Embora a maioria das estrelas no universo estejam localizadas em galáxias, não é impossível que algumas delas possam vagar em meio ao espaço intergaláctico (as grandes distâncias que separam umas galáxias das outras). 

Pela primeira vez, astrônomos podem ter encontrado evidências da morte de uma dessas estrelas desgarradas solitárias. Não muito longe da nossa vizinha conhecida como Grande Nuvem de Magalhães, um misterioso círculo emanando ondas de rádio foi detectado pendurado no espaço. Ele recebeu o nome de J0624-6948. 

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J0624–6948, anel avistado no espaço intergaláctico, pode ser um remanescente de uma estrela desgarrada solitária que explodiu.
Imagem: Filipovic et al., MNRAS, 2022

Recentemente, cientistas ficaram admirados com vários misteriosos círculos espaciais emissores de rádio, chamados Odd Radio Circles (ORCs). Esses objetos foram avistados pela primeira vez usando um dos mais poderosos radiotelescópios do mundo, o Australian Square Kilometre Array Pathfinder (ASKAP). Os ORCs são enormes e distantes, com várias características definidoras, entre as quais uma galáxia no centro morto. 

Passado algum tempo desde as primeiras observações de ORCs, os cientistas agora acreditam que eles sejam resultado de um processo energético nessas galáxias centrais, embora a natureza precisa desse processo seja desconhecida. 

De acordo com o site ScienceAlert, é provável que os ORCs sejam na verdade esferas. A razão pela qual eles aparecem como anéis é por causa da perspectiva; ao redor das bordas, há uma maior densidade de emissão ao longo de nossa linha de visão. 

No círculo em roxo, o misterioso anel J0624-6948, cuja origem os cientistas acreditam ter descoberto.
Imagem: Filipovic et al., MNRAS, 2022

Para o astrônomo Miroslav Filipovic, da Universidade de Sydney Ocidental, na Austrália, o anel detectado nas proximidades da Grande Nuvem de Magalhães teria relação com essa descoberta anterior, a princípio. 

“Quando descobrimos originalmente esse objeto de rádio quase perfeitamente circular, pensamos que era mais um ORC. Mas depois de nossas observações adicionais, ficou claro que é muito mais provável que este objeto seja outra coisa”, disse o cientista, principal autor do artigo que detalha as descobertas no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. 

No entanto, Filipovic destaca que há algumas diferenças importantes entre J0624-6948 e ORCs. A falta de uma galáxia central em J0624-6948 é a primeira delas. Além disso, o índice espectral da emissão de rádio no objeto recém-identificado é mais suave que o dos ORCs, e o tamanho aparente de J0624-6948 também é maior. 

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Anel misterioso pode ser primeiro remanescente de supernova já identificado no espaço intergaláctico

Filipovic e sua equipe consideraram uma série de possibilidades que podem resultar em um objeto que se assemelha a suas observações, como um ORC muito maior, um supersinalizador originário de uma estrela perto do centro galáctico ou mesmo jatos de um distante buraco negro ativo supermassivo. No fim, um cenário se destacou como o mais consistente com o fenômeno observado. 

“A explicação mais plausível é que o objeto é um remanescente de supernova intergaláctica resultante de uma estrela que residia nos arredores da Grande Nuvem de Magalhães, que se transformou em uma supernova degenerada tipo Ia, que envolve a explosão de duas estrelas orbitando uma à outra”, explica Filipovic. “O que potencialmente descobrimos é um remanescente único de uma supernova que se expandiu para um ambiente rarefeito e intergaláctico – um ambiente onde não esperávamos encontrar em tal objeto. Nossas estimativas apontam para uma idade entre 2,2 mil e 7,1 mil anos”. 

Se a equipe de Filipovic estiver certa, J0624-6948 seria o primeiro remanescente de supernova intergaláctico já identificado – uma esfera de ejeção de matéria em expansão para fora. De acordo com as medições dos cientistas, uma associação com a Grande Nuvem de Magalhães faria esse objeto ter em torno de 155 anos-luz de diâmetro. 

Filipovic diz que análises subsequentes podem ajudar a resolver essas incertezas. Além disso, mais observações com instrumentos como ASKAP e o radiotelescópio sul-africano MeerKAT poderiam ajudar a identificar círculos de rádio mais peculiares no céu, fornecendo mais sinais sobre o que eles realmente são. 

“Esses novos radiotelescópios podem captar uma série de objetos esféricos”, disse Filipovic. “Devido aos efeitos combinados de alta sensibilidade, boa amostragem espacial e ampla cobertura de área, eles estão enriquecendo nossa compreensão do Universo”. 

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