Anteriormente, o Olhar Digital já falou do “Desafio do Vesúvio”, no qual pesquisadores do mundo todo são desafiados a decifrar pergaminhos e outros escritos encontrados na região de Pompeia (Itália). Falamos, à época, de um pergaminho ilegível que a inteligência artificial (IA) conseguiu decifrar.

Desta vez, conforme o Nexo Jornal, mais uma vez, a IA foi capaz de decifrar parte de outro papiro de dois mil anos carbonizado pela erupção fatal do monte Vesúvio (Itália), que arrasou a cidade de Pompeia.

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Assim como os pergaminhos que citamos no passado, “apesar de armazenados há décadas em museus na Itália, eles haviam sido dados como perdidos”, disse Odemir Bruno, cientista da computação do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP), integrante de uma das equipes vencedoras do “Desafio do Vesúvio”.

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A premiação foi realizada em 16 de março, na Villa Getty, em Los Angeles (EUA). Esse museu recria mansão do Império Romano onde os papiros foram achados. Na cerimônia, três dos brasileiros premiados compareceram; Bruno não pôde ir.

Papiros parcialmente decifrados pela IA

  • Os papiros foram desenterrados em 1750, em Herculano (Itália), por um fazendeiro que cavava um poço;
  • Ele achou a mansão que teria pertencido a Lúcio Calpúrnio Pisão Cesonino (? – 43 a.C.), sogro do imperador Júlio César (100 a.C. – 44 a.C.);
  • As cinzas que arrasaram a região preservaram, até o que sabe por ora, mais de 600 rolos de papiro, que, se tivessem sido expostos ao ar, teriam se desfeito;
  • “Achava-se que não restava nada escrito neles, as tentativas anteriores destruíram o material”, afirmou Bruno;
  • Por isso, era necessário pensar em uma técnica nova para abrir os pergaminhos sem desintegrá-los;
  • A ideia que conseguiu fazer isso veio do cientista da computação estadunidense Brent Seales, da Universidade do Kentucky (EUA), que consiste em digitalizar o conteúdo via tomografia de raios-x;
  • Dessa forma, em 2023, começou o “Desafio do Vesúvio”, criado pelos investidores estadunidenses Nat Friedman e Daniel Gross, em parceria com Seales e custeado por vários financiadores, especialmente a Fundação Musk, do bilionário Elon Musk, dono de Tesla, SpaceX, X e mais;
  • Foi proposto investigar um dos quatro rolos digitalizados no acelerador de partículas Diamond, localizado no Reino Unido.
Villa Getty (Imagem: Arellano915/Shutterstock)

A partir da tomografia, várias imagens são geradas e, quando empilhadas, criam versão tridimensional. “A técnica para desenrolar estava desenvolvida, mas continuava tudo preto”, contou o cientista brasileiro. O que isso significa? Que era impossível enxergar qualquer coisa no material digitalizado.

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Eles se perguntaram se haveria algum resto de tinta identificável no papiro, mas para confirmarem (ou não), precisaram recorrer à IA. “Uma comunidade global de competidores e colaboradores se uniu para desvendar o problema com visão computacional, aprendizado de máquina e trabalho duro”, informa o site do “Desafio do Vesúvio”.

A primeira parte foi identificar uma simples letra, conseguida pelo físico australiano Casey Handmer. Ao analisar as imagens, ele encontrou padrões craquelados que se pareciam com letras.

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Já na parte final devia-se ler um dos quatro pergaminhos digitalizados, quatro trechos com ao menos 140 caracteres, reconhecendo pelo menos 85% do todo. O objetivo foi conquistado por quatro equipes.

No primeiro lugar, ficou a de um doutorando em bio-robótica egípcio, um estudante de engenharia estadunidense e um de robótica da Suíça. Eles receberam US$ 700 mil (R$ 3,51 milhões, na conversão direta) como premiação.

Logo atrás, vieram as demais três equipes ganhadoras, que receberam US$ 50 mil (R$ 250,76 mil) cada. Uma delas é brasileira, liderada por ELian Rafael Dal Prá, físico computacional e estudante de iniciação científica. Ainda é integrante o pesquisador em estágio de pós-doutorado Leonardo Scabini, ambos do grupo de Bruno.

Bruno contou que “Dal Prá leu sobre o prêmio e trouxe a ideia para nosso grupo, então, resolvemos mudar seu projeto”. Ele ainda afirmou que a forma criativa de abordar um enigma científico foi um sucesso, atraiu jovens e divulgou o assunto.

E o papiro? O que tem a “dizer”?

Até o momento, a equipe pós-computacional, formada por historiadores e papirólogos, conseguiram identificar que o texto está escrito em grego, com base na filosofia de Epicuro, na qual o prazer tem importância central.

Por ora, 5% do total dele foram decifrados. Nesse resquício, o autor, que se supõe ser Filodemo, aprendiz de Epicuro, que seria filósofo residente na mansão, se questiona como a disponibilidade de bens afeta o prazer que proporcionam:

Como é o caso com respeito à comida, não pensamos de imediato que as coisas escassas sejam absolutamente mais prazerosas do que aquelas que são abundantes.

Filodemo, no papiro recuperado digitalmente

Dal Prá começou o mestrado este ano e pretende seguir com o trabalho. “Não necessariamente para ganhar o próximo prêmio, mas queremos estudar quais avanços podem ser atingidos pelos códigos desenvolvidos no contexto do desafio”, detalhou bruno.

Para a união entre as equipes, visando descobrir cada vez mais sobre os papiros, o GitHub é vital, informou o cientista. “A comparação entre os quatro métodos premiados pode gerar conhecimento sobre estratégias computacionais que sejam úteis também para resolver outros problemas.”

Para 2024, o desafio é chegar a incríveis 90% de leitura dos quatro rolos digitalizados até o momento. Vamos ver qual será o resultado.