É um veículo nascido da necessidade: o Maisanta YZR-106 é uma recauchutagem do Exército Bolivariano da Venezuela para o caça-tanques americano M50 Ontos.

Herança dos tempos do Vietnã

Um caça-tanques, conceito histórico geralmente baseado num tanque, é um veículo especializado em destruir tanques. Tinham armas e blindagem frontal mais potentes, ao custo de agilidade e proteção. Acabaram aposentados com os modernos tanques universais (MBTs) nos anos 1960.

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O Ontos não fez muito sucesso em seu papel original. Sua carreira durou pouco tempo, entre 1956 e 1969. Foi usado na Guerra do Vietnã, mas aposentado antes do fim dela. Nas florestas do Sudeste Asiático, não enfrentou seu inimigo planejado, tanques soviéticos, mas foi usado como uma peça de artilharia dando suporte à infantaria.

Verdade seja dita, o veículo original já tinha um visual bem estranho:

Tanque M50 Ontos
Tanque M50 Ontos no Vietnã (imagem: Exército dos EUA/domínio público)

O veículo acabou distribuído para aliados dos EUA – e a Venezuela foi um deles até o começo do governo Hugo Chávez, em 1999.

O que a Venezuela mudou no caça-tanques

Maisanta foi o apelido de Pedro Pérez Delgado (1881-1924), militar conhecido por se opor à ditadura do general Juan Vicente Gómez e uma das figuras celebradas pelo governo chavista.

O redesign venezuelano, além de adicionar controles eletrônicos mais modernos, usou da mira PSO-1 4×24 do fuzil sniper Dragunov. Criado na União Soviética, continua em uso pela Rússia, que é um dos poucos fornecedores de material bélico à Venezuela. Também possui um morteiro, para cortina de fumaça ou uso contra infantaria.

O Maisanta também mudou a distribuição dos mesmos canhões sem recuo do modelo americano para uma linha, mantendo a metralhadora central.

Maisanta YZR em demonstração (imagem: Ejército Bolivariano de Venezuela)

Ele mantém o ponto fraco do Ontos: os icônicos seis canhões sem recuo 106mm M40A1.

Um canhão sem recuo, ao disparar, parece lança-foguetes, mas funciona por outro princípio. O propelente, diferente de um foguete, não sai com o projétil. A aceleração fica toda na partida. Funciona como um canhão normal, mas o recuo da arma é contrabalançado pela emissão dos gases da explosão pela parte de trás da arma. A ideia é dar mais precisão, mas também permitir mais poder de fogo num veículo leve, ou com um soldado.

O problema do M40A1, tanto no Ontos quanto no Maisanta, é que não podem ser carregados dentro do veículo. Exigem que soldados do lado de fora façam isso. É uma enorme vulnerabilidade, mas não inviável no papel que a Venezuela pretende usá-los.

As razões para a mudança de orientação não foram reveladas, mas possivelmente têm a ver com a mudança de papel. De caça-tanques, passa a ser suporte de infantaria, então a distribuição em linha, menos precisa para destruir um alvo compacto, é menos importante que distribuir o fogo para dar suporte à infantaria.

Como explica o comandante venezuelano Johan Hernández Lárez:

O MAISANTA YZR-106. Não é um tanque, é um caça-tanque, permite cumprir com a tarefa de apoio direto por fogo às unidades de infantaria e engenharia nas operações noturnas, para: DESTRUIÇÃO DE EDIFÍCIOS, BUNKERS E CONTRA FRANCO-ATIRADORES EM OPERAÇÕES URBANAS

Doutrina militar modificada

O veículo improvisado faz sentido para a doutrina militar da Venezuela. Desde que suas forças armadas adotaram o termo “Bolivarianas”, com a constituição de 1999, é bem diferente da dos vizinhos, inclusive o Brasil.

Enquanto as forças desses são treinadas para contra-insurgência, para enfrentarem inimigos internos, as da Venezuela são para resistir a uma invasão. Não só americana, mas possivelmente também colombiana, já que os vizinhos se mantém aliados firmes dos EUA. Em tempos recentes, até do Brasil.

A ideia não é vencer na força bruta, mas causar danos ao ponto de fazer o inimigo desistir. Basicamente o que fizeram os vietcongues.

Reformar um caça-tanques obsoleto para outra função faz sentido quando a ideia é causar danos desproporcionais ao investimento. E a Venezuela, já faz um tempo, não está exatamente nadando em dinheiro.

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