E os cortes de pessoal nas empresas de tecnologia seguem a todo vapor. Na terça-feira (6), a companhia que anunciou demissões foi a DocuSign, que aumentou seu pacote de dispensa após demitir dezenas de milhares no fim de 2022 e anos de crescimento.

A DocuSign informou ter demitido mais 6% (400 empregos) de sua força de trabalho, enquanto aparenta cortar custos e reverter os preços de suas ações, que enfrentam problemas.

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A confirmação ocorreu um dia após a Snap, dona do Snapchat, informar a demissão de 10% de seus empregados para focar em voltar a crescer.

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Já na semana passada, a Okta, empresa de softwares de identificação, indicou o corte de 400 postos de trabalho, cerca de 7% de sua massa laboral. Antes, Zoom, Google, Amazon e outras gigantes da tecnologia seguiram o mesmo caminho, lembra o The Wall Street Journal.

Trabalho enxuto e eficiente é a chave

  • Especialistas em gestão dizem que a enorme quantidade de demissões no setor de tecnologia reflete, em maioria, os esforços das empresas para operar de forma mais enxuta e eficiente;
  • Elas esperam que novas ferramentas de IA as ajudem a atingir esses objetivos, embora lentamente, já que ainda tentam determinar quais os empregos que essas tecnologias podem substituir ou minimizar;
  • “O maior combustível é a automação”, disse Anna A. Tavis, professora clínica de gestão de capital humano na Universidade de Nova York;
  • As empresas estão dizendo a si mesmas: “vamos rasgar o curativo. Quanto antes fizermos isso, melhor”, pontuou.

Balanço de demissões em janeiro

O setor de tecnologia cortou quase 16 mil empregou no mês passado, recorde desde maio do ano passado, segundo a companhia de recolocação Challenger, Gray & Christmas, além de ter ficado atrás somente do setor financeiro neste período.

Amazon, Google, cortes de pessoal e futuro

Na terça (6), a Amazon revelou cortes que afetarão centenas de funcionários em seus negócios relacionados a saúde e na One Medical, serviço primário de cuidados pessoais e saúde adquirido pela empresa de Jeff Bezos no ano passado.

No mesmo dia, Neil Lindsay, vice-presidente sênior de serviços de saúde da Amazon, informou aos funcionários da empresa que a companhia “identificou áreas onde podemos reposicionar recursos” e pode resultar em algumas centenas de cortes de postos empregatícios, de acordo com memorando visto pelo The Journal.

A gigante do e-commerce vem reduzindo postos nas divisões de entretenimento, dispositivos e jogos, alegando mudanças de prioridades em seus negócios com IA. Em julho do ano passado, 80 pessoas foram desligadas de sua unidade farmacêutica.

Por sua vez, a Alphabet, dona do Google, cortou 12 mil empregos em 2023, no que foi uma de suas maiores demissões de todos os tempos. Nas últimas semanas, outras centenas de funcionários foram dispensados, enquanto se concentra na IA.

Temos objetivos ambiciosos e investiremos nas nossas grandes prioridades este ano. A realidade é que, para criar capacidade para este investimento, temos de fazer escolhas difíceis.

Sundar Pichai, presidente-executivo da Alphabet, em nota aos funcionários enviada no mês passado

Pichai afirmou que os cortes deste ano serão na mesma medida de 2023, mas que, possivelmente, continuarão neste ano.

IA vs. postos de trabalho de humanos

Algumas empresas vêm gastando mais para desenvolver suas próprias IAs. Outras, no entanto, focam nos benefícios da tecnologia para ajudar, ou, até mesmo, substituir trabalhadores humanos.

Um exemplo é o Duolingo, que provê ensino de idiomas via app. A empresa afirmou ter cortado 10% de sua força de trabalho em janeiro, além de que vai usar a IA para lidar com a criação de certos conteúdos em sua plataforma.

Tais transições, todavia, não se restringem ao setor de tecnologia, como a UPS mostra. A empresa de entregas afirmou que cortará 12 mil postos de trabalho ante desaceleração do transporte marítimo, e os empregos não deverão ser repostos mesmo quando os negócios melhorarem.

A companhia vem usando aprendizado de máquina (machine learning) para auxiliar na hora de determinar o valor cobrado de seus clientes, o que resultou na dispensa de pessoal em seu departamento de preços.

Inchaço no setor

O inchaço no setor alimentado pelas necessidades advindas da pandemia de Covid-19, que começou em meados de março de 2020, que se deram às baixas taxas de juros da época, combinado com maior permanência de pessoas em seus empregos, causa esta onda de demissões, que se tornaram comuns, de acordo com especialistas em gestão.

Após as inúmeras contratações e aumentos salariais na pandemia, “os trabalhadores estão sendo chicoteados”, afirmou Rocki-Lee DeWitt, professor de gestão na Grossman School of Business da Universidade de Vermont.

Além disso, as companhias sofrem pressão para corresponder às expectativas de analistas, sendo que as demissões podem fomentar o aumento de suas ações. “Tal previsão impede que você atenda às expectativas. Se você falhar ou der orientação para baixo, você será ‘espancado'”, prosseguiu.

Voltando às demissões da Okta, seu presidente-executivo, Todd McKinnon, afirmou, no anúncio das demissões, que a empresa contratou em excesso baseado nas projeções de crescimento infrutíferas. “Precisamos administrar o negócio com maior eficiência”, apontou, em memorando dedicado aos funcionários.

No setor dos videogames, a Riot Games, que pertence à chinesa Tencent Holdings, demitiu, em janeiro, 11% de seus empregados (530 deles) no mundo todo, pois estava tentando fazer demais.

Nossos custos cresceram a ponto de se tornarem insustentáveis e não nos deixamos espaço para experimentação ou fracasso – é vital para uma empresa criativa como a nossa.

Riot Games, em memorando aos funcionários postado em seu site

Outras demissões, contudo, ocorrem por fatores mais comuns, como fusão ou perda de negócios. No mês passado, por exemplo, a Microsoft anunciou a demissão de cerca de 8% (1,9 mil funcionários) de sua equipe de videogames, muito por conta da confirmação da aquisição da produtora Activision Blizzard, em outubro passado.

Já a iRobot, que fabrica aspiradores robóticos, começou a demitir 350 pessoas, o que representa 31% de sua força laboral, após acordo de aquisição pela Amazon ter fracassado.

O eBay, por sua vez, indicou a demissão de cerca de mil funcionários (9% de sua força de trabalho), como parte dos esforços para melhorar o desempenho dada a concorrência e a redução dos gastos dos consumidores.

“As empresas antecipam o fato de que a economia não estará necessariamente em expansão”, disse Denis Machuel, executivo-chefe da empresa global de recrutamento Adecco Group, que trabalha com grandes empregadores.

Apesar dos cortes de executivos em gigantes podem não ser tantos quanto em 2023, há, ainda, “nível bastante elevado de despendimento”, indicou Machuel.

E o futuro dos empregados em tecnologia?

Hoje, pode-se dizer que as perspectivas de emprego para quem atua na área de tecnologia são sombrias. Segundo Tom Wilson, diretor-administrativo da Gallagher Executive Search, a demanda pelas habilidades desses profissionais continua a crescer fora do setor, em áreas, como produtos de consumo e manufatura.

Consideremos como agora existe Bluetooth em escovas de dentes e GPSs em tratores, afirmou, acrescentando que a procura por profissionais de recursos humanos que compreendam o recrutamento tecnológico também está aumentando.