Um novo estudo afirma que a decisão que tirou Plutão do “cargo” de nono planeta do nosso sistema solar é “baseada em folclore, incluindo astrologia” e que, por isso, deve ser revogada.

Os pesquisadores da Universidade da Flórida (Central) argumentam, em um paper publicado no jornal Icarus, que as definições que fazem de um planeta um planeta estão concentradas em fatores errados, e que os motivos para isso não se justificam do ponto de vista científico.

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Plutão deixou de ser um planeta em 2006, quando a IAU estabeleceu parâmetros que o excluíram da lista de planetas do nosso sistema solar. Há, até hoje, quem seja contra essa decisão
Plutão deixou de ser um planeta em 2006, quando a IAU estabeleceu parâmetros que o excluíram da lista de planetas do nosso sistema solar. Há, até hoje, quem seja contra essa decisão (Imagem: AleksandrMorrisovich/Shutterstock)

Basicamente, o principal parâmetro que levou a União Internacional da Astronomia (IAU) a remover Plutão da lista de planetas é o fato de ele não ser capaz de conduzir a sua própria órbita, ou seja, ele depende de outros corpos celestes para influenciar seu trajeto – neste caso, Netuno, de um lado; e diversos objetos congelados do Cinturão de Kuiper, do outro.

A IAU rege que um planeta deve ser capaz de conduzir sua órbita sozinho, sem a influência gravitacional de outros corpos. Como não é o caso com Plutão, o antigo “nono planeta” deixou de ser planeta.

Segundo o autor primário do estudo, Phillip Metzger, porém, esse é um foco equivocado, e a IAU deveria mudar esse paradigma para um outro detalhe que, diz ele, é bem mais importante: se o corpo celeste em questão é ou já foi geologicamente ativo. E Plutão atende a esse requerimento.

Metzger baseia seu argumento no fato de que novas tecnologias estão descobrindo cada vez mais planetas dentro e fora de nossa galáxia, então um sistema de classificação mais robusto eventualmente se fará necessário: “há uma explosão no número de exoplanetas que descobrimos na última década, e isso só vai aumentar quando botarmos telescópios melhores no espaço. Então temos um motivo para criar uma taxonomia melhor, e temos que consertar esse problema antes de chegarmos mais longe com esses exoplanetas. Nós queremos uma ciência excelente pois esse grande influxo de dados é muito mais importante para definirmos corretamente as nossas descobertas”.

Nos últimos cinco anos, Metzger e sua equipe revisaram grande parte da nossa literatura planetária, descobrindo que a definição original de um planeta – aquela proposta por Galileo Galilei no século XVI, onde um planeta é um corpo geologicamente ativo – acabou esquecida com o passar dos anos, e entre as décadas de 1910 e 1950, estudos astronômicos deixaram de se voltar aos planetas e se concentraram em outros objetos.

“Nós mostramos, por meio de ‘bibliometria’, que houve um período de negligência quando astrônomos não prestavam muita atenção a planetas”, disse Metzger, “Nesse período, a taxonomia pragmática que vinha desde a época de Galileu foi interrompida”.

Metzger ainda chama atenção para outro fato: no mesmo momento em que a definição original de Galileu começou a perder força, aumentou em popularidade o volume de outro tipo de publicação – os almanaques, livros anuais que faziam previsões meteorológicas e de outros tipos com base em posições dos astros – o que requer um número limitado de objetos celestes para funcionar. Em outras palavras, astrologia, de acordo com Metzger.

“Esse longo período foi essencial na história da astronomia, pois foi nele que as pessoas aceitaram verdades como a Terra orbitando o Sol e não o contrário, e eles combinaram esse grande insight científico com uma definição do que é um planeta que veio da astrologia”, disse Metzger.

O especialista afirma que a mudança parece inócua, mas seu impacto é sentido até hoje: “os planetas não eram mais definidos por sua complexidade, sua atividade geológica e seu potencial para a vida e civilização. Ao invés disso, eles passaram a ser definidos simplesmente por seguirem uma rota idealizada ao redor do Sol”.

Somente na década de 1960, graças à corrida espacial entre potências mundiais da época, é que o interesse mais pragmático retornou, e pessoas começaram a usar estudos para descartar objetos inferiores a planetas, como luas, asteroides e cometas. Uma simplificação do consenso científico se posicionou, o que eventualmente fez com que algumas pessoas buscassem uma justificativa matemática para manter o número de planetas mais baixo – o parâmetro de “conduzir a própria órbita”.

Só que, segundo Metzger, isso nunca foi exigido no passado: “é como se você fosse definir um ‘mamífero’. Os mamíferos o são independente de viverem na terra ou no mar. Não é sobre a localização deles, mas sim as características intrínsecas que fazem deles o que são”.

Por essa razão, Metzger pede que a IAU pare com o parâmetro de condução da órbita, e volte a adotar a geologia ativa – seja no presente ou no passado -, efetivamente atualizando o consenso científico e refletindo isso em livros de estudo.

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