No processo antitruste do Departamento de Justiça (DOJ) dos EUA contra a Apple, uma declaração no mínimo controversa do órgão se destacou: a questão da segurança e privacidade.

Segundo a empresa da maçã, se o DOJ der prosseguimento ao caso, quem sofrerá são os usuários da companhia, especialmente que tem iPhone, pois seus dispositivos passariam a ser menos seguros, enquanto o DOJ segue afirmando que os recursos de privacidade da Apple, dos quais a empresa se orgulha tanto, seriam ilusões.

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Conforme o The Verge, o órgão afirma que a Apple “se envolve em manto de privacidade, segurança e preferências do consumidor para justificar seu comportamento anticompetitivo”.

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Em conferência de imprensa para anunciar o processo, o procurador-geral adjunto, Jonathan Kanter, afirmou que as escolhas da Apple deixaram seu sistema operacional “menos privado e menos seguro”.

A Apple compromete seletivamente os interesses de privacidade e segurança quando isso é do próprio interesse financeiro da Apple, como degradar a segurança das mensagens de texto, oferecer aos governos e certas empresas a chance de acessar versões mais privadas e seguras das lojas de aplicativos ou aceitar bilhões de dólares por ano por escolher o Google como seu mecanismo de pesquisa padrão, quando opções mais privadas estão disponíveis.

Jonathan Kante, procurador-geral adjunto, em conferência de imprensa

Privacidade do usuário da Apple colocada em xeque

  • A questão de privacidade para a Apple é, em tese, algo vital para a empresa (ao menos para sua campanha de markting), questão que cai por terra com a declaração do DOJ;
  • No processo da Epic contra a Apple, o juiz considerou que a privacidade do usuário e a segurança do dispositivo eram razões consideráveis por trás de certas medidas restritivas (e muito lucrativas) da App Store;
  • Porta-vozes da empresa da maçã se mostraram indignados com a afirmação do DOJ e afirmaram que o processo antitruste só afetará aos seus usuários;
  • A “ofensiva” do DOJ a um dos principais carros-chefe de marketing da marca baseia-se na amplitude de seu conceito-geral de privacidade do usuário, indo além da revisão da App Store para demonstrar seu ponto;
  • Na denúncia, o órgão enfatiza que, enquanto a troca de mensagens pelo iMessages têm criptografia, o sistema de SMS (as mensagens de texto clássicas) não possuem essa segurança.

“A Apple obriga outras plataformas a usar mensagens SMS. Ela não permite que eles se integrem ao iMessage ou a outra plataforma de mensagens criptografadas integrada”, disse Cliff Steinhauer, diretor de segurança da informação e engajamento da National Cybersecurity Alliance, ao The Verge.

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app store
Imagem: Tada Images/Shutterstock

Há algum tempo, a Apple informou que seus dispositivos passariam a suportar o protocolo de mensagens RCS, mais seguro e que tornará as comunicações com dispositivos Android criptografadas ainda em 2024.

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O problema, porém, surge quando se fala da App Store, pois, ao retirar da Apple a capacidade de vetar o que é carregado em sua loja de aplicativos, isso poderia “abrir a porta para aplicativos feitos na China e na Rússia, e outros adversários, se quiser”, disse um membro do Congresso dos EUA.

Por sua vez, o procurador-geral Merrick Garland afirmou que o objetivo do processo é limitar a “conduta excludente” na App Store, e não reduzir a capacidade de analisar os apps enviados à loja de aplicativos.

O processo pede, especificamente, que a Apple seja impedida ‘”de usar seu controle de distribuição de apps para minar tecnologias multiplataforma, como superaplicativos e aplicativos de streaming em nuvem”.

Só que, superaplicativos, como o WeChat, são basicamente uma loja de aplicativos própria. Já o DOJ entende que isso tem menos a ver com privacidade do que com concorrência.

O processo possui, como base, uma apresentação do conselho de administração da empresa, na qual ela descreveu superaplicativos, como o WeChat, como “grande vento contrário” para impulsionar vendas de iPhone no exterior.

Só que especialistas em segurança pontuam que a App Store é mais segura que as do Android.

Nossos dados de milhões de varreduras de dispositivos em dispositivos iOS e Android em todo o mundo sugerem que lojas de aplicativos abertas levam a mais atividades maliciosas do que ecossistemas fechados. Portanto, embora abrir lojas de aplicativos para terceiros possa ser bom para a concorrência, provavelmente aumentará a atividade maliciosa também.

Danny Rogers, CEO da empresa de segurança cibernética iVerify, em entrevista ao The Verge

Rogers informa que a atividade maliciosa vaidesde o comprometimento no nível do sistema operacional até a presença de spywares. “Vemos quase 100 vezes mais frequência de problemas de segurança aparecendo no Android em comparação com o iOS”, disse Rogers, apesar de terem realizado mais varreduras no iOS do que no Android.

Já Daniel Kahn Gillmor, tecnólogo sênior do projeto de discurso, privacidade e tecnologia da União Americana pelas Liberdades Civis, afirmou que a taxa mais alta de malware em dispositivos com Android pode ter relação com o fato de os telefones terem “vida útil muito mais longa” que iPhones.

Você vai encontrar mais vulnerabilidades nesses dispositivos Android antigos e desatualizados simplesmente porque eles estão lá fora e estão à venda. A Apple fez bom trabalho em manter seu processo de atualização regular – e também em desativar iPhones antigos. Eles vão te dizer: ‘Essa coisa não é mais boa, você tem que comprar uma nova. Não podemos apoiá-lo’.

Daniel Kahn Gillmor, tecnólogo sênior do projeto de discurso, privacidade e tecnologia da União Americana pelas Liberdades Civis, em entrevista ao The Verge

Gillmor concorda que uma loja de apps “com controles muito mais frouxos” poderia levar a “lixo mais invasivo e infeccioso sendo empurrado para os telefones das pessoas. Mas esse risco vale a pena, porque significa que também permitimos softwares que a Apple pode reprovar, por quaisquer que sejam suas razões políticas.”

O tecnólogo prosseguiu, rememorando o banimento, pela Apple, do jogo “Phone Story”, que satirizava o processo de fabricação da empresa, da App Store, em 2011. Ainda, um app que rastreia ataques de drones dos EUA foi rejeitado seis vezes, até que ele fosse aprovado para integrar a App Store.

Google Play App Store
Especialistas confirmam que App Store é mais segura que Play Store (Imagem: Koshiro K/Shutterstock)

É inquestionável que a Apple exerce controle rígido sobre seu ecossistema do que é necessário para ter um ecossistema de software saudável. Até mesmo os computadores da Apple permitem que você instale software de qualquer pessoa que você quiser.

Daniel Kahn Gillmor, tecnólogo sênior do projeto de discurso, privacidade e tecnologia da União Americana pelas Liberdades Civis, em entrevista ao The Verge

Como pontua o The Verge, é cedo demais para dizer como a privacidade de donos de iPhone, iPad e Macs será afetada, até porque ainda não se sabe o que o DOJ quer no lugar se vencer, muito menos o que receberá de fato, claro, se vencer. “Há tantas peças diferentes disso”, disse Steinhauer. “Não vejo como eles poderiam ganhar todos ou perder todos.”