Você costuma ter pesadelos e acordar, repentinamente, assustado? Será que isso é uma capacidade exclusiva dos seres humanos? Ao que parece, alguns animais também podem sonhar – inclusive, de forma perturbadora. E não estamos falando de cachorros nem gatos, frequentes objetos de estudos nesse sentido, mas, sim, de um bicho bem inusitado: o polvo.

Há cerca de dois anos, um grupo de cientistas dos EUA observou um desses curiosos invertebrados marinhos, que foi batizado por eles de Costello. Esse polvo apresentou um comportamento parecido com o que costumamos ter ao despertar de um sonho ruim, em experimentos realizados em laboratório em Nova York ao longo de um mês, em 2021.

Todo o processo foi registrado em vídeos, que mostram o polvo parecendo acordar de um sono reparador e se debater, em uma reação sugestiva de que o animal estivesse sofrendo de algum tipo de distúrbio do sono.

Cientistas identificaram padrão de dois estágios do sono no polvo

Na época, os pesquisadores publicaram um artigo na revista Science Direct, documentando o que seriam evidências de um padrão de sono de dois estágios nos polvos, classificados como “ativo” e “tranquilo”.

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Esse padrão é semelhante a como os humanos oscilam entre o sono com movimento rápido dos olhos (REM) – fase em que ocorrem os sonhos – e o sem movimentos oculares súbitos (NREM) a cada noite. 

Análise do movimento dos olhos do polvo Costello levou os pesquisadores a determinar um padrão de sono semelhante ao dos seres humanos. Crédito: Magnasco, M., Ramos, E. et al

O resultado levou os cientistas a se questionarem se os polvos também podem sonhar durante o estágio de sono “ativo”, algo inconclusivo naquele artigo, necessitando de investigações adicionais.

Isso porque existem algumas outras possíveis explicações para o animal ter agido da maneira observada. “Apesar de todos os estudos já feitos sobre polvos e outros cefalópodes, ainda há muito que não sabemos”, disse Eric Angel Ramos, pesquisador de pós-doutorado da Universidade de Vermont que ajudou a gravar os quatro vídeos de Costello.

Neles, o polvo aparece posicionado calmamente em um tanque antes de subitamente começar a balançar seus tentáculos de forma frenética. Em dois desses episódios, Costello também disparou um jato de tinta preta na água, mecanismo comum de defesa desses animais contra predadores.

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Em uma atualização das investigações, relatada em um artigo ainda não revisado por pares, disponibilizado este mês no servidor de pré-impressão bioRxiv, os autores especulam outras justificativas para o comportamento de Costello naquelas situações às quais foi exposto.

Segundo eles, “o animal pode estar respondendo a uma memória episódica negativa ou exibindo uma forma de parassonia”, ou seja, um distúrbio do sono. 

Uma cientista que não esteve envolvida na pesquisa expressou cautela ao interpretar as ações do polvo como sonhos. “Não sabemos o suficiente sobre a neurociência do sono em cefalópodes para dizer se eles sonham, muito menos têm pesadelos, disse Robyn Crook, neurobióloga comparada da Universidade Estadual de São Francisco, ao site Live Science. “E mesmo que os polvos sonhem, eles podem sonhar de uma maneira completamente diferente do que os humanos”

Segundo ela, isso não é algo que se pode responder objetivamente. “É uma questão muito filosófica”, disse a especialista, enumerando outras possíveis interpretações para o comportamento de Costello.

“Ele pode ter sido surpreendido por algo, como também pode estar exibindo sinais de senescência”, propõe. 

Crook apontou que os movimentos dos tentáculos de Costello pareciam mais evidências de falta de coordenação motora, algo que é associado à fase final da vida dos polvos, do que um comportamento anti-predador.

De fato, os Octopus insularis, espécie a que Costello pertencia, vivem por cerca de 12 a 18 meses – e ele morreu pouco tempo depois dos registros.

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