Se você acha que “luzes misteriosas” no céu são fenômenos recentes na história da humanidade, achou errado! Há 450 anos, uma luz misteriosa foi vista e relatada por várias pessoas em todo o mundo. Entre estes observadores, estava o famoso astrônomo dinamarquês Tycho Brahe.

Tycho Brahe está entre os mais renomados astrônomos do início da Renascença. Ele possuía um observatório na Ilha de Ven, entre a Dinamarca e a Suécia, e estava a serviço do Rei Frederico II, da Dinamarca. Era um observador assíduo dos astros e reuniu, ao longo de sua vida, os dados observacionais que ajudaram Johannes Kepler a compreender as leis que regem o movimento planetário.
Então, numa bela noite de 11 de novembro de 1572, durante suas observações diárias, Tycho percebeu uma luz desconhecida na direção da Constelação de Cassiopeia. Parecia uma estrela muito brilhante, mas Tycho conhecia o céu como ninguém, e sabia que ela não estava lá antes. Teria ele presenciado, pela primeira vez, a visita de seres extraterrestres à Terra? Não dessa vez.

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Por algum tempo, Tycho e todos os astrônomos de sua época, acreditavam que estavam presenciando o nascimento de uma nova estrela. Tanto que em suas anotações, ele rotulou aquele astro celeste como “Nova Stella”. Mas o que eles estavam tendo a oportunidade de contemplar, na verdade, era justamente o oposto, a violenta morte de uma estrela. Algo que, mais tarde, seria chamado pelos astrônomos de “supernova”.

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)Retrato de Tycho Brahe, por Eduard Ender Imagem: Wikimedia)

A história dessa supernova

Por todo mundo, o surgimento dessa estrela acabou gerando todo tipo de problema. Na China, da dinastia Ming, a nova estrela foi interpretada pelos astrólogos como um sinal de mal presságio, e o jovem imperador Wanli foi alertado sobre seu “mal comportamento” o que acabou gerando um certo desconforto com seu secretário Senior, Zhang Juzheng. Não consigo imaginar o que poderia ser “mal comportamento” para um imperador com apenas 8 anos de idade. Talvez algo como “não escovar os dentes antes de dormir” ou algo assim…

Outra que também foi se consultar com seu astrólogo, temendo as implicações dessa nova estrela, foi a Rainha Elizabeth, da Inglaterra. Isso mesmo. A Elizabeth já era rainha em 1572. Mas não era aquela Rainha Elizabeth II que faleceu há pouco tempo, e sim a Elizabeth I, nascida no século XVI e que viveu apenas 70 anos.

Agora, focado na ciência e longe de qualquer superstição, Tycho Brahe trabalhou incansavelmente na observação e no registro dessa estrela por várias noites ao longo de um ano e meio. Inicialmente, ela brilhava quase tão intensamente quanto o Planeta Vênus, mas à medida que foi passando o tempo, Tycho percebeu que seu brilho diminuía. Até que em março de 1574 ela desapareceu completamente.

Comparando suas observações e as do espanhol Jerónimo Muñoz, Tycho concluiu que não havia paralaxe evidente entre as duas, e isso indicava que aquele objeto estava bem mais distante que a Lua.

O aparecimento da Supernova de 1572, também chamada de “Supernova de Tycho” ou simplesmente SN1572, foi um dos mais importantes eventos observáveis da história da Astronomia. A partir dele, ocorreu uma verdadeira revolução nesta ciência. O firmamento, que era tido como imutável, agora tinha uma nova estrela. Logo, se quiséssemos perceber novas estrelas nascendo, precisaríamos produzir melhores catálogos estelares com suas posições aferidas a partir de instrumentos mais precisos.

(Mapa da constelação da Cassiopeia desenhado por Tycho Brahe, com a SN1752 rotulada com a letra “I” e referenciada como “nova stella” – Fonte: wikimedia.org)

Hoje sabemos que a SN1572 é uma supernova do tipo Ia, que ocorre em um sistema binário onde pelo menos uma das estrelas é uma anã branca. Essas duas estrelas orbitam muito próximas uma da outra e a anã branca pode roubar massa da sua companheira ou simplesmente se fundir completamente com ela. O resultado desse processo é uma reação descontrolada, que libera uma energia descomunal na forma de uma explosão de supernova.

Muito tempo depois das pioneiras observações da Supernova de Tycho, o telescópio espacial Chandra, revisitou o local e fez imagens em Raio-X da nebulosa remanescente daquela supernova. As imagens são impressionantes e mostra prováveis restos mortais da anã branca e de sua companheira, além da enorme quantidade de poeira expelida pela explosão.

São explosões de supernova como essas que geram grande parte dos elementos mais pesados da nossa tabela periódica. E muitos desses elementos estão presentes em planetas como o nosso e em seres vivos como nós. Por isso dizemos que somos feitos de poeira de estrelas, das cinzas fúnebres de estrelas que explodiram em uma supernova, como aquela observada por Tycho Brahe, há 450 anos.

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