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Dentro de poucos dias, a humanidade pode dar um passo importante rumo ao espaço profundo. O destino não é desconhecido, mas faz mais de meio século que não recebe a nossa visita: a Lua. A NASA planeja lançar a missão Artemis 2 em uma janela que se abre em 6 de fevereiro, embora o cronograma ainda dependa de um teste crucial previsto para o dia 2.
A missão Artemis 2 ainda não pousará na Lua. Esse marco ficará para a missão Artemis 3, planejada para ocorrer em 2028. O objetivo desta vez será realizar um voo ao redor do astro, validando sistemas e procedimentos necessários para que astronautas voltem a caminhar na superfície lunar.

Muita gente se pergunta por que, nas décadas de 1960 e 1970, os pousos das missões Apollo pareciam tão diretos e relativamente rápidos. Essa comparação alimenta até hoje teorias conspiratórias e dúvidas infundadas sobre se o ser humano realmente esteve na Lua.
O fato é que, na época, a exploração lunar era diferente e, de certa forma, mais simples. O foco estava em chegar primeiro, não em construir uma presença duradoura. Essa diferença de objetivo ajuda a entender o contraste entre os dois programas.
“Um pequeno passo para um homem, um grande passo para a humanidade”
A aventura começou em 1969, quando a Apollo 11 levou Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins até a Lua. O módulo Eagle pousou em 20 de julho, com Armstrong e Aldrin a bordo, enquanto Collins permaneceu orbitando no módulo de comando Columbia, garantindo comunicação e suporte.
Seis horas após o pouso, Armstrong desceu a escada do módulo e se tornou o primeiro ser humano a pisar no solo lunar, pronunciando a célebre frase: “Um pequeno passo para um homem, um grande passo para a humanidade”. A cena marcou a história da exploração espacial e inaugurou uma breve era de viagens tripuladas ao satélite.

A Apollo 11 foi seguida por mais cinco pousos bem-sucedidos. Ao todo, doze astronautas caminharam na superfície lunar até 1972, quando a Apollo 17 encerrou o programa com Harrison Schmitt como o último a pisar na Lua. Nenhuma mulher esteve entre os astronautas daquela era.
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Entenda as diferenças entre os dois programas da NASA de viagens à Lua
Esse cenário vai mudar com o programa Artemis. A NASA pretende levar mulheres e pessoas negras à superfície lunar pela primeira vez, ampliando a representatividade no espaço. O nome do programa foi escolhido justamente em referência à deusa grega Ártemis, irmã gêmea de Apolo e associada à feminilidade, à natureza e à proteção.
Mas a diferença entre os dois programas vai muito além disso. Um dos pontos centrais é o contexto histórico. As missões Apollo aconteceram durante a Guerra Fria, período de intensa rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética. A corrida espacial era uma disputa de prestígio internacional, e pousar na Lua se tornou um símbolo de poder tecnológico.

Segundo a NASA, o objetivo primordial era simples: ser o primeiro país a pousar na Lua. A prioridade não era construir bases, nem desenvolver pesquisas de longo prazo. O foco era político e estratégico.
Hoje, embora tensões geopolíticas continuem existindo, o programa Artemis não está preso à lógica da competição entre superpotências. Ele envolve cooperação internacional, parcerias comerciais e metas científicas e industriais mais abrangentes. O plano da NASA é estabelecer uma presença sustentável na Lua, que sirva como plataforma para futuras missões ao espaço profundo, incluindo Marte.
Essa mudança altera a escala do desafio. Se as missões Apollo podem ser comparadas a acampamentos de fim de semana, o programa Artemis pretende construir uma “segunda casa” fora da Terra. Para isso, a NASA e parceiros planejam a construção da Gateway, uma estação que ficará em órbita lunar servindo como ponto de apoio para pousos, pesquisas e logística.
Outra diferença está no alcance geográfico das missões. Enquanto a Apollo explorou apenas regiões próximas do equador lunar, a Artemis pretende acessar novas áreas, incluindo o polo sul da Lua, onde há indícios de gelo armazenado em crateras permanentemente sombreadas. Esse gelo pode ser uma fonte estratégica de água e até de combustível espacial no futuro.
Novas tecnologias e mais investimento
A comparação tecnológica também é significativa. O veículo Saturno V, usado no programa Apollo, tinha 110 metros de altura, cerca de 10 metros de diâmetro e quase três mil toneladas. Era um foguete de três estágios, movido a oxigênio líquido e combustíveis criogênicos, e permanece até hoje como o maior foguete operacional da história.

O programa Artemis utiliza uma nova geração de veículos. O sistema Space Launch System (SLS), combinado com a cápsula Orion, chega a 98 metros de altura e 2,6 mil toneladas, mas conta com equipamentos modernos, eletrônica avançada, sistemas digitais de navegação e padrões internacionais de integração para permitir que diferentes países contribuam com módulos, equipamentos e tecnologias.
Os custos também ilustram essa diferença de ambição. O programa Apollo consumiu cerca de US$107 bilhões em valores históricos (não corrigidos pela inflação). Já o programa Artemis, de acordo com relatórios do NASA Office of Inspector General, pode ter alcançado cerca de US$93 bilhões até o fim do ano fiscal de 2025, sem incluir futuras etapas de construção de infraestrutura lunar.

Além do retorno humano à superfície, o programa Artemis faz parte de uma estratégia mais ampla para viabilizar missões interplanetárias no futuro. A Lua seria um campo de testes para tecnologias essenciais, como uso de recursos locais, suporte de vida prolongado e operações em ambientes extremos.
Se a Apollo representou o momento em que o ser humano mostrou que podia chegar à Lua, a Artemis representa o início da fase em que aprendemos a viver e trabalhar nela. É essa mudança de escala – de visita para ocupação – que explica por que, agora, tudo parece (e é) muito mais complexo.