Na constante busca por vida em outros planetas, os pesquisadores, geralmente, procuram por sinais conhecidos como bioassinaturas, como gases liberados nas atmosferas que seriam produzidos por qualquer tipo de organismo vivo (sendo o metano um exemplo disso).

No entanto, as detecções potenciais de bioassinaturas em exoplanetas (planetas fora do Sistema Solar) podem ser ambíguas, com alto potencial de falsos positivos: processos planetários abióticos (ou seja, não causados por nenhuma forma de vida) que produzem observáveis semelhantes aos esperados de uma biosfera global (sendo o metano, mais uma vez, um exemplo perfeito).

Gases liberados pelos brócolis e outras plantas, além de microganismos, podem ser mais eficazes na detecção de existência de vida exoplanetária do que outros, como o metano, segundo estudo. Imagem: biplane_desire – Shutterstock

Pensando nisso, um grupo de cientistas desenvolveu um estudo, publicado esta semana no Astrophysical Journal, que propõe o uso de uma classe de gases metilados como bioassinaturas corroborativas – isto é, que possam servir como “prova dos nove”. 

Esses gases metilados são produtos metabólicos que podem ser menos imediatamente detectáveis, mas que têm substancialmente menor potencial falso-positivo, podendo, portanto, servir como confirmação para uma bioassinatura primária.

publicidade

Segundo esse estudo, os brócolis, juntamente com muitas outras plantas e microrganismos, emitem gases para ajudá-los a expelir toxinas. Os cientistas acreditam que esses gases poderiam fornecer evidências convincentes de vida em outros planetas.

Esses tipos de gases são feitos quando organismos adicionam um carbono e três átomos de hidrogênio a um elemento químico indesejável. Esse processo, chamado de metilação (por isso, gases metilados), pode transformar toxinas potenciais em gases que flutuam com segurança para a atmosfera. Se esses elementos fossem detectados na atmosfera de outro planeta, eles seriam, indubitavelmente, indicativos de vida.

“A metilação é tão difundida na Terra, que esperamos que a vida em qualquer outro lugar também a realize”, disse a autora principal do artigo, Michaela Leung, astrobióloga da Universidade da Califórnia-Riverside (UCR). “A maioria das células tem mecanismos para expulsar substâncias nocivas”.

Concepção artística de um sistema cuja estrela hospedeira é uma anã marrom, onde o brometo de metila é mais provável de ser detectado. Imagem: SpaceDaily

De acordo com a pesquisa liderada por Leung, um gás metilado chamado brometo de metila, que é liberado pelo brócolis, tem várias vantagens sobre outros gases tradicionalmente visados na busca de vida fora do nosso Sistema Solar. 

A primeira delas é que ele permanece pouco tempo na atmosfera. “Se você encontrá-lo, o que quer que o tenha produzido ainda está liberando”, disse Leung.

Outra vantagem é que o brometo de metila é mais provável que tenha sido feito por algo vivo do que um gás como o metano, que pode ser liberado por micróbios mas, também, pode ser produto de um vulcão ou outro processo geológico. “Há maneiras limitadas de criar brometo de metila por meios não biológicos, por isso é mais indicativo da vida se você encontrá-lo”, disse a cientista ao site SpaceDaily.

Além disso, esse gás absorve a luz quando perto de cloreto de metila, uma bioassinatura “primária”, o que torna ambos (e a presença de vida) mais fáceis de serem detectados.

Embora o brometo de metila seja extremamente comum na Terra, não é algo facilmente identificável em nossa atmosfera devido à intensidade dos raios ultravioletas do nosso Sol. A radiação UV inicia reações químicas que quebram moléculas de água na atmosfera, dividindo-as em produtos que destroem o gás.

No entanto, o estudo determinou que o brometo de metila seria mais facilmente detectável em planetas que orbitam em torno de uma estrela do tipo anã marrom do que no nosso Sistema Solar ou qualquer outro parecido. 

Isso porque as anãs M são menores e mais frias que o Sol, produzindo menos do tipo de radiação UV que leva ao rompimento da água. “Uma estrela hospedeira anã marrom aumenta a concentração e a detectabilidade do brometo de metila em quatro ordens de magnitude em comparação com o sol”, disse Leung.

Leia mais:

Essa é uma vantagem para os astrônomos, porque as anãs M são mais de 10 vezes mais comuns que estrelas como o nosso Sol e serão os primeiros alvos nas próximas buscas por vida em exoplanetas.

Por essas razões, os pesquisadores estão otimistas de que os astrobiólogos começarão a considerar brometo de metila em missões futuras e em seu planejamento para as capacidades dos telescópios programados para serem lançados nas próximas décadas.

Já assistiu aos novos vídeos no YouTube do Olhar Digital? Inscreva-se no canal!