A receita é: você pega um dos carros mais inseguros da história, um dos maiores escândalos da indústria automobilística, e junta ele com partes de avião. Um Ford Pinto voador. O que poderia dar errado?

Essa é a história do AVE Mizar um carro voador que de fato voou e devia ter estrelado em um filme de James Bond.

publicidade

Ingrediente 1: o carro mais infame da Ford

O Ford Pinto é um subcompacto lançado nos Estados Unidos em 1970, que parece um mini Ford Maverick. Foi bastante popular em seu país de origem, e chegaria a 3,1 milhão de unidades vendidas.

Não dá pra negar que é um carrinho até bem estiloso:

Ford Pinto 1972, que parece um mini Maverick, em exibição de automóveis
Ford Pinto 1972, em exibição de clássicos (Imagem: Vauxford/.Wikimedia Commons/CC)

O modelo foi cogitado para o Brasil, mas dificuldades em adaptar a linha de produção tornaram inviável ser feito aqui.

O nome teria que ser mudado, obviamente: ninguém quer sair pilotando um filhote de galinha. Em inglês, “pinto horse” é um cavalo malhado e essa é a referência. O termo deriva do espanhol, equivalente ao português “pintado”.

O que tornou o Ford Pinto infame não tem nada a ver com nome ou o modelo voador: foi seu tanque de gasolina. Sua posição atrás do eixo traseiro, imediatamente após o para-choque, podia levar a um incêndio catastrófico em colisões modestas. Um veículo atingindo o Ford Pinto por trás rompia o tanque e deixava o combustível em contato com o eixo quente, causando uma conflagração tão brutal que às vezes os ocupantes não tinham tempo de fugir.

Após múltiplos incidentes aparecendo na imprensa. A Ford acabou investigada pelas autoridades americanas em 1974. Em meio a isso, foi revelado um estudo da empresa que comparava o custo do recall com o custo em vidas humanas, concluindo que o recall seria mais caro que as vidas perdidas. Foi um dos maiores escândalos da história da indústria.

A Agência Nacional de Segurança de Trânsito Rodoviário (NHTSA) concluiu que 27 pessoas haviam morrido entre 1970 e 1977 por conta do sistema de combustível. No mesmo ano, engenheiros contactados pela revista Mother Jones trouxeram um número imensamente maior: entre 500 a 900 mortes, contestadas pela Ford.

Em 1978, enfim, o recall foi convocado, e o Pinto seria aposentado em 1980.

Ingrediente 2: asas de um Cessna

Enquanto o Pinto clamava suas primeiras vítimas, os engenheiros Henry Smolinski e Hal Blake tinham literalmente altos planos. Em 1971, fundaram a empresa Advanced Vehicle Engineers (AVE, “Engenheiros de Veículos Avançados”), para realizar sua visão.

O Ford Pinto pinto voador seria batizado de Mizar. Mizar (que em inglês é pronunciado “maizar”) é uma das estrelas da constelação de Ursa Maior. A ideia foi tirar a inspiração do espaço numa época em que voos à Lua ainda eram realizados pela Nasa.

A ideia era criar uma plataforma de voo removível que funcionasse com um carro. Uma extensão, presa no topo do veículo, que faria viagens entre aeroportos. Na chegada, a extensão seria removida e o veículo atuaria como um carro comum.

A ideia inicial era usar um bem mais glamuroso Pontiac Firebird. Mas simplesmente era pesado demais para funcionar. Caberia ao modesto Ford Pinto, que ainda não havia ganhado a fama de caixão ambulante, a honra de se tornar um carro voador.

Smolinski escolheu o modelo da Ford por causa de seu peso leve, de meros 1.030 kg. Quanto à extensão, seria baseada na estrutura do pequeno bimotor Cessna Skymaster. É basicamente as asas, os motores e a cauda sem o avião.

Cessna 337 (8735367365).jpg
Cessna Skymaster no ar nos dias de hoje (Imagem: Bomber Pilot/Wikimedia Commons/CC)

O Ford Pinto voador foi reequipado com cerca de 40 modificações. Todos os instrumentos de voo necessários foram montados no painel. Rodas de alumínio e pneus radiais, freios a disco, realocação do tanque de combustível e bateria eram outras configurações específicas para o projeto AVE Mizar. Mas ainda funcionava como um carro comum.

Tanto em terra quanto no ar, o AVE Mizar era operado por um conjunto de controles que transformava o volante em um manche completo. Girar o volante movia os ailerons para induzir a rotação. Já a coluna de direção acionava os profundores para controlar a orientação vertical, enquanto um par extra de pedais girava o leme.

interior do Ford Pinto
Imagem: Reprodução/Ford Performance

A suspensão traseira também foi reforçada para lidar com o peso adicional de toda a estrutura e motor montado na parte de trás do carro. Focando na redução do peso (e em alguns casos, no aumento da resistência para voar), algumas das peças originais de fábrica do Ford Pinto foram substituídas por componentes de fibra de vidro e alumínio.

