo – e aprender mais sobre os processos cataclísmicos que levam aos seus nascimentos.

Claro, a Nasa não tem obrigação nenhuma de acatar os designs sugeridos, e é por isso que o relatório não faz nenhuma recomendação direta, preferindo apenas se concentrar em informar o que espera que os artefatos sejam capazes de fazer.

Mais além, ainda temos um longo caminho para percorrermos: o telescópio espacial James Webb, que será lançado – finalmente, diga-se – em 18 de dezembro de 2021. Em tese, ele chega a ser até 100 vezes mais potente que o atual Hubble, mas só depois que o “brinquedo” estiver posicionado no espaço é que saberemos que tipo de informação ele será capaz de nos entregar.

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