O carro trazia um motor 1.6 litro Kent I-4 que trabalharia em conjunto com o motor Continental de 210 cv do Cessna.

Carro voador ao lado de um outro veículo
Imagem: Reprodução/Ford Performance

O Mizar decolava a 105 km/h , após uma curta corrida de 152 metros, combinando a propulsão do motor do carro com a da extensão aérea. Uma vez no ar, o motor do automóvel era desligado e o veículo voava velocidade de cruzeiro de 202 km/h. A intenção era viajar 1.600 km sem reabastecimento.

Expectativas nas nuvens

Em 8 de maio de 1973, o Mizar teria seu momento de glória. No Aeroporto Van Nuys, em Los Angeles, ele seria apresentado a uma embasbacada imprensa. E voaria: os testes seriam um sucesso, e muitos outros seriam feitos nos meses seguintes. Como com o próprio Ford Pinto, ninguém ainda estava ciente dos riscos no projeto.

Apenas dois modelos foram criados do Ford Pinto voador. Um deles foi exibido na Galpin Ford, considerada a concessionária Ford de maior volume do mundo. Com ele, o vídeo acima era apresentado.

A concessionária receberia 34 pré-encomendas do Ford Pinto voador. Não sairia barato: a expectativa era cobrar entre US$ 18.300 a US$ 29.000, dependendo das opções. Isso daria, calculando a inflação desde 1973, US$114.559 a US$ 181.542 (R$ 638.240 a R$1.011.524).

panfleto promocional do carro
Imagem: Reprodução/Ford Performance

Foi nesse estágio que o Mizar quase virou um astro. O mundo todo poderia ter conhecido o Ford Pinto voador nas telas do cinema, pilotado pelos inimigos do espião fictício mais famoso do mundo.

O carro voador estava elencado para voar em “007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro”, em uma cena onde o vilão Scaramanga e seu capanga Nick Nack voam para escapar de James Bond.

A cena foi feita, com óbvia inspiração no Mizar, mas sem ele. No lugar, foi usado o concorrente AMC Matador e a extensão é com um motor a jato. Não era funcional: a extensão é apenas cenográfica e o que aparece voando é só um modelo.

E as razões para isso vão ficar óbvias a seguir.

O fim trágico do Ford Pinto voador

O maior problema do AVE Mizar seria o peso, já que a fuselagem do Cessna Skymaster era voltada para uma carga máxima de decolagem de 2.100 kg, e ela mesma já pesava 1.270 kg vazia. Somando o peso do carro, tanque de combustível e pilotos, o conjunto sempre voou além do limite operacional.

Em 26 de agosto de 1973 veio o primeiro susto. Num teste no Aeroporto de Camarillo, o piloto de testes Charles Janisse decolou normalmente. Mas, logo no ar, o suporte direito das asas se soltou.

Janisse não tentou dar meia volta: ele sabia que, se tentasse fazer isso, as asas se soltariam e ele e o veículo se espatifariam no chão. No lugar disso, pousou numa plantação de feijões. Não houve danos: ele dirigiu o Ford Pinto voador, com a extensão em cima, de volta ao hangar.

veículo na pista, pronto para voar
Imagem: Reprodução/Ford Performance

O carro foi soldado novamente e, semanas depois, outro teste foi agendado. Em 11 de setembro de 1973, seria operado com o novo motor aéreo Lycoming de 300 cv, que, em tese, daria um resultado mais satisfatório.

Desta vez, pilotariam o avião os próprios criadores: Henry Smolinski nos controles e Hal Blake no banco do passageiro. Ao sair do chão, de novo sem problemas, a mesma coisa: o suporte direito das asas se soltou.

Mas Smolinski não era um piloto experiente como Janisse, um veterano do Vietnã. Ao notar o problema, fez o óbvio: tentou dar meia-volta e pousar no aeroporto.

Presas apenas pelo teto, sem o suporte extra, as asas se dobraram no ar. O Ford Pinto voador se desintegrou e foi ao solo as pedaços. Smolinski e Blake morreriam. Com eles, seria sepultado o projeto AVE Mizar.

Análises do Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos consideraram o AVE Mizar mal projetado, com sua fuselagem sobrecarregada. Além disso, foram descobertas soldas ruins (a causa imediata) e algumas peças estruturais soltas.

Já assistiu aos novos vídeos no YouTube do Olhar Digital? Inscreva-se no canal!